“Um segredo compartilhado por três pessoas só será bem guardado se duas delas estiverem mortas”. Talvez a frase dita pelo protagonista da série “Seus Amigos e Vizinhos” (Your Friends and Neighbors), Andrew “Coop” Cooper (Jon Hamm) faça sentido. Cauãzin 019 pode provar. Os dois amigos dele também. Para deixar claro, ambos estão vivão e vivendo, e por causa deles o talento do MC foi revelado, quando este tinha entre 14-15 anos.
Foi na oitava série que, por brincadeira, Cauã Vitor de Souza Soares começou a cantar e escrever suas próprias músicas. “SORAYAMA” iniciou esse repertório conhecido apenas pelas amizades. Nem os pais de Cauã sabiam que o filho cantava. Depois que mostrou uma cantando acapella e fazendo as batidas na palma da mão, seus parceiros ficaram empolgados. “Eu vi que eles gostaram, e fiz mais”, diz. “Todas que fazia, gravava áudio e mandava pra eles no WhatsApp”. Com a resposta positiva e os incentivos, as composições se multiplicaram. Porém, tudo no sigilo. Até que um dia o segredo foi explanado para o inspetor da escola, Victor Lopes, que também era (é) DJ e produtor.
“Eu sempre fui muito tímido, vergonhoso demais, quieto na minha. Então não tinha muito disso… pra mim era só por diversão mesmo”, ressalta. “Aí o Victor, que trabalhava na escola, ligou para os meus pais perguntando se eu podia gravar umas músicas. Aí meu pai falou: ‘ué, o Cauã faz música, como assim? Era uma coisa nova pra ele, mas desde aquele momento me apoiou”.

Criativo desde sempre, Cauãzin gosta de moda, filmes e de fuçar nas coisas relacionadas à arte. Como já escrevia sinopse e resenha de filmes, compor era apenas um detalhe. Mesmo assim, não enxergava nada daquilo como profissão. “Só depois que eu comecei a estar no meio, e ver o corre do pessoal, que saquei que dava pra viver de música”, observa. “Depois disso, foi que foi”. Essa abertura de visão o fez olhar ainda mais para o seu quintal, o Loteão, bairro de uma região rural periférica de Campinas, no interior de São Paulo. É de lá que vem as inspirações das letras que compõem seu disco de estreia, “Do Loteão Pro Mundo”. “É uma vilinha pequenininha, onde nasci e cresci. Numa visão artística é um lugar bonito e inspirador. Meu pai sempre me falou: ‘se você for grande, se for jogador de futebol, crescer, aparecer, tem que carregar a sua raiz. Tem que abraçar suas raízes, de onde você saiu, e levantar levantar sua quebrada se conquistar algo. Essa é minha filosofia, tá ligado?” Além da sua área, ele tem como referências os Racionais MC’s, MC Hariel, o seu pai e sua mãe. “Porque me deram a possibilidade de conseguir viver e ter uma vida estável com a música. É o que dá a força”.
FUI CRESCENDO COM ESTA VISÃO: SE EU VOU FAZER MÚSICA, AINDA MAIS NESSE LUGAR, ONDE VIVO DESDE PEQUENININHO, TEM QUE SER PRA TODO MUNDO ESCUTAR. ENTÃO NÃO ADIANTA EU SÓ FAZER UM FUNK PUTARIA, UM FUNK EM QUE O PESSOAL NÃO VAI ENTENDER O QUE EU ESTOU FALANDO PORQUE AÍ NÃO VOU TER ELES COMO OUVINTES.
Isso também faz com que as músicas nasçam de forma livre, sem um processo específico. Às vezes faz três na sequência. Mas tem dia que não sai nada. “Do nada vem uma frase na cabeça, aí eu coloco lá no bloco de notas”, observa. “Depois conecto com uma frase que ouvi. Na sequência, faço o esqueleto da parada e já coloco o beat e vou lapidando”. A paixão pelo cinema faz parte da construção. O seu preferido é o drama francês “La Haine” (O Ódio), de 1995, dirigido por Mathieu Kassovitz. “Quando o Victor me mostrou, a mente meio que explodiu. A gente se baseou nele pra fazer o EP “C.P.S”. Já a arquitetura do álbum foi desenvolvida de outra forma.
“Mano, foi louco. Um processo maluco”, diz sorrindo. “Porque a gente tá trabalhando nele desde quando eu tinha 15 anos, desde quando eu comecei. Hoje tô com 18 anos. Começamos gravar na Goma do Victor e a ideia inicial era fazer outro EP, mas o projeto foi ficando grande”.
Com as ideias fervilhando, decidiram escrever um projeto de captação no Fundo de Investimentos Culturais de Campinas (FICC 2024), da Prefeitura Municipal de Campinas. Quando menos esperavam, a aprovação veio. Para um artista de funk, essa foi uma grande vitória, considerando o conservadorismo político da cidade (tanto é que este é o primeiro e único, até o momento, álbum de funk contemplado por edital público do município). O dinheiro ajudou o sonho a se tornar realidade. E quando bateu nos ouvidos, agradou logo de primeira. O fato é que os funks de Cauãzin 019 fogem do estereótipo que julgam logo que ouvem dizer que é funk. A estética se baseia na vertente consciente do já citado MC Hariel e MC Paulin da Capital. Ele decidiu fazer desse jeito porque faz parte da sua identidade e para fazer chegar a todos, dos que tem sua idade, até os mais velhos como os amigos do seu avô.

“Eu sempre pensei assim, mas conforme o meu crescimento e evolução, posso distanciar um pouco. Porém, sem perder essa essência. Fui crescendo com esta visão: se eu vou fazer música, ainda mais nesse lugar, onde eu vivo desde pequenininho, tem que fazer pra todo mundo escutar. Então não adianta eu só fazer um funk putaria, um funk em que o pessoal não vai entender o que eu estou falando porque aí não vou ter eles como ouvintes. Eu vou crescer como?”
Esse cuidado existe até quando tenta falar um palavrão pra exemplificar. Apesar do som alto, que está sendo testado para o seu show de lançamento horas mais tarde na Sala Toninhos, anexada à Estação Cultura, ele sussurra a palavra bu****, ao dizer que não vê sentido ficar repetindo a todo momento. “Eu até brinquei com a minha mãe, que tinha que fazer um som meio family friendly pra todo mundo escutar”, afirma. “É uma forma de atingir todos os públicos e manter minha essência também”. Essa seletividade está, inclusivem na escolha das suas colaborações: MC KTRINE, Jovem MK e Léo WW. “Acho que a sintonia tá forte. Dá pra perceber que tem uma conexão genuína ali”. O mesmo aconteceu com as produções do duo OSVITÃONOBEAT (Granadeiro Guimarães e vlopse), que transitam entre o “130BPM” e as texturas do Funk de Belo Horizonte. Ter essa ligação foi importante para que tudo fluísse conforme o esperado.
Isso porque, Cauã se diz perfeccionista com tudo, da comida às roupas, passando pelos beats e letras. Por esse motivo chegou a tirar uma das faixas. “Foi uma das primeiras que eu fiz, só que não estava batendo, não tava na mesma qualidade”, diz. “Tiramos ela, não descartamos”. Essa pode ser que seja lançada no futuro. Aliás, sua missão é de fato levar o Loteão para o mundo. Também pretende servir de exemplo para seus pares, mostrando que é possível chegar onde deseja.
“Eu quero que vire estética. Dá pra fazer virar, acontecer. É botar a cara, estar presente, não ter vergonha. O friozão na barriga bate mesmo. Mas mano, pra você crescer, tem que aparecer, tem que botar cara”.

