A última vez que o Turnstile pisou em solo brasileiro foi há 10 anos. Sim, fez uma década! Loucura, né? A banda, que é estadunidense, voltou ao Brasil, mas não mais como promessa de nicho ou aquele rolê mais underground. E sim consagrada e um dos nomes mais comentados do rock contemporâneo, com direito a tocar no (fucking) palco principal do Lollapalooza Brasil.
No domingo, o quinteto de Baltimore fez no Budweiser aquilo que os fãs já esperavam, e talvez até um pouco mais: um show catártico, intenso e com pitadas emotivas, daqueles que você sente arrepiando no corpo antes mesmo de processar com a cabeça. Logo de cara, ficou claro que a apresentação não seria só uma sucessão de músicas, mas uma experiência pensada como narrativa. As sequências foram muito bem construídas, mesmo com um breve silêncio, costurando faixas de álbuns diferentes com uma fluidez, fazendo parecer que tudo era parte do mesmo capítulo. Não estava relacionado à nostalgia ou a divulgação de um disco específico, mas sim sobre energia contínua, de manter a chama acesa do começo ao fim. E, bom, funcionou.
O público respondeu como se estivesse esperando por esse momento há anos e, em certo sentido, estava mesmo. Quando os primeiros riffs mais pesados começaram a ecoar, o mosh pit se formou quase que instantaneamente, como um reflexo coletivo. Teve gente reclamando de ter sido machucada, claro. Sempre tem. Mas também surgiu aquela sensação meio óbvia, quase irônica, que paira nesses momentos: “alô, isso aqui é um show de rock. O caos faz parte do contrato, alguns de vocês já deveriam saber”. Ainda assim, o que mais impressionava não eram os pulos e corpos se jogando no ar, mas o controle. Tinha peso, mas também dinâmica. Explosão e respiro. O Turnstile mostrou que intensidade não significa barulho o tempo todo. É necessário saber a hora certa de subir o tom e de segurar.

Quando veio “Blackout”, a penúltima música do show, o público entrou em êxtase coletivo. Afinal, não tinha como ser diferente. Não era só cantar junto, era gritar, pular, se abraçar, se jogar. Uma desabafo de quem curte música de verdade, daqueles que fazem o chão vibrar. A música virou um ponto de virada emocional no set, um daqueles instantes em que a banda e a plateia parecem respirar no mesmo ritmo. O vocalista, Brendan Yates, parecia totalmente entregue àquele encontro. Durante a track, pulou na plateia, dissolvendo de vez a fronteira entre palco e público, um gesto clássico do hardcore, mas que ali soou menos como performance e mais como celebração. Aquele grito de: ‘isso aqui é nosso’, sabe? E era.
Entre uma música e outra, ele fez questão de agradecer ao Brasil, visivelmente emocionado. Não soava como protocolo. A gratidão parecia real, de quem entende o peso de tocar para um público que esperou anos por aquele retorno e até para aqueles que nem sabiam da existência da banda, mas curtiram igual. Talvez o mais interessante seja perceber como a banda mudou, e como isso apareceu no palco. Se lá em 2016 o som era mais cru e direto, agora existe uma camada nova de sofisticação. Elementos que trocam uma ideia direta com texturas mais atmosféricas. Não é mais ‘só’ hardcore. É hardcore expandido, híbrido e, com certeza, contemporâneo.
Não por acaso, o grupo chegou ao mainstream depois do sucesso de “GLOW ON” e consolidou essa fase ao vencer o Grammy de Melhor Álbum de Rock em 2026 com “NEVER ENOUGH” e Melhor Performance de Metal com “BIRDS”. Não é pouca coisa não! O que se viu no palco do Lollapalooza Brasil foi justamente a transição de uma banda que cresceu sem perder a essência. Em suma, o show foi emocionante, não apenas sentimentalmente falando, mas no sentido físico mesmo. Daquele tipo de emoção que vem em forma de suor, grito e coração acelerado. Um lembrete de que, às vezes, a música não precisa ser entendida e nem mastigada. Só deve ser sentida.

