Mais uma vez o funk sofre com a perseguição da extrema direita. O ataque da vez é contra a exposição “Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade”, em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. A mostra que se iniciou em novembro de 2025 estava prevista para terminar em agosto de 2026, porém, deve ser encerrada no dia 31 de maio, domingo, após denúncia ao Ministério Público (MP), oficializada em 04/05, de São Paulo feita pelo deputado estadual Tenente Coimbra (PL-SP). Nela, assim como em vídeos publicados com discursos de ódio, desinformação e linguagem inflamatória, o parlamentar diz que há “o uso apelativo de imagens de jovens em bailes funk, apologia ao tráfico de drogas e conotação sexual”.
O próprio também acionou a IDBrasil, gestora do museu, para prestar esclarecimentos na Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). A partir dessa ação, algumas das mais de 473 obras foram realocadas e vídeos desligados. Isso desencadeou uma censura à instalação que ficou em cartaz por mais de um ano no Museu de Arte do Rio (MAR), onde bateu recorde de público, e que em SP é composta por pinturas, fotografias, vídeos e registros audiovisuais sobre a trajetória do funk nas periferias brasileiras, tendo Renata Prado, pedagoga e pesquisadora da cultura funk há mais de uma década, como curadora.
A vontade de calar manifestações culturais periféricas não é recente. O Projeto de Lei 5194/2019, apresentado em 2019 pelo então deputado Charlles Evangelista [não mais em exercício], do PSL de Minas Gerais, propunha alterar o artigo 287 do Decreto – Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940, transformando seu atual parágrafo único em parágrafo primeiro, acrescido de alíneas, para tipificar como crime qualquer estilo musical que contenha expressões pejorativas ou ofensivas nos casos trazidos por esta lei”.
Evangelista alegava que estava lutando em prol do “respeito à moral pública”. A proposição chegou até a COORDENAÇÃO DE COMISSÕES PERMANENTES ( CCP ) da Câmara dos Deputados, mas foi devolvida e retirada da pauta pelo político. Antes dessa sugestão, uma Ideia Legislativa nº 65.513 (leia AQUI), que alcançou, no período de 24/1/2017 a 16/5/2017, apoio superior a 20 mil manifestações individuais, tinha como objetivo de tratar o funk “como crime de saúde pública a criança aos adolescentes e a família”. O argumento era que “os chamados bailes de ‘pancadões’ são somente um recrutamento organizado nas redes sociais por e para atender criminosos, estupradores e pedófilos a prática de crime contra a criança e o menor adolescentes ao uso, venda e consumo de álcool e drogas, agenciamento, orgia e exploração sexual, estupro e sexo grupal entre crianças e adolescente, pornografia, pedofilia, arruaça, sequestro, roubo e etc”. Pela quantidade de apoiadores, a ideia foi transformada na SUGESTÃO nº 17 de 2017.
A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) debateu e decidiu não transformar a sugestão em projeto de lei, visto que a comissão entendeu ser a matéria contrária à cláusula pétrea da Constituição Federal. Mas o Senador Romário, relator do caso observou que “embora sejam conhecidos episódios de violência sexual e apologia a atos criminosos durante e após os bailes funk ou chamados ‘pancadões’ – a exemplo do famoso caso da adolescente, na cidade do Rio de Janeiro, que foi vítima de estupro coletivo e filmada, enquanto desacordada, por seus agressores –, não compreendemos que a cultura ligada ao funk seja vinculada à criminalidade”.
Apesar dessas tentativas de criminalização, o funk tem ganhado o mundo e influenciado outras culturas, sendo hoje o gênero musical que mais representa o Brasil no exterior. Sua importância também foi reconhecida em 2024 pelo Governo Federal com a sanção da lei que instituiu o Dia Nacional do Funk, celebrado anualmente em 12 de julho. Assim, a exposição no Museu da Língua Portuguesa era parte do processo de legitimação e reparação histórica. O funk é uma cultura que parte da música e se estende à dança, festas, moda e as mais diferentes manifestações de artes visuais. E assim como o hip hop tem salvado vidas, dando perspectiva de futuro para jovens periféricos. A censura afeta diretamente o trabalho de artistas visuais que tem trabalhos exibidos no Museu da Língua Portuguesa não foi pequena.
Um desses artistas, que pediu para não ser identificado, diz que “é muito recente termos exposições que discutam essa temática em espaços tão importantes como o Museu da Língua Portuguesa. Foi uma grande conquista. Mas tenho medo de que essa perseguição se estenda e coloque em risco as vidas dos artistas e dos trabalhadores da cultura como um todo. Esse medo é compartilhado pelo fotógrafo e multiartista da zona leste de São Paulo, território que produziu parte significativa do funk paulistano, Breno Brandão ser censurado por uma denúncia política é uma extensão das opressões que já fazem parte do seu cotidiano.
“Participar dessa exposição era um ato de orgulho e resistência. Agora, com a censura imposta por uma denúncia política, me sinto silenciado exatamente por aquilo que sempre me negaram: a voz”, observa. “O funk é minha realidade, meu território, minha forma de existir e denunciar as opressões que já vivo no cotidiano, desde a falta de recursos, na violência estatal e no preconceito de classe. Ser censurado assim, sem diálogo, sem debate, me faz reviver a sensação de que minha arte e minha vida não importam, de que podem ser caladas por uma acusação arbitrária.”
Usando as palavras de Danilo Cymrot no livro “O Funk na Batida, baile, rua e parlamento”, “a emergência de movimentos culturais como o funk é importante, uma vez que coloca o jovem da periferia pela primeira vez no protagonismo da condição de ser jovem e reivindicar seus direitos na esfera da cultura. Defendê-lo é mais que um posicionamento político, é questão de caráter.
“Essas manifestações sinalizam uma não aceitação dos estigmas e violências a que esses jovens estão submetidos. Seus locais de moradia e sua origem social não são mais ocultados com vergonha, mas assumidos explicitamente nas letras e gritos de guerra como maneira de se auto afirmarem, muitas vezes pela intimidação. Demandam o reconhecimento não só de igualdades, mas de diferenças”.

