Uma das grandes salas industriais no terceiro andar do histórico prédio da Central 1926 serve de cenário para que MC Luanna faça seus cliques fotográficos, grave vídeos e converse com jornalistas. Pelo calor intenso, ela se refresca com um mini ventilador estilizado pela própria com strass brilhantes. Sempre de sorriso no rosto, cabelo black power, camisa de futebol americano marrom, calça militar e yellow boots, ela se prepara para, horas mais tarde, mostrar a mixtape “Irrefreável”. Havia uma expectativa de quem foi até o local para saber o que ela tinha preparado. Rapidamente, ela explica que não tinha pretensão de fazer o disco. Foi algo que aconteceu naturalmente.
“Ela surgiu do nada”, afirma. “Veio de um momento em que eu estava com bloqueio criativo. Por isso, não tinha planos. Eu só queria voltar a fazer música”.
Esse retorno aconteceu com o vídeo “Esconde Sua Namorada”, que serviu como um spoiler do que viria na sequência. Por não se tratar de um álbum oficial, Luanna quis fazer algo mais solto. Isso não quer dizer que está menos comprometida. “A princípio, uma música não tinha nenhum tipo de ligação com a outra”, revela. “Até porque não conta uma história, não tem uma coisa que junte uma faixa na outra”. Apesar disso, as temáticas seguem um mesmo direcional de autoafirmação que às vezes se repete. A surpresa é “Ainda Sento No Meu Ex”, um flerte dela muito bem feito com o funk com altas doses de “putaria”. A ideia era fugir da densidade de “Sexto Sentido” (2024). “Eu sinto que esse álbum tinha muitas coisas introspectivas do coração. Agora eu queria falar sobre coisas felizes, ainda mais porque eu estava saindo de um momento difícil”.

No quesito estético, “Irrefreável” está mais solar, até dançante. Mas tem letras ácidas. Algumas se relacionam com as lutas do cotidiano, relacionamentos, desejos, ambições femininas, autoestima, liberdade, vingança. Também satiriza, em “Troca”, e passa a visão para que as mulheres abram o olho. Esse é o caso de “Amiga Esse Homem Te Apaga”. A inspiração para compor, ela diz não saber de onde veio.
“Teve um dia que era, tipo assim, meia-noite, eu escrevi uma. E aí teve outro dia que eu estava no ensaio para o Afropunk, numa correria do caramba… aí tive outra ideia de música. Depois passava com o produtor e aí acontecia”.
Referência para mulheres da sua geração – do rap ou não -, a rapper ressalta que esse tem sido um momento importante e memorável. “Eu imagino que no futuro vamos ter muito mais mulheres do que temos agora”, enfatiza, complementando que essa é uma pauta que os homens precisam falar muito mais do que elas. “Porque a gente está fazendo a nossa parte. Sabemos qual é a nossa importância. A gente sabe quantas auto-estima estamos mudando, quantos relacionamentos abusivos as meninas estão saindo por conta da nossa música. Mas eu acho que os homens precisam se perguntar se a falta das mulheres nos lugares onde eles estão não incomoda eles”. Talvez, a maioria deles vai se isentar da resposta. Porém, assim como outras MCs, atuais e aquelas que abriram os caminhos, MC Luanna não vai parar nem se deixar ser controlada. Tem uma missão.
“Quero falar mais sobre a autoestima, relacionamentos, ambição, sobre focar no seu corre”, afirma. “Eu busco trazer muitas coisas, inclusive as terapêuticas… coisas que eu aprendo. Então, eu acho que é isso que diferencia tanto assim e gera uma identificação”.

