“O funk é o que vende o Brasil para o mundo inteiro, assim como a bossa nova fez nos anos 50”. Foi assim que o produtor Nave Beatz definiu o quão o funk tem sido primordial para disseminar a cultura brasileira para além das fronteiras. É verdade que dentro do território ainda sofre preconceitos e discriminações por ser de onde é. Mas é difícil não concordar que virou uma commoditie que tem sido exportada para diferentes países. Para ressaltar a fala de Nave, MC Hariel deu um exemplo.
“Estava na Austrália, trombei com um produtor do Iraque que mora lá. Colei no estúdio dele e tinha outro produtor do Cazaquistão, se não me engano, e pedi para me mostrarem os beats que estavam trabalhando. E os beats eram de funk. Fiquei surpreso”.
Junto com Hariel e Nave, estavam a articuladora, pesquisadora e curadora da exposição “Funk: um grito de ousadia e liberdade”, Renata Prado, e o maestro Xuxa Levy. O quarteto se reuniu no escritório da Red Bull Brasil, em São Paulo, para apresentarem a versão BR do Red Bull Symphonic, projeto que une a música sinfônica com os sons das ruas. Essa fusão ganhou evidência com Metro Boomin, que serviu de inspiração para o funkeiro produzir “Funk Superação”, seguido por Asake, Trueno e Kelvin Momo. No Brasil, o espetáculo, que tem direção criativa de Drica Lara, será no dia 08 de agosto no Auditório Simón Bolívar [ingressos aqui], que faz parte do complexo do Memorial da América Latina. A orquestra será composta por 45 instrumentistas, que estão sendo escolhidos por Xuxa, e 8 cantores. Para ele, é importante que todos os músicos saibam a importância do funk.

“O funk é uma expressão, uma manifestação artística brasileira, acredito eu, mais importante e mais escutada no mundo”, diz Xuxa. “Muitos músicos sinfônicos estão envolvidos com o funk, porque a música periférica brasileira é o berço das coisas mais interessantes que o Brasil sempre produziu, de todos os tempos, e hoje não é diferente. Então, eu acho que pensar horizontalmente é uma coisa fundamental pra tirar esse estigma. Tirar o estigma de que o funkeiro não tem conhecimento musical, e que age por instinto. Isso é uma grande mentira”.
O próprio Hariel e Renata Prado são exemplos de que intelectualidade não falta na cultura funkeira. E que ela não precisa seguir o padrão determinado para se comunicar. Pode ser feita na linguagem que a população entende. O Symphonic também é uma forma de aproximar a música [chamada] erudita, clássica ou de concerto de pessoas que acreditam não ter ouvido para esse tipo de musicalidade. Nave diz que esse é um dos principais desafios. “Porque é uma conversa entre dois universos que teoricamente são distintos, né?”, observa. “Um tá de Juliet [óculos de sol], o outro tá de terno numa sala São Paulo, por exemplo. E conseguir conectar esses dois mundos, é muito importante”. Xuxa complementa, garantindo que esse projeto será “completamente diferente de tudo que já foi feito” Porque o sinfônico, o orquestral, tá realmente se fundindo com o funk”. Essa fusão pode abrir outras portas tanto para os envolvidos quanto para quem vai ouvir. Algo parecido com o que aconteceu quando Hariel gravou com o Gilberto Gil.
“Parece meio ridículo o exemplo, mas o que eu vou falar agora verdade… o processo de restringir nosso lazer, nossa cultura, o acesso que a gente tem sobre a arte, sobre a música, é um processo que o sistema faz pra periferia e isso daí limita, de certa forma, gostar de uma coisa ou não gostar, tá ligado? Quando eu gravei a música com o Gilberto Gil foi interessante porque quando eu chegava na favela muitas pessoas falavam: ‘pô, aquela música que você gravou com o Roberto Gil [falando errado o nome dele] ficou da hora’… muitas pessoas puderam conhecer mais a fundo a história, arte, a cultura e tudo aquilo que é importante na obra do Gil”.
Por isso, os envolvidos acreditam que o Red Bull Symphonic vai abrir ainda mais possibilidades. O setlist, não revelado, será uma mescla de músicas que fazem parte da trajetória do Hariel somados aos que ajudaram a consolidar o funk de São Paulo. O MC dá apenas um spoiler de que receberá artistas que fizeram história e hoje estão encontrando alguma dificuldade para ter visibilidade. O objetivo é unir passado, presente e futuro. Tudo começou com uma pesquisa minuciosa, que elencou cerca de 150 músicas, e foi afunilando até chegar no material ideal para um concerto de 1h30. Nave afirma que uma das fases mais difíceis foi escolher o repertório. Mas não apenas. “Depois, como combinar as duas linguagens… e não é combinar uma com a outra”, observa o produtor. “Eu acho que é como fazer com que isso se torne uma terceira linguagem”. Acho que isso está mais tirando o meu sono no bom sentido”.
O objetivo dessa junção é contar a história do funk paulista, da Baixada Santista a Zona Norte de São Paulo, e Hariel adianta que vai ter momentos que vai ser o fã cantando com pessoas que o inspiraram a começar a cantar e em outros estará com parceiros que fizeram parte da sua trajetória.
“Eu sou um cara que amo funk, tá ligado? Funk é minha vida, acredito em muita coisa do que tá rolando, e tá sendo difícil juntar tudo, englobar tudo, pra não deixar de contemplar ninguém, homenagear ninguém. Pra não deixar ninguém de fora. Isso daí tá sendo a nossa maior dificuldade. Muita coisa boa pra gente contar em pouco tempo, tá ligado? Essa tá sendo a nossa grande dificuldade porque de resto, acho que tá sendo uma grande tiração de onda mesmo e a gente tá se divertindo fazendo isso, tá sendo encontros super interessantes”.

