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VANDAL na VANGUARDAH, VANGUARDAH, VANGUARDAH

"É um pagamento para tudo que a arte vem me propiciando".

Devoto de Santa Dulce dos Pobres, VANDAL escolheu o dia dela, 13 de agosto, para lançar o álbum VANGUARDAH. Essa devoção ao Anjo Bom da Bahia é uma herança da sua falecida avó. Foi no Hospital Santo Antônio, pertencente ao complexo das obras sociais Irmã Dulce, que ele viu o cuidado e como se comportava a verdade de uma fé e de um milagre palpável. Lá, sua avó conseguiu ser internada para um tratamento, depois de passar por diferentes Unidades de Pronto Atendimento (UPA).

“Eu passava os dias lá, eu comia lá, ia render minha mãe, me rendia”, lembra. “Isso tudo sempre me circundou. E eu sou um cara muito entregue ao povo, ao público. Eu não sou como os artistas convencionais, que estão ali, cheios de segurança, pra afastar o público, que não quer tirar foto, que não dá autógrafo, que não fala, que quer o seu momento. Minha própria finada da vó dizia: você não se governa, porque você é muito doado ao povo. Assim também era minha vó, assim era minha irmã Dulce. Então, eu sempre me coloquei como um santo, mas não com a soberba de fé, como alguém que também estava se doando ali”.

Essa fé direciona o primeiro disco de uma trilogia que será complementada com FEZTAH DEH LARGOH e EAUH DEH PARFUMH. No abre alas, o objetivo dele é expandir sua linguagem sonora. Por isso, se uniu ao produtor Tiago Simões e a Russo Passapusso, que assumiu a direção musical e aproximou o rapper baiano do maestro Ubiratan Marques e da Orquestra Afro-sinfônica. O resultado é uma profusão de ritmos afro-brasileiros, que inicialmente pode chocar quem estava esperando algo mais denso. Mas quem o conhece minimamente sabe que ele não fica preso a nada. É intenso. Um tipo de rap que só poderia ser feito no Brasil, mais especificamente na Bahia. Não tem como confundir. Toda a identidade dele está ali. Isso é reafirmado algumas vezes nesta conversa que tivemos por videochamada. Também faz jus ao título que escolheu, seja musicalmente, no visual e nas ideias que trocamos.

Já na pergunta inicial, VANDAL diz que a expectativa que tinha, encontrou um equilíbrio a partir do momento que eu viu tudo dando certo. “O público está mais ansioso do que eu”, afirmou. “Então, eu me coloquei num ponto de dizer, vou ficar tranquilo, eu tenho que respirar, eu tenho que ficar mais calmo, porque eu tenho que estar pleno quando essa entrega acontecer, porque eu acredito muito no pós do VANGUARDAH”. Assim que o relógio marcou 00h00, na virada do dia 12 para o 13, o MC estourou o champanhe para comemorar com os seus. Ele é VANGUARDAH, VANGUARDAH, VANGUARDAH.

Não é segredo para ninguém que você sempre esteve na vanguarda do rap. Esse disco vem para reafirmar isso?

O VANGUARDAH é um pagamento para tudo que a arte vem me propiciando. Vem principalmente para mostrar às pessoas que sempre acompanharam o VANDAL, e para os artistas mais novos, que é possível pagar o dízimo artístico. Quando eu digo dízimo artístico, pode se confundir com esse dízimo religioso, até porque o disco tem essa carga religiosa. Mas estou dizendo o dízimo da entrega com o que a arte te oferta. E durante esse percurso todo, desde o TIPOH LAZ VEGAS, a arte vem me ofertando possibilidades, principalmente a possibilidade de estar vivo e viver com ela, porque eu odeio o termo viver de arte. Eu amo o termo viver com a arte. E o principal objetivo do VANGUARDAH é quebrar todos esses pseudo pontos que foram pintados por vários artistas. É o artista que faz uma capa conceitual, entre aspas, e utiliza um samplezinho dentro do disco e tenta vender isso como um conceito. É o artista que a gente sabe que ganha muito dinheiro, mas acaba sendo preguiçoso e não reverte um pouco desse dinheiro para uma produção artística digna. É o artista que está ali dentro dos canais de contatos, de possibilidade, mas que não usa isso para fazer com que a arte se impulsione de uma forma mais enérgica.

Eu vejo que muitos artistas, quando alcançam um determinado patamar e círculo midiático começam a ofertar ao público trabalhos preguiçosos, trabalhos genéricos… é uma mesmice essa rodagem de playlist para Spotify apenas, e os fãs começam a questionar: “eu queria um determinado artista do Antigo Testamento”. Eu fico muito feliz qu as pessoas vão ouvir o VANGUARDAH e vão entender que o VANDAL não se adequa a essa realidade que a maioria dos artistas, quando conseguem concluir esses trânsitos de vida dentro da arte, começam a entregar. Você nunca vai ouvir alguém dizer: “pô, eu quero o VANDAL do Velho Testamento”. Isso porque o VANDAL vai fincar o que ele já vem fincando dentro disso. E o VANGUARDAH mostra que é possível ter uma entrega artística contundente, consciente, com conteúdo verdadeiro, legítimo e fora de todas essas possibilidades que a gente está vendo. Eu estou observando que tem MCs hoje em dia que escrevem com o chat GPT. Tem artistas de design que estão trabalhando com IA de uma forma massiva. Aí você vai ver a capa de um trabalho e se confunde com um anúncio de uma pizzaria no iFood. Nada contra as pizzarias. Eu amo pizza, e amo o trabalho de todos. Mas acho que o VANGUARDAH vem com essa segurança de fincar que, sim, é possível fazer esse trânsito artístico de uma forma legítima.

Eu tenho observado também que a música, os álbuns, os vídeos, as capas, enfim, tudo que gira em torno do viés artístico e musical, tem sido muito polido, tudo muito limpo e, consequentemente, plastificado. Falta aquela “sujeira”, a coisa humana… e ouvindo VANGUARDAH tem muito dessa humanidade necessária. E isso me conforta porque eu fui ouvindo sem ficar criando expectativa do que viria depois, porque estava confortável em saber, mesmo que inconscientemente, que o que ia vir seria algo que poderia me surpreender positivamente. Vai bem além do trap ou boom bap. É um rap genuinamente brasileiro, mas que essencialmente não é tão de rap assim, porque vai para diferentes ambientes, tendo como base os ritmos afro-brasileiros.

Total. É sempre bom frisar esse quesito afro-brasileiro, afro-baiano, afro-sinfônico… esse banho que eu consegui, que eu fui agraciado através do Maestro Ubiratan Marques. Esse banho da Orquestra Afro-sinfônica, que, para mim, é o projeto mais sensível musical sendo realizado no país. Eu fui agraciado por isso, e estou honrado de ter isso. E a construção musical dentro do VANGUARDAH tem sim a sua essência rap, porque muitos artistas também chegam num momento que é bonito dizer que não é rap. Dizem: “eu não sou rap, eu não sou rapper, eu não sou isso, eu não sou aquilo”. Não é por aí. Eu só quero dizer para as pessoas que é possível alguém que está dentro dos anais culturais do hip-hop, mesclar todas as possibilidades com um pouco mais de sensibilidade, que é essa sensibilidade de pesquisa. Porque a produção, quando é entregue, principalmente quando se trata de algo mais sério, quando se quer vender algo mais contundente, algo mais maduro, a gente já sabe o que vai esperar. Alguém sampleou alguém do samba, alguém sampleou alguém da música brasileira, conseguiu um perfil de instrumental que transita entre o boom bap e o trap, suavizou ali com algumas melodias, jazz, blues etc. E aí faz essa entrega. Mas quando as pessoas ouvem, e foi o que você falou, as pessoas não sentem uma profundidade. E essa profundidade está na pesquisa. Quando as pessoas entenderem que é uma pesquisa afro-sinfônica, que é um disco que tem uma cara erudita, mas que a gente quebra esse conceito erudito, de orquestração europeizada, toda aquela onda de se olhar sempre… quando estou olhando algo orquestrado, estou pensando lá na Europa. Não, aqui é diferente. Você vai ouvir toda essa ambientação, você vai se encantar com as cordas, você vai se encantar com os coros. Você vai se encantar com todos os arranjos, mas você vai olhar para a Bahia. E isso é o principal. Você vai ver as letras e vai olhar para a Bahia. Você vai entender as ruas de Salvador. Por isso que eu digo que a gente não consegue fugir do rap, porque tem um bairrismo. Esse disco é Salvador, esse disco é Bahia. E ao mesmo tempo esse disco flerta com toda essa profundidade do que a música precisa tanto hoje em dia, que é a pesquisa.

Me fala um pouco dessa produção e a conexão com o Maestro Ubiratan Marques?

O Maestro também é um presente que foi dado a gente. A gente teve esse encontro nas viagens com o BaianaSystem, e a gente já vinha se entendendo, flertando, e depois que o Maestro foi lançando as suas coisas, a gente foi vendo as coisas que ele fazia além do Baiana. A gente foi começando, de uma certa forma, a entender as possibilidades. Eu já vinha fazendo as coisas com o Thiago Simões, que assina as produções do disco. Só que quando a gente estava ouvindo, nessas idas e vindas, começamos com as minhas aspirações, que era possível. E o Russo (Passapusso) bateu nessa tecla. Ele também vem e assina isso porque Russo é o cara que me pega pelo braço e diz: “oh, é possível. Todas essas maluquices que você está aí esperando, que eu estou esperando aqui, que a gente está achando que talvez não aconteça, vamos para cima disso? É possível”. Então o maestro vira esse cara de também se surpreender com o que ele conseguiu atingir. De conseguir ver as músicas, ver as formas, e ele falar também: “rapaz, aqui cabe isso”. Não, velho, já fiz isso, já escrevi, já fiz. A gente foi se surpreendendo, porque a gente foi encontrando nas próprias músicas as possibilidades dessas entregas finais, que até então eram apenas sonho. Será que casa, será que isso vai ser bom? Será que vai ser realmente proveitoso a gente entregar o tempo a isso? E o Maestro e o Russo, que têm um entendimento musical absurdo… eles têm um diálogo musical muito à frente, eles se falam com a música pelo olhar. Isso é absurdo. Eles se olham e começam a desenhar as coisas. E dentro desse processo de produção foi assim. Um olhava para o outro e já via o que ia acontecer na outra música. Foi abrindo esse portal. O Maestro foi crucial nisso. Ele se doou, se entregou e conseguiu trazer para a gente essa carga erudita afro-barroca, baiana, que a gente tanto queria.

 

“EU NÃO ESTOU PREOCUPADO EM SER O CARA DO MELHOR FLOW, EU NÃO ESTOU PREOCUPADO EM SER O MELHOR MC, NÃO ESTOU PREOCUPADO EM TER A MELHOR DISCOGRAFIA, NÃO ESTOU PREOCUPADO COM NADA DISSO. ESTOU PREOCUPADO EM SER UM PONTO DE CULTURA DENTRO DA ARTE”.

 

 

As letras já estavam prontas ou foi tudo criado naquele ambiente?

Essas letras já estavam prontas. Na verdade, esse disco é um processo de mais de cinco anos. Tem letras que são mais antigas ainda. E esse disco desembocou em outros dois que são FEZTAH DEH LARGOH e EAUH DEH PARFUMH. E é muito engraçado falar disso, porque eu não escrevo como os outros MCs. Eu não vim das batalhas de freestyle. Não sou o cara do freestyle. Eu sou muito verdadeiro, muito honesto em quem eu sou, no que eu quero, onde eu quero chegar e no que eu mostro. Então eu digo a todo mundo: “eu não sou o cara do freestyle. Eu não sou o cara que escreve assim como vocês escrevem”. Eu preciso que, como o próprio Russo fala, desça a deusa música. Eu preciso que a música seja enviada até mim. Então, o que tem no VANGUARDAH foi enviado até mim. Eu estou dormindo e a letra vem. Aí tenho que acordar de madrugada e escrever a letra. Eu estou num carro, estou na rua, na minha favela, na Cidade Nova, ou na favela do meu parceiro Core aqui no Bairro da Paz… enfim, eu posso estar em qualquer lugar. A letra vem pra mim. Eu não mando nisso. A letra vem, paro, pego o celular, escrevo e fico: “meu Deus, é isso, né?” E aí eu já tinha muito. Coube ao Thiago… porque quando essas letras vêm pra mim, como é tudo muito imagético, porque eu escrevo o que eu vi, o que vivi, o que vivenciei, o que vem para mim através de sonhos, etc… então, o Thiago conseguiu dar essa base nas minhas ideias. Falei: “pô, esse tipo de instrumental aqui, pô, esse tipo de sample aqui, pô, eu vejo… é tudo muito imagético”.

Eu vejo um filme naquilo. Eu estou escrevendo, mas estou pensando muito no que eu vivi, no que eu fiz, muitas histórias que foram contadas para mim. Muito foi do que eu vivi nessa minha vida antiga, e que vivo até hoje. Eu digo a você, se eu ficar preso em casa, vou escrever tudo que eu já vivi, mas eu preciso estar na rua, preciso estar em rotação, preciso estar vendo, até mesmo musicalmente. Eu preciso ouvir alguma zoada na rua. No VANGUARDAH mesmo tem áudios que são gravados na rua. A gente precisa estar vivendo esse contexto todo para poder entregar a música 100%. Eu não conseguiria viver como os caras vivem nessa onda de sessão de estúdio. Eu não faço sessão de estúdio. Eu odeio sessão de estúdio. Eu vou para o estúdio quando as coisas já estão aflorando. Quando eu entro no estúdio, eu já sei tudo que eu vou fazer. Eu já sei qual tipo de instrumental casa. Eu já sei que tipo de entonação vou botar em voz. Eu já sei qual trecho vai ser mais pausado. Eu sei qual trecho vai ser mais urgente. Então é tudo muito dado a mim. Isso também é uma dádiva, mas também acaba sendo um ponto fraco meu. Eu não consigo me movimentar como os outros caras. Os caras escrevem letras rapidamente. Eu tenho que sentir a dor. Eu tenho que chorar com aquilo. Eu tenho que meio que ter um pesadelo para poder escrever, sabe? É mais por aí.

Esse disco também carrega uma carga de fé e espiritualidade. A capa já mostra isso, sendo uma das mais bonitas e impactantes desses últimos anos na música brasileira. Pelo menos não me lembro de uma que tenha sido tão marcante, que a gente bata o olho e comunique apenas com os elementos expostos ali. Como que essa fé direciona VANGUARDAH e qual é a história dessa foto de capa?

Eu sou devoto de Santa Dulce dos Pobres, o Anjo Bom da Bahia. Uma devoção que vem da minha avó. Perdi a minha avó, mas antes vivi um conflito muito grande, indo de UPA em UPA, sofrendo com ela atrás de regulação (internação). Eu tive o abraço da Santa Dulce quando minha avó conseguiu ser regulada no Hospital Santo Antônio, que fica no complexo das obras sociais Irmã Dulce. Lá dentro, eu vi como se comportava a verdade de uma fé palpável, de um milagre palpável, como eu costumo dizer. Eu passava os dias lá, comia lá, ia render minha mãe, me rendia. Isso tudo sempre me circundou. E eu sou um cara muito entregue ao povo, ao público. Eu não sou como os artistas convencionais, que estão ali, cheios de segurança, para afastar o público, que não quer tirar foto, que não dá autógrafo, que não fala, que quer o seu momento. Minha própria finada da vó dizia: “você não se governa, porque você é muito doado ao povo. Assim também era minha avó, assim era minha irmã Dulce. Então, eu sempre me coloquei como um santo, mas não com a soberba de fé, como alguém que também estava se doando ali. Como eu fui criado com vó, depois de tudo, eu entendi, convivendo dentro das obras sociais da Irmã Dulce, o que era aquela fé e as histórias sobre a Santa Dulce. Então, sempre me vi como esse avatar. E esse processo da confecção da capa tem mais de cinco anos. A gente passou por artesãos e artesãos para fazer um molde meu, porque como eu sempre me vi ali nos moshs que eu dou no público e tal… sempre me vi.

Eu fiz uma turnê chamada ROMARIAH alguns anos atrás, então sempre me entreguei como romeiro. Também sempre gostei dessa estética, sempre me vi como um santo sendo carregado pelo público quando eu dava um mosh. Aí eu falei: “veio, eu preciso materializar isso, para que alguém tenha isso em mãos, tenha isso em casa”. A gente foi decidindo durante esses anos, passando de artesão em artesão até que a gente encontrou o William, que é um amigo nosso, um tatuador, que foi quem fez essa peça. Porque é tudo manual, é tudo manufaturado, não tem nada de IA, não tem nada de impressora 3D, não tem nada disso. Depois do William, a gente conseguiu… na minha rua tinha uma fábrica de gesso, que era no bairro da Cidade Nova. E essa fábrica de gesso a gente frequentava porque a mãe de meus amigos trabalhava lá. E eu sempre vi essas imagens saindo do gesso e sendo feitas. Gostava dos detalhes dourados e prata, porque eu venho da pixação e do grafite. E aí também tinha essa onda escolar que a gente quebrava as peças de gesso e pixava com o gesso no chão. E aí o Giovani Cidreira, que é uma das participações do disco… em conversas ele me fala que o tio dele tem uma fábrica de gesso e que o tio dele é um santeiro real, que lá fazem imagens pro Brasil inteiro. E, por coincidência, o tio dele trabalhava na fábrica da Cidade Nova, que fechou. Eu falei: “a gente vai ter que fazer isso com ele”. E é lá em Valéria, um dos bairros mais complexados em termos de segurança pública, em termos de necessidade, é um bairro que carece de atenção… a gente estava lá com eles vivenciando o dia a dia de uma fábrica de gesso, de cerâmica mesmo, vendo as peças sendo feitas, vendo as imagens de Padilha sendo feitas, vendo as imagens de Santa Dulce sendo feitas, vendo a imagem de Preto Velho sendo feita, vendo as imagens de Santo Antônio sendo feitas. Ou seja, aquela foto de capa é real. É uma foto das imagens que são produzidas nesta fábrica, na fábrica São Francisco, que fica em Valéria. O que tem ali é a minha imagem que entra dentro desse contexto e a irmã Santa Dulce, que eu sempre carrego em mãos para toda viagem que faço. Eu carrego ela e ela está naquele meio. Mas todas aquelas imagens que estão ali são reais. Elas são vendidas. Aquilo ali é uma bancada de uma fábrica de gesso que pertence a um santeiro real. Mais vanguarda que isso não existe. Aquele jornal que está embaixo é o jornal que embala as imagens para venda.

É muito surreal.

E o jornal já estava lá. Então, a capa foi dada a gente a partir do momento que a gente foi viver a coisa real. Que a gente foi ver. A gente vivia na fábrica com as pessoas. A gente estava vendo a pintura, estava vendo o processo, estava ouvindo as histórias. Então, estava tudo ali. Qualquer foto que a gente tirasse dali já seria uma capa, porque acabamos traduzindo o ambiente de uma fábrica de gesso real.

 

Foto: @pedrosoaresfs

 

E qual é o milagre do Santo VANDAL?

Eu acho que o grande milagre do santo VANDAL é mostrar que é possível conviver coletivamente. É mostrar que é possível sim ser ajudado. É mostrar que é possível sim viver sem esse ego artístico, com essa soberba artística que esses outros artistas têm. É continuar sendo o VANDAL do Velho Testamento, do Novo Testamento, do Apocalipse, do Gênesis, de tudo. É o VANDAL. É ser você. Eu acho que as pessoas têm isso muito fincado. Dizem: “Gente, é o VANDAL, é ele, é o mesmo cara”. É muito direcionado. Eu acho que esse é o principal milagre. Mostrar para as pessoas que é possível ser você mesmo. É possível não se gentrificar, não se vender, não se entregar de uma forma com que você decepcione a tudo e a todos. E o principal disso tudo, não trair a si mesmo, se manter fiel no que acredita, ser quem você é. Ser você mesmo e agir coletivamente.

Se fosse escolher uma música para definir o disco todo, qual seria?

Eu sou suspeito de falar, mas eu acredito muito que ANJOH BOMH DAH BAHIAH. É uma oração que tem a voz da própria Santa Dulce. Então, eu tenho a voz de uma santa dentro de um disco. É a oração. Para mim, aquilo é a principal bênção que eu tenho ali.

Você disse que vai ser uma trilogia. Os outros álbuns que virão vão ter o mesmo direcionamento ou cada um vai seguir por caminhos diferentes, que no final se complementam?

Vão ter caminhos diferentes e o complemento dele é essa criação de linha do tempo que eu consigo fazer. Você vai ouvir o TIPOLAZVEGAZH (2015) você vai ouvir o PHODISMO…. e vai entender que é um trânsito do VANDAL como escritor contundente. O que cativa, o que chora, o que alegra. Todo esse emaranhado do que o VANDAL entrega, que é esse emaranhado de verdade, que é o meu apelido, a minha alcunha, que eu não me escondo nas letras, eu não me escondo na entrega. Eu me dou por completo, como eu falei. Eu não me governo. O que diferencia, obviamente, são as entregas visuais. Inclusive elas já estão pré-estabelecidas, eu já estou trabalhando nisso de uma forma muito intensa. O que diferencia deles é, porque, musicalmente, o FEZTAH DEH LARGOH vai ser um disco mais solto. Como eu sou oriundo de Festas de Largo, eu vivia esse emaranhado de tudo que se tocava e de tudo que tocava numa Festa de Largo, mas com uma miscelânia de possibilidades musicais, porém com a mesma contundência. O mesmo VANDAL, no mesmo sentido de não se doer, de não entregar a caneta, de não se gentrificar. E o EAUH DEH PARFUMH é um disco mais sofisticado, que vai depender um pouco de como essa música, de como essa vida, essa deusa música vai me agraciar também até financeiramente, porque tem muito sample. E talvez seja um disco que fique inviável, porque a gente sabe que usar sample no Brasil é difícil. Mas são samples que são colocados de uma forma tão mais sofisticada, eu posso dizer assim. Como eu coleciono perfumes, quis trazer essa nuance da sofisticação e cheiros. Eu quis contemplar isso musicalmente. Foi difícil, sendo, até porque ele tem algumas coisas abertas ainda, mas a forma que eu uso os samples é muito diferente do que qualquer outro MC no país usa. Por isso, talvez eu tenha um pouco de dificuldade dentro disso, mas eu vou confiar que a deusa música vai me agraciar com essa possibilidade de conseguir quitar todas as burocracias que esse último disco vai necessitar.

Você acha que quem ouvir o disco vai entender logo de cara a proposta que você está trazendo ali? Ou precisa de um tempo para aquilo maturar na audição?

Eu acredito que as pessoas que já me entendem, que já me conhecem, porque a gente tem que ter o pé no chão, vão entender. Eu sou um artista que não furei essa bolha dos números. Eu sou um artista, de uma certa forma, até virgem dentro disso, dentro desse grande olhar de público. Mas as pessoas que me acompanham são muito fiéis. Eu costumo chamar de meus verdadeiros e minhas verdadeiras. Então, eles e elas entendem. Eu acredito que vão chorar comigo, que vão ficar felizes comigo, vão entender, que já sabem que o que eu escrevo tem um perfil diferente para tocar as pessoas. É muito diferente dos outros MCs. E eu não coloco isso como uma soberba. Eu coloco isso como um quê de sensibilidade e do tipo de vida que eu levei, das coisas que eu vivenciei, da minha escola musical, de tudo muito diferente, porque minhas preocupações são completamente diferentes das dos caras. Eu não estou preocupado em ser o cara do melhor flow, eu não estou preocupado em ser o melhor MC, eu não estou preocupado em ter a melhor discografia. Não estou preocupado com nada disso, eu estou preocupado em ser um ponto de cultura dentro da arte. E as pessoas entendem isso. Os feedbacks estão sempre dizendo: “realmente você está se entregando, você está se doando, ou o VANDAL está trabalhando nisso, está focado”. Eu quero ser verdadeiro, e que as pessoas ouçam tudo que eu faço, veja tudo que eu faço e diga: “porra, realmente o nome dele é VANDAL DEH VERDADEH, e não é à toa”.

VANDAL ÉH BALAH EH FOGOH

Sempre. Toda vida, toda luz do mundo pra você e sua família.

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