Não tenho certeza se é possível olhar para a Lapa do Allianz Parque. Mas em “Castelos e Ruínas” o BK’ já tinha dado a visão da sua perspectiva de futuro quando ressalta “Tô de rolé pela minha rua de olho no mundo / Tô de rolé pelo meu bairro de olho no mundo”. Com o show que fará em São Paulo, comemorando os 10 anos da sua carreira e do álbum que serviu de propulsor para mudar o cenário do rap naquele momento, transformando o seu protagonista em (talvez) o mais importante da sua geração, ele pode mais uma vez colocar o rap em outro patamar. Isso (apenas) sob perspectiva de mercado.
Por esse motivo, a escolha do lugar foi estratégica. Nada mais. Pode ser também por falta de agenda nos lugares que corriqueiramente acontecem os grandes shows no Rio de Janeiro [Engenhão, Farmasi Arena, Maracanã, Apoteose]. Porém, ser realizado pela 30e também pesa na escolha, considerando que a produtora tem uma parceria com a casa do Palmeiras. São várias questões envolvidas. A logística é uma delas porque a arena já foi projetada para receber esse tipo de espetáculo.
Obviamente que os fãs do RJ pouco se importam com esses detalhes, e com razão [ou não] reclamaram do possível descaso dele com o público da sua área. Queriam que a comemoração fosse lá. Lembrando que na abertura da turnê ÍCARUS, mais de 20 mil compareceram na Apoteose durante o festival Gigantes para vê-lo.
Por outro lado, mesmo sem explanarem, é provável que ele faça o mesmo em outras capitais. É o jogo do mercado. E o rapper entendeu que só disposição não basta. Assim como fez “Castelos & Ruínas” se tornar memorável pela autenticidade, estar presente nesse palco se faz necessário para marcar território. Poucos teriam a mesma ambição e, até mesmo, conseguiriam assumir a responsabilidade de fazer algo desse tamanho “sozinho”. Esse feito ainda não aconteceu no rap nacional. E apenas alguns poderiam colocar um número considerável de pessoas em estádios.
Racionais MC’s, Emicida, Marcelo D2 e (provavelmente) Matuê seriam os cotados. Mas BK foi quem tomou a dianteira para ocupar esse espaço tão grande. Vai desbloquear um lugar não muito fácil de acessar, assim como Emicida fez no Theatro Municipal de São Paulo.
Tive a oportunidade de ver Abebe Bikila em diversos lugares em São Paulo. Da Casa Natura, passando pela Audio, Espaço Unimed, João Rock, Batekoo e Lollapalooza. Todos foram irrepreensíveis. Ao lado do JXNVS, ele consegue manter a atenção sem precisar de muito. Agora para este, o nível sobe um pouco. A dúvida é sobre como será a execução.
Dessa vez, ele virá com banda, tipo Jay-Z no Madison Square Garden em 2003 [que resultou no documentário “Fade To Back]? Qual será o setlist, o cenário, as participações? Para manter a surpresas, essas são perguntas que deveriam ser respondidas apenas em 19 de setembro, dia que [inevitavelmente] entrará para a história do rap brasileiro. Aos cariocas, paciência. O BK é tão bairrista quanto vocês. Agora, ele só está “correndo atrás de tudo aquilo que esse mundo tem pra me dar / O que essa vida tem pra me dar?”

