Vivemos dias estranhos. Chegamos a um momento em que tem sido necessário cobrar posicionamento de “representantes” de culturas marginalizadas. É bizarro. Mas real. Tem sido difícil identificar quem é aliado ou inimigo no rap e no funk. Alguns, com milhares de seguidores, permanecem calados. Poderiam usar o poder de influência que têm para conscientizar sua base de fãs que foi cooptada na internet por ideias reacionárias. Direita e rap não se juntavam, assim como óleo e água. Porém, essa verdade deixou de ser absoluta. A juventude que chegou pelo trap desconhece o que é hip hop. Por outro lado, o conservadorismo fez com que ignorássemos a geração Z. Ao invés de abraçarmos, nos afastamos. Era a brecha que o sistema queria.
Apesar disso, existe uma possibilidade de mudança. Os seguidores de rappers, MC’s, trappers e funkeiros que votaram na extrema-direita precisam entender o quão prejudicial será para o país se essa ala ideológica tomar o poder executivo. Se não sabe explicar, chame alguém que saiba. O Baco Exu do Blues tem feito isso. A neutralidade não pode ser uma opção agora. Os dias estão tensos, e podem piorar. O retrocesso aparece no horizonte. Está visível a olho nu. É necessário dialogar com essas pessoas, com quem não votou, anulou, votou em branco ou se arrependeu. Mostrar todos os contras, porque prós não existe. Para isso, quem tem voz não pode ficar calado. E por incrível que pareça tem acontecido. Só abrem a boca depois de muita cobrança. Por outro lado, a maioria parece estar em cima do muro. Não deixa claro qual é sua escolha. Diz que não fecham com o bolsonarismo. Mas também não deixam evidente que votam 13. Parece óbvio. Porém, cada um tira sua conclusão. Alguns podem entender que é um sinal para não ir votar, anular ou apertar a tecla branca.
Temos que lembrar o quanto o rap e o funk tem sido perseguido (ainda). Teve proposta de criminalização por meio da Lei Anti-Oruam, a morte de 17 jovens durante dispersão feita pela polícia militar de São Paulo no Baile da 17, a censura da exposição “Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade”, no Museu da Língua Portuguesa, a perseguição da pm nas batalhas de rimas feitas em locais públicos, lugares onde saiu a maioria dos MCs milionários do rap nacional, a criminalização da música periférica. A Lista é gigantesca. E se posicionar pode gerar perdas de seguidores, de dinheiro, contratos, fãs, gerar ameaças [como aconteceu com Djonga]. Mas nada disso é maior do que caráter e ideologia. O rap é mais que música. É estilo de vida. Alguns MC’s foram para a linha de frente. Outros preferiram apenas fazer nota em stories. Não querem deixar rastros.
Vimos isso acontecer com os estadunidenses. Veve os que vestiram o boné vermelho, e não foi apenas o Kanye. Outros decidiram ficar em cima do muro, por ser mais confortável. E aqueles/as que foram e continuam no embate. Já que eles sempre são referências por aqui, precisamos seguir esse terceiro grupo. Os 4 pilares do hip hop, da arte, cinema, do funk e da cultura serão afetados diretamente se o extremismo vencer. Mais uma vez a democracia corre risco. Agora, provavelmente, vamos perder algo se posicionando. Mas se formos omissos podemos perder tudo. O senso de contracultura precisa ganhar força novamente urgentemente. A frase “o rap é compromisso”, do Sabotage, não pode ser meramente ilustrativa.

