No final dos anos 1980, Chuck D, do Public Enemy, disse que o rap era a CNN das ruas (“rap music is the CNN of the ghetto”). Talvez em algum momento tenha mudado o tema da sua programação, mas por um bom tempo informou sem nenhum tipo de filtro o que estava acontecendo nas periferias. No Brasil, o rap foi o livro e a escola de muitos adolescentes e jovens. Também ajudou na formação crítica e política de quem estava com os ouvidos atentos. Outros apenas ouviram, mas não absorveram.
Seguindo essa premissas, que se conecta com o quinto elemento do Hip Hop, o conhecimento, o Clube de Leitura do Rap propõe uma leitura coletiva das letras de rap a partir de seus contextos, referências, escolhas de linguagem e diferentes possibilidades de interpretação. Para isso, convida os próprios artistas para decifrarem as mensagens compartilhadas. Essa é uma forma de ampliar o olhar sobre a produção literária contemporânea, tendo o rap como base. É tipo um clube de leitura, mas ao invés de um livro específico, a conversa gira em torno das composições.
O projeto foi criado pelos pesquisadores Nerie Bento, Marco Aurélio (Marcola) e Viny Rodrigues para promover encontros entre artistas e público, e assim investigar como versos são construídos, quais histórias atravessam as composições e que sentidos podem surgir a partir de uma leitura mais atenta. Em cada encontro, duas letras são selecionadas pela curadoria e distribuídas aos participantes. A partir de trechos destacados, todos conversam sobre escolhas de palavras, imagens, referências e contextos de criação. A proposta é aproximar a experiência da escuta de uma investigação sobre a construção da obra, colocando o artista também como interlocutor de sua própria escrita.
A temporada no Sesc Vila Mariana, que se inicia no dia 22/08, sábado, às 15h, terá como convidado o rapper e produtor Parteum. Na ocasião serão discutidas as letras de “Raciocínio Quebrado” e “Raciocínio Inteiro”, ambas escritas em momentos distintos da carreira do MC que é conhecido por um tipo de criação que foge do que é feito no rap. E isso não é de hoje. Ele tem uma forma que é característica. Original sem cópia. Sem contar que Parteum é um exímio conhecedor da cultura em que se estabeleceu.
Na segunda edição, Nerie, Marcola e Viny recebem no dia 16, às 19h, o MC Hariel. Pode até parece estranho inserir o funk num Clube de Leitura do Rap, porém ambos fazem parte da mesma árvore genealógica. Além disso, os funks de Hariel possuem uma aproximação com o rap na forma, estrutura e nos direcionamentos. Para fechar a programação no dia 17, às 15h, Rico Dalasam conversa sobre identidade, afeto, cultura e as possibilidades da palavra como ferramenta de criação e resistência. Sendo um homem gay, ele foi um dos responsáveis a abrir possibilidades para que a comunidade LGBTQI+ tivesse voz e espaço no rap.
Essa tríade, muito bem escolhida, mostra o quão o rap é diverso. É como se fosse uma grande livraria de um gênero específico com vários tipos de linguagens a serem conhecidas e absorvidas por leitores, que ao invés de lerem ouvem.
SERVIÇO
Clube de Leitura do Rap – Sesc Vila Mariana
2.08 | 15h – Parteum
16.09 | 19h – MC Hariel
17.10 | 15h – Rico Dalasam
Entrada: Grátis. Classificação Livre
Sesc Vila Mariana | Rua Pelotas, 141, Vila Mariana – Metrô Ana Rosa
Estacionamento: 125 vagas – R$ 8,00 a primeira hora + R$ 3,00 a hora adicional (Credencial Plena: trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes). R$ 17,00 a primeira hora + R$ 4,00 a hora adicional (outros).
Paraciclo: 16 vagas – gratuito (obs.: é necessário a utilização de travas de seguranças).

