Diferente do que se vê no palco, Major RD é tranquilo. Fala pausadamente. A explosividade, ele deixa para os shows. Inclusive, mostra-se tranquilo com as críticas que surgiram assim que “Alfa” ganhou o mundo. “Se fosse, talvez, há seis anos, eu estaria louco, tentando me explicar”, afirma. “Só que a gente vai amadurecendo. Isso aí é necessário também”. Naquele momento, praticamente uma semana depois do lançamento, o álbum estava próximo de bater 3 milhões de streams. Era o que estava previsto no planejamento. Por isso, a satisfação do rapper do bairro de Campo Grande na Zona Oeste do Rio. “A repercussão tá daora”, observa. “Pra mim tá tudo lindo”. Uma das polêmicas levantadas se relaciona à arte da capa em que Major está “caracterizado” de Nossa Senhora Aparecida. A mensagem não foi entendida pela maioria, mas ele esclarece a dúvida.
“Minha mãe é católica, eu sou católico. Minha mãe é ministra de educação na igreja. Eu fui coroinha, fiz a primeira comunhão. Também fiz a catequese completa. Comecei a fazer o Crisma, mas não terminei”, revela. “Quando eu comecei a fazer as músicas, estava numa fase muito ruim da minha vida. Se você pegar o vídeo de “Lei do Ex”, vai perceber que tô numa cadeira, e aí, quando o pessoal pensa que eu vou me matar, a câmera foca pra cima e eu tô tentando treinar pra ver se eu me distraio, logo após eu receber um telefonema. Estava passando um período muito ruim na minha vida quando compus o disco. Foi quando comecei a me agarrar na minha família, minha religião e nas coisas que estavam próximo de mim”.
Por isso, para a capa, queria algo familiar que o representasse de verdade. Como sempre ouviu a mãe dizer “que Nossa Senhora te cubra com o manto sagrado, te leva e te traga de volta”, decidiu que essa seria a imagem que poderia traduzir o que queria. Porém, assim que apresentou a foto, poucos entenderam o motivo da escolha. Gerou um certo debate, algo que Major diz ter achado genial. “Quando envolve religião, cada um tem a sua. Vai agradar algumas pessoas e outras não. E tá tudo bem”, reflete. “A única opinião real que importava pra mim naquele momento era da minha mãe”. Assim que a arte ficou pronta, RD mostrou para ela e perguntou: “isso aqui soa como de respeito? Ó, o conceito é este: Eu sou um homem negro coberto com o manto de Nossa Senhora. Isso soa como de respeito?”. A resposta dela foi negativa. Então seguiu em frente porque só a opinião dela importava naquele momento.

Essa e outras questões pessoais permeiam todo o álbum. Major até compara com o anterior “Ascenção do Cisne Negro”, que é mais focado no trap. Já em “ALFA”, ele passou por diferentes vertentes que servem de base para que fale da família, de problemas que teve na rua, mas principalmente dentro de casa.
“Mano, aqui dentro também é difícil. Eu sou um cara normal, igual você, tem mãe, tem pai, tem filhos, mas precisa levantar, lavar o rosto e trabalhar, porque tem pessoas que dependem de você. Então você é o alfa da sua casa. É o cara que cuida da sua matilha, e é o último a ficar doente. Tem que ser o último a ficar com sono. Fica triste, mas você não pode passar isso pra minha filha”.
Sempre cobrado para voltar ao tipo de rap que fazia quando começou, o rapper mudou o direcionamento ao longo da sua evolução artística. A intenção era focar em músicas que faria geral pular nas apresentações. Em “ALFA”, ele faz um retorno às origens para mostrar como um líder deve se portar, principalmente diante de seus problemas. Fala de família, paternidade e levanta uma questão importante: o medo dos homens de demonstrar suas fragilidades. Não compartilham sentimentos, porque se consideram fortes demais. Assim, tentam resolver tudo sozinhos.
A solidão pegou Major em alguns momentos, mesmo quando estava rodeado de pessoas. “Na maioria das vezes, eu me forço a ficar sozinho. Sempre meus amigos estão sempre aqui. Mas eles só vão estar aqui se eu estiver bem”, diz. “Se eu estiver me sentindo mal, eu já vou inventar uma desculpa e sumir. E isso é natural. não tenho explicação”. Ele considera que esse seu jeito seja uma qualidade, mas também um defeito que o prejudica. A forma que foi criado também colabora. Porém, acredita que é necessário quebrar o ego e pedir ajuda. “Eu sempre vi meu pai como uma figura muito forte, e falava: cara, ele vai trabalhar mesmo com febre. Meu pai trabalha no sol de 40 graus… fui criado assim porque meu pai não teve escolha”. Essas características vão passando de geração em geração e viram um costume que são constantemente reproduzidos. Mas é necessário quebrar o ciclo.
“SE EU FICO SEIS ANOS LANÇANDO O MESMO DISCO DE BOOM BAP, EU SERIA CRITICADO PELAS MESMAS PESSOAS QUE ME COBRAM POR EU TER MUDADO”
“Quantos ídolos nossos que tiraram a própria vida? Talvez poderia ter evitado se falasse assim: oi, me ajuda aqui, tô mal. Fica do meu lado, bora conversar. Mas vários deles, mesmo com grana para se tratar no melhor psicólogo, preferiram se trancar ou se entorpecer e deixar tudo acontecer até o fim. Eu acho que a gente tem que construir isso, principalmente no homem preto periférico porque foi colocado que somos fortes o tempo todo. Nós crescemos ouvindo: tu é homem, vai ficar chorando? E aí a gente tem essa parada de… eu não posso ir lá contar pra minha mãe que separei e tô tristão. Eu não posso falar com meus amigos que eu tô boladão porque perdi o emprego. Ou seja, colocaram a gente nessa posição e ficamos sustentando na marra só pra provar para os outros que a gente é forte mesmo. Onde nós só podia falar: não, não, viado, eu não sou tão forte, não. Chega aí, fica aqui. Pô, sozinho vai ser foda, tá ligado?”
Foram nesses momentos de dor que surgiram a maioria das 13 músicas. “Eloy Casagrande”, “Rimo Igual Pac 2” e “Foden”, que são as faixas mais traps, foram colocadas ali justamente para quebrar um pouco a tensão. E para quem tinha dúvidas, o áudio usado em “Rimo Igual Pac 2” é real. “Aconteceu de verdade, foi um desespero aqui em casa”, revela. “Ele foi colocado na música com a autorização e a concepção da menina. Foi um acidente, depois a gente ficou de boa, ela levou na brincadeira, a gente continua amigo e tal. Mas pra você ver que até a parada zoeira foi real”. Também serve de alerta para que tomem cuidado quando alguém pedir um soco na costela. A experiência de RD e, principalmente, da garota não foi tão legal quanto parecia ser.
ROCKSTAR
Filho único, Rodrigo Freitas Fernandes Morais foi criado entre o samba e o pagode ouvido pela mãe e o rock e o rap do pai. Quando começou a escutar rap na adolescência percebia que todos que gostava eram bons, só que o deixava triste. As letras o deixava pensativo porque se identificava com aquela realidade. O MC vai relatando e você simplesmente concorda com tudo aquilo: os amigos presos ou morrendo na favela, pessoas passando fome, direitos básicos que não existem, a polícia que cada vez mata mais pretos. O pensamento nem fica naquilo porque já está tão no automático que nem existe a possibilidade de refletir sobre a situação. Porém, Major RD queria fazer algo diferente.
“Quando eu comecei a fazer meu primeiro rap, tentei quebrar isso de uma forma que eu pensava assim: se eu fizer um rap que deixa as pessoas felizes? Eu posso estar falando as mesmas coisas, porque “Só Rock 1”, “Só Rock 2” e “Só Rock 3” são as músicas que a galera mais pula. Eu tô falando as mesmas coisas. Tipo, falo da polícia, mas falo de uma forma que a galera pula e fica feliz. E é uma forma também de entrar em alguns lugares que às vezes a pessoa nem se liga na crítica, mas quando vê já entrei, até nas grandes emissoras. Parece que tá feliz, mas se tu parar pra ouvir a letra, eu tô falando bastante coisa. E aí foi quando eu comecei a misturar os elementos do rock com o rap, a guitarra que eu uso bastante nos instrumentais e o vocal gritado, que eu queria e vi os caras do rock cantar dessa forma. Além dos beats que são todos muito marcados e muito graves, e isso faz a galera pular”.

Fundir o rap e o trap com o rock veio dessa necessidade de fazer as pessoas se divertirem. Obviamente, ele não está inventando a roda. Em muitos momentos ambos os gêneros se encontraram. Mas atualmente no Brasil, Major tem sido um dos poucos que tem mantido essa chama acesa. Seja nos sons ou nos palcos, ele passa essa identidade roqueira, inclusive na nomeação do seu selo (Rock Danger). O estilo incentiva o público a ouví-lo em diferentes lugares. “A galera fala: quando eu ouço sua música dá vontade de malhar. Eu não ouço mais rap e fico triste. Agora eu ouço o rap e quero reagir”. Mesmo defendendo o seu trabalho, o rapper também diz que não tem como desvincular o rap do seu propósito inicial.
O fato é que é necessário ter um equilíbrio. Aquela coisa que dizem por aí: um pouco de droga e um pouco de salada. Precisa ter entretenimento, mas a visão da realidade, o protesto, a crítica, precisa estar presente.
É por esse motivo também que fez uma seleção minuciosa de quem iria participar do disco. “Já que eu estou falando de alfa, preciso de um cara forte, uma figura que seja representante da nossa cultura. Aí eu pensei no MV Bill, que fez aquele verso”, observa. “E quando o MV entregou, eu falei: e se encaixar o DJ KL Jay fazendo uns riscos? Temos mais um elemento do hip-hop na faixa”. Falando em elementos da cultura HH, Major RD diz que KL Jay deveria ser o sexto elemento. “Tinha que todo mundo ir pesquisar quem é ele, depois volta aqui e a gente troca a ideia. É uma escola”. Além dos dois OG’s citados, ele também convida Clara Lima, BK’, Djonga, Ryu The Runner, Slipmami, MC Cabelinho e Chefin. Com o último ele diz que estava trabalhando em outra música, mas no estúdio começaram a conversar sobre relacionamento, alguém soltou o beat e eles desenrolaram as ideias.
“Eu comecei a cantar: ‘vi nossa foto guardada na segunda gaveta. Época antiga que tu me filmava usando o retrique’. Aí os caras me olham e tipo… falei: bora falar de amor então. Tudo foi acontecendo naturalmente. Por isso, as escolhas dos feats foram de pessoas que eu tinha carinho, admiração e contato. E, graças a Deus, ficou muito legal”.
“TENHO DIFICULDADE DE FALAR DOS MEUS PROBLEMAS, PORQUE EU NUNCA VI MEU PAI FALANDO DOS PROBLEMAS DELE”.
PATERNIDADE
Tratando-se de um álbum mais íntimo que os demais, ALFA também se conecta com a paternidade. “Carta Pra Majur” reflete esse direcionamento. Mas não apenas. “Por mais que minha filha já tenha dois anos, ainda é, e sempre vai ser, tudo muito novo pra mim”, diz. “Cada época é uma fase diferente, que eu falo: caralho, agora minha filha entende o que eu canto, agora, tô fodido”. Por causa desse entendimento dela, Major RD deu uma segurada nos palavrões e no uso de frases como “vou meter tiro, vou meter bala, eu faço, eu aconteço, eu meto na porrada”. Diz que a maturidade e a relação com ela o fez repensar no que escreve e canta. “Minhas músicas Têm muito disso. Mas no alfa, eu quase não falo, porque agora minha filha entende’’ ressalta. “Como eu vou explicar pra ela que não é pra arrumar briga com coleguinha da escola? Não pode. Mas se eu tô cantando isso lá em casa, ela vai ter como referência. Nós somos o espelho dos nossos filhos”. Isso reflete nas questões que ele aprendeu com o pai, mas pretende fazer diferente na criação da filha.
“Tenho dificuldade de falar dos meus problemas, porque eu nunca vi meu pai falando dos problemas dele. E aí eu acabei crescendo com isso, de que tenho que me virar sozinho, não conto pra ninguém. E tá errado, eu deveria contar. E aí imagina, minha filha, como vai crescer ouvindo eu cantar: ‘bala na polícia, bunda e droga, e de meter a porrada’? Vai virar uma bomba relógio, porque ela vai falar assim: meu pai era assim. Então, é uma luta diária pra quebrar círculos. E aí, hoje, graças a Deus, eu posso botar ela pra ouvir Carta pra Majur e falar: olha aqui, filha, essa aqui o papai fez pra tu. Essa aqui tá bonitinha não tem palavrão. Quando ela bota “Só Rock”, eu falo: filha, essa é feia, papai cantou errado”.
A maneira que encontrou de lidar com as próprias contradições, a partir da paternidade, contribui para o desenvolvimento de uma pessoa que terá outra visão de mundo e contribuirá para a mudança futura na cultura da sua geração. Uma forma de ensinar as crianças a observarem o mundo por uma outra ótica.
De realidades próximas, nossas vivências são parecidas. Concordamos que os ensinamentos que tivemos dos nossos pais eram reflexo do que aprenderam com os pais e as mães deles. É um ciclo que se renovava porque não tinham os acessos que estão disponíveis para nós hoje. Muitos nem tiveram tempo de lazer com os filhos ou de acompanhar na escola porque tinham que trabalhar.
“A ÚNICA OPINIÃO REAL QUE IMPORTAVA PRA MIM NAQUELE MOMENTO ERA DA MINHA MÃE”.

“Eu tive, graças a Deus, o privilégio de meu pai e minha mãe serem muito unidos. Tipo, independente de não ter grana, não ter nada, sempre foram muito unidos. Nunca se separaram. Alguns de nós foram criados só pela mãe. Alguns criados só pelo pai. Outros nem isso. Foram criados pela avó, porque a mãe tinha que trabalhar e só chegava às dez da noite. Aí quando chegava, já tava perto de dormir pra trabalhar no dia seguinte. Hoje você é jornalista, eu sou artista. Somos privilegiados de ter esse tempo de trabalhar de casa, igual estamos aqui agora, com sua filha dormindo, a minha filha dormindo, e tá tudo bem. Mas imagina agora como nós estaríamos num trem lotado, voltando pra casa, e quando a gente chegasse em casa, dez da noite, nossos filhos já iam tá dormindo. Quando fosse sair no outro dia iam estar dormindo ainda. Nossos pais tiveram pouco tempo com a gente em algum momento. Então muita coisa não deu para ser passada, tá ligado?”
Agraciado por conviver com a minha filha e ter liberdade financeira, porque tempo é dinheiro, Major RD agora faz parte do casting da Warner Music. Antes de finalizar nossa conversa, provoco lembrando que em “Desconforto” tem um verso que ele fala sobre ter que, às vezes, fazer coisas que não quer para agradar terceiros. Pergunto se isso já aconteceu de fato. Artisticamente ele afirma que não porque não permitiria que isso acontecesse. Mas na vida teve que ceder algumas vezes para ganhar o dinheiro. “Porque querer a gente nunca quer. Quem quer? A gente quer ter um dinheiro digno e limpo. Mas às vezes a gente faz alguma coisa que não quer fazer porque precisa ter essa grana”. Na verdade, aquele é um recado direto aos fãs.
Isso porque sempre pedem o Major do velho testamento. Mas ele diz estar em constante evolução. “O Leonardo DiCaprio já não é o mesmo do Titanic. O Homem-Aranha já trocou várias vezes, agora é o quinto Homem-Aranha. Não adianta você chorar pelo primeiro Homem-Aranha. Já foi, cara. Aquele Homem-Aranha lá salvou um monte de gente”. Naquela, ele rima em cima de um boom bap, mas ressalta que precisa fazer outro tipo de música para expandir. “Beleza, eu já conquistei vocês, mas eu preciso conquistar uma outra galera, eu preciso fazer um rock, eu preciso fazer um trap, eu preciso fazer um samba, eu preciso fazer música em geral”. No resumo, ele quer crescer em todos os ambientes musicais.
“Eu gosto de boom bap, eu amo isso aqui. Mas eu preciso fazer outras coisas, porque eu quero ser grande na música. Eu não quero ficar limitado a isso aqui. Eu quero ser um artista mundial um dia. Então eu preciso fazer o que artistas mundiais fazem, que é música pra tudo. Pra criança, pra TikTok, pra favela, pro Playboy. Eu estaria muito preocupado se eu fosse o mesmo Major RD de 2020. Quer ver um exemplo? Eu fico muito feliz quando um mano meu conquista alguma coisa, mesmo que seja mínima. Independente da tua luta, se tu trabalhou incansavelmente, o bagulho é conquistar, irmão. Porque vai me preocupar muito se, sei lá, nós estiver em 2030, e tu tiver com esse mesmo boné vermelho aí. E assim, não é problema você estar com esse mesmo boné. Mas eu preciso que você tenha vários bonés e que você esteja usando esse daí só porque você gosta desse. Se eu fico seis anos lançando o mesmo disco de boom bap, eu seria criticado pelas mesmas pessoas que me cobram por eu ter mudado”.

