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“Sou um Poeta Visual, faço poesias visuais”

Foto: Fernanda Opitacio

As imagens captadas pelas lentes do Poeta Visual falam por si só. Ele criou uma identidade com cores e sombras. Mas essas características foram desenvolvidas a partir do seu olhar e vivências que não se iniciaram propriamente na fotografia ou direção de cinema. Antes de ser reconhecido pela sua visão, Arthur Lopes, 22 anos, era jogador de um esporte não muito tradicional para pessoas negras. Porém, foi jogando polo aquático que teve os primeiros insights e incentivos para fotografar. E assim como a maioria dos profissionais iguais a ele (nós), nada aconteceu facilmente ou por acaso. Poeta teve que estar no lugar certo e na hora certa. E esse lugar não foi no clube ou na piscina em que jogava. Para tirar um dinheiro extra, teve que fazer trabalhos de garçom. Do limão, arrumou um pouco de açúcar para adoçar sua limonada.

Quem o vê como co-diretor do filme da turnê “Abebe Bikila – BK’: 10 anos de Castelos & Ruínas”, que divide a direção com Willy Hajli, com produção da Moonheist, não imagina o caminho que teve de trilhar para chegar onde chegou. Mas para inspirar quem tem o mesmo sonho que ele teve, Arthur “Poeta Visual” Lopes explica detalhes da sua caminhada nesta conversa de 40 minutos que tivemos por videochamada. Uma história em que a oportunidade foi essencial para abrir portas.

“Olha até onde me trouxe. Me possibilitou hoje estar aqui trocando essa ideia com você. De fazer com que um dos maiores rappers da atualidade saiba quem eu sou e admire a minha obra por causa de uma oportunidade”, ressalta. “Ninguém quis saber se eu sou formado. É o meu primeiro filme, e que conta uma história gigantesca de um marco no rap e tá aí no mundo e o mundo recebeu isso de uma forma tão boa por conta de uma oportunidade né? Imagina se essa oportunidade se tornasse cada vez mais acessível para pessoas como nós? Ela só potencializa aquilo que a gente pode ser. Até me arrepia falar disso”.

 

 

Como você começou no audiovisual?

Então, cara, eu costumo dizer para as pessoas que foi meio que o milagre das artes, porque eu cresci no esporte. Fui atleta de alto rendimento durante a minha vida inteira. Eu tenho 22 anos, e até os 20 eu fui atleta de polo aquático.

Sério?

É muito doido, né?

Demais, porque tem poucas pessoas negras que jogaram esse esporte.

É bem elitizado, mas eu entrei por conta de um projeto social do SESI. Ele já trabalha há anos em vários locais de São Paulo e abre vagas gratuitas para jovens. Eu sou de Mogi das Cruzes, no extremo leste de São Paulo, e meu pai me colocou para praticar desde cedo. Eu fui evoluindo e aí com 15 anos eu assinei meu primeiro contato e vim morar aqui em São Paulo. Essa foi a primeira oportunidade que eu tive de estudar em uma boa escola também, e me formei no ensino médio. Eu acredito que o meu caminho começou ali porque foi quando eu comecei a estudar nessa escola e vi que existia um mundo além do esporte, porque acho isso muito incomum aqui no Brasil, principalmente no futebol, basquete e vôlei, que não existe uma educação que pra jogar você tem que estudar bem e pra se desenvolver não basta só ser bom no esporte. Essas promessas dos esportes mais populares, meio que deixa a gente cego achando que isso vai mudar a nossa vida, só que não te dá uma base de estudos e aí quando percebe você não venceu a corrida e acaba ficando sem saber o que fazer. Isso faz a gente ir pra outros caminhos porque não tem uma base nem estrutura, porque, tipo, se o cara não é contratado, ele não tem uma base, a família é humilde e não sabe lidar com aquilo. Em muitos casos acaba sendo passado pra trás. Por outro lado, se ele não consegue ser um atleta profissional, também deixa de lado os estudos.

Exato, e ele não perde vários anos e não se profissionaliza em nada.

Mas o SESI foi um lugar onde eu tive essa oportunidade, mas o esporte andava de mãos dadas com o ensino. Isso era muito bom. Assim que eu comecei a me interessar pelas artes, virou a matéria que eu mais gostava e, dentro dos projetos que a gente tinha dentro da escola, me interessei muito em começar a fotografar esses projetos com o celular. Ia fotografando e as pessoas que viam o que eu estava fazendo com celular e postando nas minhas redes sociais começaram a identificar um potencial em mim pra aquilo. Aí, um dos meus amigos do time tinha uma câmera parada em casa e falou: “pô, você não quer ficar um tempo com essa câmera aqui?” Ele deixou comigo, e como eu morava com os meninos do time, comecei a fazer fotos deles. Foi aí que minha trajetória se iniciou… eu também sempre fui muito fã de rap. Eu via os caras, era novo, eu tinha 16, 17 anos. Via os caras da Recayd (Mob), o próprio BK, o Djonga. Eu falava: quero ser igual a esses caras. Mas igual a eles eu não posso ser porque eu não nasci com esse dom né? E aí eu entendi que a fotografia poderia ser um lugar onde eu poderia me aproximar desse universo da música. Em determinado momento eu conheci um amigo, um rapper incrível, que eu admiro muito, que é o RUI’’f. Ele participou do reality Nova Cena da Netflix, e foi a primeira pessoa que olhou pra mim e falou: “você vai ser meu fotógrafo”. Isso mudou minha vida, porque eu comecei a entender que aquilo poderia ser um caminho real pra vida, né? Também, como o esporte era muito elitizado, eu não convivia com muitas pessoas negras. Então ele foi a primeira referência fora desse mundo. Um cara jovem, negro, que pinta a unha, pinta o cabelo, usa top e se investe do jeito que quer. Essa autoestima me impactou de uma forma que eu poderia ser livre também para me manifestar da forma que eu quisesse e ainda assim me sentir seguro de mim mesmo. O meu caminho foi inicialmente trilhado dessa forma.

 

“EU ACREDITO VERDADEIRAMENTE QUE O NÃO SABER TEM MUITO VALOR, PORQUE O NÃO SABER É PURO”.

 

Para se dedicar totalmente à fotografia, você decidiu sair do polo aquático ou foi levando as duas coisas juntas?

Eu comecei muito nesse lance do entusiasmo de explorar. Eu ganhava mil reais por mês com o polo e eu morava na Vila Leopoldina onde eu pagava 900 reais de aluguel e meus pais não conseguiam me dar dinheiro, aí eu tive que procurar outras opções. Comecei a fazer freelancer no bar, só que era de madrugada e meus treinos eram de manhã. Mas eu não falava pra ninguém que estava fazendo isso. Mas, automaticamente, o meu nível nos treinos foi caindo, fui me apaixonando mais pela fotografia e as pessoas internamente perceberam isso. Foi quando vieram trocar essa ideia comigo em 2022, e falaram: “pô, eu acho que é melhor você seguir o seu caminho”. Então, a gente rompeu o contrato. Eu tinha uma câmera e um sonho. Na sequência, volto pra Mogi… e as coisas lá funcionam diferente aqui de São Paulo. Por mais que seja próximo, parece que o algoritmo entrega alguma coisa diferente pra lá. Então acho que até as informações chegam aqui antes e isso reflete na forma como as pessoas enxergam o mundo. Então, pra ter uma perspectiva melhor de um caminho pra trilhar, tive que continuar morando em São Paulo e fazendo esses frilas de bar. Comecei a trabalhar na época da Copa de 2022. Fiquei um tempo na Void, não sei se você tá ligado!?

Sim. A famosa Void.

Todo mundo ia na Void, vários rappers. E aí, por coincidência, um dia eu estava no metrô e comecei trocar ideia com um mano que eu via lá. Só que isso já era de madrugada, voltando pra casa. Ele perguntou: “o que você tá fazendo?” Respondi: eu tô voltando de um frila que tô fazendo num bar. Ele disse que estava de subgerente na Void, que precisava de gente e me chamou pra fazer um teste. Fui e fiz. Gostaram de mim, porém, pensei se ficava ou não, porque no outro trampo eu ganhava mais e tinha um pouco mais de tempo. Mas conversando com um amigo, ele abriu meus olhos porque a Void era o lugar onde os artistas colavam. Então, poderia ter oportunidade de me conectar. Eu fui com essa mentalidade, e lembro muito bem que o primeiro dia que eu entrei lá fui no pensamento de fazer as pessoas conhecerem meu trabalho. E, cara, eu costumo dizer que a Void mudou a minha vida nesse quesito, porque realmente foi onde as pessoas começaram a conhecer meu trabalho. Comecei lá como garçom… e em dado momento, um desses artistas que iam lá era o Hodari.

Incrível!

É um cara que eu sou super fã e acabava atendendo muito por ele ser um cara super comunicativo. Começamos a criar uma relação de amizade, de ser aquela pessoa que atende toda vez que ele chegava lá.

 

Foto: Fernanda Opitacio

 

E os pretos se comunicam, né, mano? Tipo, querendo ou não, você não conhecendo o cara, ele já, tipo, te dá um salve. Assim, parece que te conhece de algum lugar.

Sim… ele sempre deixava adesivos dele comigo e eu sempre guardava, até que um dia ele chegou e me perguntou: “cara, o que você gosta de fazer da vida além de trabalhar aqui? Eu disse: eu gosto de tirar umas fotos. Ele respondeu: “é mesmo? Então, vou te chamar pra fazer umas fotos”.

Que foda!

Mas você sabe como é. Nesse mundo o pessoal promete coisas que nem sempre se cumpre. Só que aquilo na minha cabeça era legal. Mas achei que era só mais um cara que estava ali querendo se promover e falando que ia me chamar pra uma coisa que nunca aconteceria. E aí passou uns dois meses, o Kendrick Lamar ia vir ao Brasil pra cantar no GP Week 2023 e o Hodari ia abrir o evento. Aí, ele veio e falou: “irmão, vai ter esse show aqui e queria que você fotografasse”. Ele me levou e foi a primeira vez que eu fotografei num estádio. Isso mudou minha vida. Chorei muito nesse dia e fiz até a tatuagem do primeiro álbum dele no braço, porque foi muito emocionante. A partir disso a nossa parceria foi ficando cada vez maior e assim, eu fui viajar com ele, e viramos irmãos. Ele me abriu as portas pro mundo porque a partir dele o Derek me conheceu e aí disso veio o Deekapz e tudo isso foi fazendo parte da minha construção até aqui.

Seu amigo tinha razão. Você estava no lugar certo, na hora certa, mesmo não sendo aquilo que você queria fazer, já começou a construir uma ponte e o universo, Deus ou qualquer coisa que você acredite foi abrindo as portas. E foi aquela parada que você disse, às vezes as pessoas prometem e nem sempre acontece. Mas aquele convite mudou suas perspectivas. E tem algum fotógrafo que te influenciou no jeito de fotografar e na forma de dirigir?

Inicialmente, na direção, eu sempre fui muito fã do Alysson Freitas, que é um diretor aqui de São Paulo. Ele começou a dirigir com um iPhone. Na época eu lembro que teve até um dia que eu atendi ele na Void, e fiquei nervoso que até errei o pedido dele. Demorou mais de uma hora pra sair. Aí, nossa, eu nunca esqueci disso. Hoje nós somos amigos pessoais. Ele foi uma das pessoas que me influenciou muito. Na época era difícil a gente ter referência de pessoas pretas dirigindo, fotografando… vi também o Alisson Gabriel porque quando eu comecei a fotografar eu queria ser fotógrafo de artista, de show, e ele já era o cara que já fazia foto do Derek e até hoje faz com o Veigh. É um cara que teve uma ascensão muito grande dentro do trap, e foi uma das primeiras referências que me apareceram e que me ajudaram a construir essa narrativa inconscientemente daquilo que eu poderia ser. E aí depois durante a nossa jornada a gente vai conhecendo outras pessoas que vão ajudando nessa construção. Hoje eu sou muito fã do Gabriel Moses, que é um diretor preto de Londres que tá fazendo um barulho gigante. Eu consumo aqueles que me ajudam a construir essa minha visão, né?

Aproveitando o gancho, você construiu sua própria identidade visual. Tem uma forma de captar a imagem e de usar as cores, que são mais escuras, tem sombras. Como foi desenvolver essa visão?

Cara, eu costumo dizer, eu tava até comentando com um brother meu esses dias, que ele me falou assim: “eu acho que a gente se dá super bem porque você é um cara que tem uma sensibilidade ancestral muito aflorada e eu já sou um cara que trago algo mais psicológico”. Eu costumo olhar muito pra esse lado. Eu sinto que é muito uma questão de ter essa sensibilidade ancestral em tudo que eu consumo e das trocas que eu tenho no meu dia a dia, porque eu sou uma pessoa que gosto de conversar muito com as pessoas, principalmente com as mais velhas. Eu acho que isso, de uma forma inconsciente, me ajuda a construir esse lado mais sensível. É difícil a gente fazer uma autoanálise, mas essa é uma sensibilidade cinematográfica. Então, eu gosto de coisas mais quentes, de sombras. Eu fiquei muito feliz que a gente conseguiu passar isso no filme (do BK) também. Sabe, esse lance do preto em camadas, do branco em camadas também, tanto nas roupas, tanto na luz, nas texturas… então eu acho que o principal ponto são essas trocas. E isso reflete no meu olhar, porque é um reflexo de tudo aquilo que eu consumo diariamente nas minhas relações.

 

Poeta e Willy | Foto: Fernanda Opitacio

 

Eu vejo os fotógrafos falando que o que importa, no final das contas, não é o equipamento que se usa, mas a visão que se tem. Concorda com isso?

Concordo. Porém, convenhamos, né? Um bom fotógrafo com excelente equipamento vai elevar o nível dez vezes mais. Mas eu entendo que quando a gente fala disso, a gente tá colocando a arte no valor que ela deve realmente estar, que é como que eu passo aquilo que eu acredito com o que eu tenho. Porque eu acredito verdadeiramente que o não saber tem muito valor, porque o não saber é puro. Isso reflete naquilo que você está fazendo. Esse não saber, para não ficar tão confuso o que quero dizer é… quando comecei a fotografar, eu não sabia o que eu estava fazendo, mas isso potencializava o meu olhar porque eu não me preocupava com o equipamento, não me preocupava se eu tinha o flash ideal. Eu entendia minimamente aquilo que estava nas minhas mãos e falava: acho que consigo fazer. O meu olhar não estava preocupado com outras coisas.

No seu caso, que começou a fotografar com um celular, a galera já obrigava naquela visão. Depois que você começou a fotografar com uma câmera mais profissional, essa sua visão já se expandiu ainda mais, né? E também vai no lance do acesso. Tipo, na maioria das vezes, um moleque ou uma menina preta da periferia não vai ter acesso a uma câmera. Mas você tinha um celular e conseguia fazer uma parada que as pessoas não estavam fazendo.

Exato. Eu falo muito isso pelo acesso, principalmente de pessoas pretas, periféricas, que não têm essa possibilidade logo de início, de ter um equipamento foda e começar a fazer uma direção de um filme ou de fotografia no celular mesmo e depois começar a galgar outros caminhos. E cara, olha como isso é interessante… o que uma oportunidade pode fazer. Olha até onde me trouxe. Me possibilitou hoje estar aqui trocando essa ideia com você. De fazer com que um dos maiores rappers da atualidade saiba quem eu sou e admire a minha obra por causa de uma oportunidade. Ninguém quis saber se eu sou formado. É o meu primeiro filme, e que conta uma história gigantesca de um marco no rap e tá aí no mundo e o mundo recebeu isso de uma forma tão boa por conta de uma oportunidade né? Imagina se essa oportunidade se tornasse cada vez mais acessível para pessoas como nós? Ela só potencializa aquilo que a gente pode ser. Até me arrepia falar disso.

Com absoluta certeza. Digo o mesmo. E como que rolou a conexão com o BK’ pra chegar na direção desse filme, sendo seu primeiro filme e já entregando uma obra incrível?

É muito doido, né? Porque estava falando do lance da Void e você falou: “parece que estava na hora certa, no momento certo”… eu acho que na minha vida, tudo foi construído nessa base. Acho que até aqui, eu sempre estive na hora certa, no lugar certo, no momento certo. Ano passado, eu fiz duas viagens internacionais, uma delas foi pra Milão. E aí, eu voltei de Milão sem trabalho nenhum. Fui e voltei sem trabalho nenhum. Mas eu voltei com a mente cheia de coisa pra fazer, e precisava colocar aquilo pra fora. E aí comecei a rodar meu Instagram e a mandar mensagem pra todo mundo: eu preciso trabalhar. E numa dessas, eu respondi o story de um amigo, Fidelis, que é um diretor de arte incrível. E ele estava rodando um filme junto com o Alysson. Respondi o story assim: “nossa sempre sonhei dividir set com vocês”. E aí, na hora ele me respondeu: você tá livre amanhã? Falei, óbvio. Ele me passou o endereço e aí eu fui, rodei o set com o pessoal, fiz amizade com o Alisson. Depois disso começamos a se ver direto, a trocar ideias, porque o Alysson é uma pessoa que gosta muito de compartilhar tudo aquilo que sabe, que ele aprende… então, ele gosta de ter pessoas como eu que também gostam de aprender e que gostam do mesmo assunto. Aí teve um dia que a gente foi pra um evento e aí ele falou que tinha uma pessoa que precisava me conhecer. E a pessoa era o Willy (Hajli), que é o outro diretor que co-dirigiu comigo esse filme. Aí na semana seguinte fui na produtora dele e desde então o pessoal se apaixonou também pelo meu olhar. Em dado momento, no início do ano, ele me chamou lá porque queria desenvolver alguns projetos autorais que ele tinha em mente e tudo mais. E aí, meses depois, me mandou uma mensagem: “cara chegou aqui um projeto do BK e eu acho que vai rolar essa oportunidade da gente trabalhar juntos a primeira vez”. Mas a princípio ele não me falou nada sobre dirigir, eu achei que ia fazer foto. E aí quando eu fui ver dois dias depois eu já tava na reunião com pessoal do BK, o pessoal da 30e. Quando o pessoal perguntou quem ia fazer as fotos still e ninguém falou meu nome, fiquei confuso. Eu não perguntei nada. Mas depois que a reunião acabou, mandei mensagem para o Willy, e ele me explicou que eu iria co-dirigir. Na hora que chegou, ele acreditou que eu seria a melhor pessoa para colaborar junto com ele, muito pela construção que a gente estava tendo e muito pelo que eles acreditam e visualizam do potencial que eu tenho como diretor também.

 

Willy, BK’ e Poeta Visual | Foto: Fernanda Opitacio

 

Vocês tiveram pouco tempo para desenrolar tudo. Mas, apesar do tempo, como chegaram naquele conceito?

A princípio era pra ser algo mais simples, um visualizer, um teaser… na verdade era pra ser só um teaser de anúncio do show. Mas aí a gente parou pra conversar e falamos: olha o contexto e a oportunidade que tá na nossa mão. E já pensamos: vamos fazer um filme. E aí montamos todo o roteiro e apresentamos para a equipe deles e aí os caras piraram. O conceito… é muito interessante essa pergunta porque eu estava até conversando com outro amigo meu também que essa pesquisa é de uma vida inteira porque eu escuto BK todos os dias há anos. Então, foi algo muito natural. Logo pensei: eu não vou pegar referência gringa. Até porque a gente tá falando de um contexto de um álbum de 10 anos, cara. Olha o gancho que a gente tem pra contar essa história. Aí, as referências que a gente traz dentro do filme, que inclusive não tem uma linha reta de narrativa, são muito simbólicas, tanto na parte visual quanto na parte auditiva, e na parte de construção de fotografia. A gente queria que fosse uma história contada em três universos: (1) O universo da mãe, no começo, que representa esse castelo, o ponto de partida, feminilidade, aquele lugar que procura a segurança e o retorno sempre, né? (2) E aí tem o lance dos lutadores que representa essa parte da ruína, como se cada lutador ali fosse um sentimento dentro da nossa cabeça, dentro da cabeça do BK. Porque a gente sempre está nesse processo de… em certos momentos, um sentimento sobressai o outro. Quando a gente está bem, de repente algum problema se aproxima e quer passar por cima disso e a gente luta para que continue naquele estado de felicidade. São sempre esses processos, mas ao mesmo tempo são os sentimentos que precisam um dos outros. A gente nunca, em nenhum momento, assim como no álbum, quer se desfazer da sombra. Ele acredita que a sombra é um combustível pra continuar seguindo o caminho. A gente tentou passar isso também no filme, sabe? (3) E nós temos também o universo da música, que é o que tem os saxofones, que é o da bailarina, que é um lugar de protesto, de existência, que é a ferramenta que ele usa pra sobreviver e pra chegar onde ele chegou. É o instrumento dele de protesto, de mostrar a visão dele do mundo e, ao mesmo tempo, é alguma coisa que ele não consegue se desvincular. Então, a gente tem esses três pilares que compõem o filme. Mas esses universos estão circulando entre eles e falando por si só também.

E essa parada de trabalhar do lado do seu ídolo, de estar ali realizando um sonho de muito tempo?

Eu vejo que isso é, pra nós, como pessoas pretas… muito doido porque esse filme, pra mim, conseguiu alcançar camadas que foi para o além de fazer um filme bonito para vender um show.

Por quê?

Porque 70 % das pessoas que estavam por trás das câmaras eram pretas. Tinha várias mulheres pretas trabalhando. Tinha vários homens pretos trabalhando. E isso para mim não é nada mais do que uma extensão do que essa obra dele também alcançou, sabe? Eu acho que a obra dele não alcançou o lugar de ser só uma música boa pra fazer dinheiro. Vai além disso. Muitos de nós fomos inspirados a fazer o que nós fazemos por conta da música dele. Não foi um sonho só meu, foi um sonho de praticamente 100% da equipe de estar trabalhando ali com esse artista. E é um reflexo de tudo. É muito lindo ver que uma obra que ele fez 10 anos atrás movimenta até hoje e dá gás para que portas sejam abertas e perspectivas sejam ampliadas. Por exemplo, uma das mulheres que faz parte do elenco, que é a preta mais retinta, é minha mãe de santo. Essa é a primeira vez que ela participou de um filme e isso refletiu lá no terreiro. Essas camadas são reflexos também da obra dele, porque isso reflete na nossa vida,

Nessa também você já virou referência pra uma molecada que tá de olho no seu trabalho e se inspiram no que você faz. No futuro, eles serão os poetas, tá ligado? Isso que é muito mais foda. A semente está plantada. Mas a partir daqui, quais seus próximos passos?

Sim, exatamente. São essas camadas, né? E no final das contas é o que importa, né? Daqui a 10 anos a galera vai lembrar dessa parada hoje, tipo, é uma parada que não termina. Eu até costumo dizer para as pessoas, quando me perguntam o que eu faço. Eu faço poesias visuais. Eu não sou um fotógrafo, eu não sou um diretor, eu não quero me colocar nessa caixa. Eu sou um poeta visual, eu faço poesias visuais, independente da forma que seja. Uma hora vai ser por foto, outra hora vai ser por filme. Daqui a pouco eu posso, sei lá, fazer uma exposição. Posso fazer um desfile de moda para apontar uma poesia visual através disso. Então, meu próximo passo é… direcionar a minha carreira para lugares onde eu acredito, assim como esse filme. Eu quero realmente colaborar com marcas e com artistas que acreditam nesse meu olhar como um poeta visual. E eu quero trazer pessoas que eu acredito para que essas pessoas também se potencializem dessas oportunidades que eu estou tendo. E aí para que elas também possam se desenvolver, se desenvolver e mostrar o olhar delas para o mundo. Quem sabe eu não abro uma produtora, quem sabe eu não lance projetos autorais, enfim, quem viver verá.

Tem intenção de levar suas obras para galerias, museus e espaços de arte?

Sim, tenho muitas intenções. É algo que eu já vinha desenhando há um tempo, porque eu tenho um material de quando fui para Angola também no meio e no final de 2025. Tenho materiais que ninguém nunca viu. Eu dirigi um filme lá também, que ainda não saiu. Então tenho muita coisa que eu construí lá. E eu quero construir uma linha narrativa na minha exposição. E eu quero fazer um formato que eu ainda estou entendendo, mas um formato não convencional de obras. Eu quero entender os caminhos que eu posso seguir. Porém, eu não tenho pressa de desenvolver isso, mas com certeza eu quero ter você como um dos convidados.

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