De bandeira da Palestina empunhada, todo de branco e óculos vermelhos, FBC entra no palco Flying Fish, com ar de mistério. Um vídeo com a mensagem quase que pastoral, profética, de “A Cosmologia Corporativa do Senhor Arthur Jansen” faz a introdução. As imagens, provavelmente, foram geradas por IA. A mesma tecnologia é usada para criar outras ilustrações que aparecem ao longo do seu show no Lollapalooza, uma delas com o ex-presidente tentando abrir a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda, e outra explodindo a cabeça de Trump, Bolsonaro, Milei e Netanyahu.
Como não estava jogando em casa, ele teve que adaptar o repertório. O público aguardava KATSEYE. Mas o Padrim, como ressaltou várias vezes, soube criar um direcionamento que foi crescendo e ganhando a atenção aos poucos. Até quem estava sentado, não resistiu quando ele entrou na fase mais dançante, dos discos “O AMOR, O PERDÃO E A TECNOLOGIA IRÕA NOS LEVAR PARA OUTRO PLANETA” e “Baile”. Porém, a ideia inicial era encerrar a turnê de “Assaltos e Batidas”, de 2025. “A galera da equipe conversou comigo e falou: Fabrício, pô, mas Lollapalooza é grande, você tem músicas conhecidas nesses mais de 20 anos de carreira”, diz. “Essa era a chance de expandir o público, de furar a bolha, e eu acredito que isso aconteceu. O show é político sempre, do começo ao fim, mas igual você pontuou, ele vai crescendo, vai se transformando”. Como não estava pregando para convertido, teve que falar a linguagem do povo.
“Tinha uma garotada lá na frente. Teve uma hora que eu falei assim: “Vamos abrir um mosh pit (uma roda) aí”… e a galera respondeu: ‘Não, não, não, não’. Pô, é uma meninada nova, mas acredito que essa galera é esclarecida. Sabe o que que tá acontecendo, né? A galera entende. E a gente acredita naquilo que faz”, afirma. “Eu acredito que a galera saiu tocada. Acho que atingimos algo dentro de cada um e cada uma que estava ali na frente, porque esses eventos tem a cultura de grade, né? Pessoal vai pra ficar na grade e esperar até o artista dele chegar. Essa é a oportunidade de fazer o som expandir”.

Para conseguir essa expansão com êxito, FBC deixou tudo orgânico. Foi com DJ, MC’s, para as dobras, backing vocais, um bboy caracterizado com um olho que tudo vê e uma banda com naipe de metais. “É a oportunidade que a gente tem de mostrar esse trabalho com banda, porque investimos nos arranjos. Esses são todos músicos que se formaram na faculdade, são professores na sua área”, ressalta. “Então é muito caro fazer um som assim dentro do rap. O bom é que a galera toda é de BH, então a gente consegue se entender, tá ligado?” Esse investimento foi necessário para elaborar uma roupagem diferente e atingir ouvidos distintos, que não estão habituados com o rap. “O público do rap tá ali habituado com um som mecânico mesmo, é o MC, o Adobrado e o DJ, mas para atingir esse esse outro público, que é o público que é a maioria nos festivais, a gente traz esse som mais elaborado e eu fico muito feliz de atingir de verdade a galera”.
Além das suas, FBC fez uma ode a Chico Sciense & Nação Zumbi. Foi quando pediu para abrirem uma roda de bate-cabeça, mas não aconteceu pela indisposição de muitos que guardavam (sentados) seus espaços. Também criou ali na hora uns mashups de Gabriel O Pensador e Tim Maia. Com seu carisma, conquistou. Obviamente, não poderia deixar de batizar os recém-convertidos. Pediu para que todos levantassem as mão e distribuiu sua benção.
“É muito legal ver que as pessoas primeiro ficam com aquela ojeriza, aquele estranhamento de ouvir aquele som mais de protesto, mas quando chega e, “Baile”, já mais no final, a galera já tá entregue, já está dentro do show, absorvida pela parada”.
Isso realmente aconteceu, apesar do espanto das várias mães presentes com suas filhas (crianças e adolescentes) quando tocou “Polícia Covarde”. Sem dizer palavra nenhuma pelo olhar afirmavam que aquele tipo de música não era legal. Porém, elas se encantaram com a energia transmitida por Fabrício. Uma bandeira de Israel foi queimada no gramado.
Como um bom marqueteiro, “vendeu o peixe”. Repetiu algumas vezes sobre o lançamento do seu próximo disco no dia 17 de abril. Disse que tem muito rock, e que fez erá algumas músicas do João Bosco. Só não compartilhou os detalhes. Apenas ressaltou que “tá foda”. Talvez colocá-lo junto com o pop tenha sido um erro de programação, que foi transformado em acerto pelo próprio. A participação dele na edição de 2026 do Lollapalooza, assim como a de Stefanie, Negra Li, FEBRE90s e N.I.N.A, reafirmou a potência do rap BR, e que existe uma grande lacuna a ser preenchida. Usando as palavras de FBC, “ocupar espaços é necessário”.

