Os altos e baixos da vida deixam fissuras. THAMI as chamam de relevuras. A palavra no plural inventada por ela para “nominar coisas que, em algum momento, deixam de ser feridas e começa a ser estrutura”, intitula seu segundo álbum. A inspiração vem de um momento complexo que viveu na adolescência. Para se curar, expõe. Coloca para fora o que por muito tempo ficou preso. Mas faz de um jeito doce guiada pelo elegante neo soul. É sincera. Às vezes densa. Mas sempre otimista.
Tivemos uma conversa de quase uma hora que tivemos, por videoconferência, em que a cantora compartilha sua trajetória musical, iniciada na igreja, traumas, frustrações, volta por cima e os detalhes da construção do disco. Também fala de referências e desejos futuros. Quer que sua música seja ouvida pelo maior número de pessoas.
“Eu acho que é o meu sonho, e o sonho de todo artista independente na verdade, e falo isso sem medo”, observa “Quando a gente faz uma obra, não queremos que ela acabe depois do lançamento. Então, o meu plano e o que eu tenho trabalhado já, antes de lançar, é conseguir fazer shows com esse disco e levar isso. Eu tenho sangue nos olhos de vencer. E no final todo mundo quer comer bem, se vestir bem, poder viajar, poder proporcionar coisas legais para as pessoas que gostam. E fazer isso trabalhando com arte deve ser incrível.
Quem é THAMI por THAMI?
A THAMI é uma cantora e compositora independente, nascida e criada em Nilópolis, na Baixada Fluminense, que sempre foi artista e nunca se enxergou em outro lugar. Desde criança me sentia o patinho feio porque meu irmão era extremamente inteligente nas matérias convencionais e minha irmã também. Tanto é que ele é bancário, minha irmã engenheira e eu: artista (risadas). Isso sempre foi uma questão pra mim porque eu não conseguia me identificar na escola. Não era uma boa aluna… eu só me dava bem em português e redação. Mas só fui descobrir isso depois de adulta, e me custou muitas coisas. Mas foi muito bom também pra eu chegar onde eu cheguei como pessoa. Como artista também. Então, acho que tudo acaba virando um aprendizado.
Eu me identifico muito porque também não gostava de matemática. Preferia o texto. Queria seguir outro caminho voltado para arte e comunicação. E às vezes as pessoas só vão entender depois as nossas escolhas. Mas quando você começou a pensar em ser cantora?
Eu nem pensava ainda em ser cantora, mas foi na igreja. Outro ponto de encontro aqui, porque eu também cresci na igreja… então, desde muito nova sempre cantei em coral, participava do Ministério de Louvor, aquela coisa, e danço desde muito cedo. Por isso, a música já estava muito inserida na minha vida de uma forma secundária. Isso eu descobri depois de começar a estudar música e cantar profissionalmente. Fui até agradecer: que bom que eu fui da igreja. Porque isso me trouxe uma maturidade musical, bom senso mesmo. Também refinou meu ouvido, e eu tive boas referências quando criança. Cresci ouvindo o Kirk Franklin, e até hoje é uma das minhas maiores referências. Como participei de coral, tinha muita facilidade de abrir voz, entendo muito bem sobre os timbres e como eles se encaixam. Isso me enriqueceu musicalmente, sem querer, né? Porque não foi uma coisa proposital, eu não fiz aquilo porque eu queria ser cantora. Eu fiz porque estava na igreja e também foi a única maneira que eu enxergava de ter esse contato com a arte. Eu acho que se eu não tivesse sido ensinada e levada para a igreja, talvez eu nunca tivesse contato com a música, com a dança e com a arte no geral. Então a igreja foi sim um caminho positivo para a minha vida profissional. Tenho muitas ressalvas com a instituição hoje, mas nesse ponto eu fui muito feliz e abençoada por estar naquela igreja com boas referências musicais e de músicos.
Eu também sou nascido e criado na igreja. Inclusive, Kirk Franklin é um dos meus artistas preferidos… e conversando com vários artistas de diferentes áreas, concluo que a igreja foi meio que a primeira escola de quase todo mundo. É provável que se não fosse a igreja não teríamos a grande maioria dos músicos que temos hoje. Concorda com isso?
Eu concordo 100%. A minha família não é musical, não tem ninguém da música. Então, eu não tive essa educação dentro de casa. Por isso, se não fosse a igreja, eu jamais teria sido inserida na música. Tinha que ensaiar o que ia tocar no culto. Aí, você vai para casa e começa a estudar. Se envolve naquela cultura musical por conta da igreja, porque você tem demandas. Se o coral vai fazer a apresentação no meio do ano, a gente passa seis meses ensaiando. Assim, vamos entendendo como funciona. Se não tivesse essa igreja, eu confesso a você que eu não faço ideia o que eu seria. Acho que seria muito frustrada, inclusive, porque a minha mãe [que ela não leia essa entrevista], sempre foi uma pessoa muito… qual a palavra que eu posso usar? [pensa] Sempre me cobrou muito para estudar. E não é que eu não estudava. Aquilo só não entrava na minha cabeça de jeito nenhum, entendeu? Eu não conseguia. Matemática era uma coisa que não fazia sentido pra mim. Eu ficava ali e via, revia e o negócio não funcionava. Então eu fico assim: o que seria de mim? Minha mãe sempre usou aquela coisa anos 90. Era uma outra realidade, uma outra educação e estava usando meu irmão como comparação porque meu irmão não estudava e só tirava 9, 10. Meu Deus! E eu estudava, passava o dia inteiro ali e tirava 5, 6. Isso sempre foi para mim um ponto muito sensível porque pensava: sou burra. E me perguntava: por que eu nasci burra? Minha irmã não é burra, meu irmão não é burro, mas eu sou. Cresci com esse pensamento. A igreja, de certa forma, fez eu encontrar o meu lugar. Ali, me vi gigante. Fui líder de dança e fui líder de louvor porque era o meu lugar, o meu ponto de equilíbrio, onde as coisas faziam sentido. Eu pegava a coreografia e a letra das músicas muito rápido. Sempre era a primeira de tudo. Me sentia importante. Acho que foi o meu primeiro momento assim.
“AGORA DEPOIS DE ADULTA, EU PRECISEI VOLTAR PARA AQUELE LUGAR, PARA O PONTO DE PARTIDA, QUE FOI O ACIDENTE DA MINHA MÃE, E REVISITAR ESSAS CAMADAS DE PELE EM MIM, QUE SAÍRAM DELA, MAS ESTAVAM NA MINHA. ENTÃO, RELEVURAS NASCEU DESSE MOMENTO”.

A sua música, apesar de ter uma certa conexão, vai para o outro caminho. Mas em que momento você fez essa virada de chave de sair da igreja para virar artista e começar a gravar?
Sim. A gente vai amadurecendo e vendo que algumas coisas não fazem muito sentido, né?
Total.
Fui entender isso depois de adulta, mas eu passei minha vida inteira na igreja sofrendo assédio. E achava que aquilo que sofria de pastores e de membros era normal. Só que teve um ponto, teve um momento… já era adulta e a igreja não estava mais naquele lugar. Tinham muitas coisas que eu discordava, tipo, eu sempre tive muitos amigos homossexuais e eu não conseguia levar eles pra igreja, porque eu ficava com medo do que o pastor ia falar. Então aquele lugar já não estava fazendo muito sentido pra mim. Sofri um assédio um pouco mais invasivo, vou colocar assim. Isso para mim foi muito marcante. E quando fui conversar com o pastor depois do ocorrido… era um cara jovem até, contei a história pra ele pra ver o que faria. E aí o pastor falou assim pra mim: faz o seguinte, eu vou falar pra ele vir no culto da manhã e você vem no culto da noite. E ali naquele momento eu falei: é isso. Aqui não faz sentido pra mim mais, eu tenho que sair. E nunca mais voltei à igreja.
Parou mesmo de fazer sentido…
Sim! E a minha virada de chave para música foi na pandemia. Me formei em educação física e dei aula de dança, sapateado e jazz por quase 16 anos. E na pandemia eu falei: tenho muita coisa para mostrar e como vou ficar dentro de uma sala de aula de maneira online? Não era o que eu queria para a minha vida. Eu amo dar aula, eu amo os meus alunos, amo a dança, mas eu achava que tinha mais. Queria ir pra fora, explodir as coisas que estavam aqui dentro de mim e como professora eu não conseguiria fazer isso. Então a pandemia foi a minha virada, foi onde eu comecei a escrever, onde eu escrevi as minhas primeiras músicas. “Caminho Sem Volta” e “Nosso Blues” comecei a escrever naquele momento. E no primeiro ano, tudo era muito lento e ao mesmo tempo muito rápido. Então falei: eu não posso fazer show, não tenho como expandir a minha profissão, já que eu tô trocando agora, o que eu faço? Decidi lançar as músicas. Procurei um produtor e já tinha falado com algumas pessoas. Estava começando a postar vídeos na internet, fazendo cover. Estava tentando me encontrar de alguma maneira. Falei com o produtor, o Pedro Nunes, que eu conheci lá no Rio, e topou fazer. Ele produziu as minhas primeiras músicas, lancei na pandemia e as músicas tiveram um resultado muito legal. Acho que por todo mundo estar em casa, entraram em playlist de editorias e teve uma resposta por ser uma artista nova que nunca tinha feito nada. Consegui mil pré-saves na primeira música, que era uma coisa e muita gente ficou admirada. Eu consegui umas coisas muito legais para dar esse start. Isso me impulsionou a não parar. Então, acho que a pandemia foi muito ruim, foi horrível. Mas também, para mim, foi uma virada muito importante de falar assim: eu não quero passar o resto da minha vida fazendo o que eu faço. É aquele momento que a gente para e pensa: se eu morrer hoje, valeu a pena? Pra mim não tinha valido a pena. Então eu entrei meio que em pane. Precisava mudar minha vida, minha rota, porque precisa valer a pena.
E a pandemia foi esse momento da gente parar e pensar: o que eu estou fazendo da vida? Ou para qual caminho vou seguir depois que isso passar? Artisticamente falando também foi interessante acompanhar tudo que estava acontecendo online. E você falou que conheceram sua música por conta de estarem em casa, mas também pelo talento. De se identificarem com o tipo de música que você faz. Mas de onde veio a inspiração para escrever músicas naquele momento complicado da vida?
Tinha me permitido expor essas coisas por conta da igreja. Então a igreja foi muito ruim em outros lados também, porque me privou de viver muitas coisas legais, de me descobrir, de descobrir o meu corpo, entender o que eu gosto, o que quero dizer. A gente não tinha isso porque era muito tabu. Então, a música “Nosso Blues” foi o meu rompimento com a igreja. A gente fez um clipe super custo baixo, chamei um amigo e falei: eu quero fazer uma cena como se fosse uma cena de sexo, mas uma coisa mais poética. Tudo que eu não pude viver antes por conta da igreja, aquilo que não podia expor, que são coisas comuns, que todo mundo vive, eu consegui através da música. Eu lembro que minha mãe queria “me matar” porque ela é extremamente religiosa [risadas].
Imagino que sim. E te entendo de querer se libertar.
Ela falava: o que está acontecendo com você? Foi meio chocante. Mas não tinha nada demais. Porém, para as pessoas da igreja aquilo deve ter chocado de alguma maneira. Já “Caminho Sem Volta” foi a minha segunda música escrita. Era sobre aquele momento pandêmico. Tipo, é uma música triste, é uma música densa. Eu falo: “me tira dessa solidão, me leva para um outro lugar que eu quero que seja um caminho sem volta”. A gente estava muito agoniado, angustiado de ficar dentro de casa há meses. As pessoas até acham que é uma música romântica. Mas não é uma música romântica, é um desespero, um grito de socorro mesmo. E eu falo: “me ama, me abraça, me tira daqui”. Mas não é um amor romântico, é um carinho, um afeto de alguém que está sofrendo muito por estar trancado. Foram músicas muito importantes, inclusive “Caminho Sem Volta” é a minha música mais ouvida no Spotify, ela tem quase dois milhões de plays.

Cada pessoa interpreta de uma forma diferente. Mas é interessante também entender esse processo do artista e o conceito por trás da música, porque geralmente acham que as músicas surgem do nada, mas sempre tem uma história. E parece que a pandemia foi no século passado, mas faz apenas 6 nos. É super recente, né?
Totalmente recente, então a gente ainda vive esses resquícios.
Depois desses primeiros singles vieram os vídeos, EP e um álbum. De que forma aconteceu essa evolução?
Com os singles eu precisava me colocar ali no mercado porque eu nunca tinha lançado nada. Então, eu falei: vou fazer uma loucura, vou lançar cinco singles de uma vez, um em cada mês. Achei que isso fosse fácil. Quase morri, quase tive um burnout. Mas deu certo. Acho que no final do quinto single as pessoas já sabiam quem era a THAMI. Já não era mais uma completa desconhecida. Depois tinha que fazer um projeto um pouco maior e que mostrasse um pouco o que eu queria dali pra frente. Cada single tem uma sonoridade, e você não precisa pensar muito num conceito. Agora quando você põe um trabalho mais denso, um trabalho mais completo, como um EP ou um álbum, você precisa pensar que som quer colocar como predominante, qual a narrativa que você quer passar. É mais trabalhoso. E aí eu lancei o EP “Nua”. Ainda estava me conhecendo, ainda estava tentando… acho que esse período ainda foi de muitas descobertas, mas tem muitas referências do que eu escutei a vida toda, né? Que é a black music, o soul… aquilo que eu cresci ouvindo na igreja. Não tinha como fugir disso e até hoje é assim porque é o que eu escuto. Eu acordo e coloco Kirk Franklin porque eu gosto. Nesse período eu conheci a Tássia Reis, que é uma artista incrível e também somou no EP. Foi muito bom, foi muito importante esse feat com ela, porque de uma certa forma ela me validou mercadologicamente. Ela não é do meu segmento, mas somou para que eu crescesse também. Foi realmente muito legal essa parceria com ela. E depois desse EP, eu entrei em pânico, porque é isso, a gente faz as coisas, a gente quer que dê certo, né? A gente já quer virar de primeira. Aí eu falei: ferrou. Eu não tinha mais dinheiro e eu não tinha tido um retorno que eu achei que eu poderia ter. Pensei: agora eu vou ter que parar. Eu não tenho dinheiro, preciso me recuperar. E eu ainda trabalhava, ainda dava aula, porque precisava pagar conta. Precisava me recuperar financeiramente pra poder fazer mais coisas depois. Só que nesse período eu não consegui fazer show. Eu não consegui nenhum parceiro, eu não conseguia produzir nada. Eu entrei numa depressão. Eu realmente fiquei muito mal, porque foi nesse período que eu larguei o meu emprego. Achei que ia dar tudo certo. E aí não deu certo. Eu fiquei sem emprego e sem música. O ano de 2023 foi o pior da minha vida, disparado. Foi quando eu decidi dar uma mudança 360. Eu não queria voltar da aula. E aí me mudei para São Paulo, me inscrevi na SIM São Paulo. Eles tinham um pitting de novos artistas lá. Eu falei: vou tentar isso. E valia prêmio em dinheiro. Fiquei em segundo lugar e recebi um valor de 30 mil reais para fazer um álbum. Era um sinal. Por isso, estou aqui até hoje, não consegui voltar para o Rio de Janeiro. Eu amo São Paulo e me sinto extremamente produtiva. Apesar de ser uma cidade caótica, é uma cidade que me movimenta. Faz eu me sentir grande.
E essa produção, como foi?
“Labirinto” foi um disco que me marcou muito como artista. Fiz de verdade colocando tudo que eu tinha pra oferecer. Também fiz tudo meio que sozinha. Não tinha uma rede de apoio, e fui conhecendo as pessoas enquanto produzia. Foi uma experiência marcante. Quando o disco ficou pronto, falei assim: consegui. Esse disco me trouxe muitas coisas boas. Eu ganhei prêmio como melhor composição, num prêmio que se chama BIC (Baixada In Cena). Eu tive acesso a outros artistas. A Luedji Luna foi ao meu show de lançamento no Blue Note. Me abriu muitas portas e me consolidou dentro do mercado. Foi um grande presente mesmo, assim, mesmo com baixo orçamento.
Para quem acha que a vida de artista é fácil, que é só gravar e colocar no mundo. Tem todo um processo. Você falou desse momento 2023 e a virada de chave. Se a gente voltar ali na igreja, lembramos dos propósitos. Agora você está no seu segundo álbum. O processo de “Relevuras” foi diferente do anterior?
Totalmente diferente. Eu me sinto mais madura pessoalmente, profissionalmente e também musicalmente. Nesse disco eu quis explorar um outro lado musical. Não que eu não tenha explorado antes… deixa ver se eu consigo me colocar melhor, mas é porque a gente às vezes vai por um caminho que é o caminho mais certo, o que não tem como errar, sabe? Porque a gente fica inseguro mesmo por estar começando e não quer ousar muito. Mas nesse disco agora, eu já tô mais solta, mais confiante e eu espero que isso seja uma coisa boa porque me permiti ousar um pouco mais vocalmente falando, explorar outras regiões que eu não explorava tanto sonoramente. Pegar outras referências que não só aquelas referências comuns do dia a dia. E a mensagem do disco é muito densa. Relevuras é uma palavra inventada por mim para nominar coisas que, em algum momento, deixam de ser feridas e começam a ser estrutura. E aí eu vou falar sobre ancestralidade, porque isso vem de geração e a gente acaba reproduzindo algumas coisas que abominamos da nossa família, da nossa mãe, da nossa avó. Então tem uma coisa geracional, tem uma coisa que eu não conseguia colocar em palavras. Vou falar que é ferida? Não é ferida. Vou falar que é marca? Isso não é uma marca. O que é isso? Chamei isso de relevuras, que são esses relevos, né? Esses altos e baixos que deixam essas fissuras na gente. Então eu juntei essas palavras e criei isso. Posso dizer que é um disco que vai desmembrando essas relevuras, essas camadas. É um disco muito interessante, e não porque fui eu que fiz. É porque ele é um disco muito profundo. E até na construção dele, meu produtor, que é o Duda Raupp, falou assim: a gente tem muitas músicas densas, será que a gente não coloca algumas mais solares? Eu falei: não, é para ser assim. Ele é denso mesmo, então as músicas são mais profundas. Tem uma outra pegada e aí eu quis colocar tudo orgânico. Os instrumentos são todos tocados, o que te leva já para um outro lugar, para um outro caminho, ou seja, você já escuta de um outro jeito então tá um disco muito chique, muito refinado sonoramente e com letras muito profundas porque eu vou entrando nessas camadas de pele, essas camadas que a gente carrega. É um disco que vai te fazer olhar para dentro e refletir muito sobre quem você é. Vai te confrontar muito.
É o lance de ressignificar essas feridas e as dores?
Exato. Eu falo que é um fechamento de porta. Não é uma abertura. É um disco que você vai terminar de escutar e falar assim: ok, esse é um lugar que eu não quero voltar mais. Digo no sentido de ir dentro de você, te fazendo perceber as coisas que não fazem sentido e que você vai deixar lá atrás. É bem profundo.
E por que trazer esse tema?
Olha, aí a gente vai bem lá atrás. Eu vivi uma situação com a minha mãe que acho que foi a principal fonte de inspiração do Relevuras. Faço aniversário dia 14 de março e no meu aniversário de 16 anos a minha mãe foi fazer um bolo pra mim. A gente morava na casa da minha avó. Uma casa minúscula. Minha mãe tinha acabado de se separar do meu pai e a gente estava num processo bem complicado. Minha avó é cozinheira… só pra contextualizar. E a minha mãe subiu numa cadeira e o fundo dessa cadeira quebrou. Ela caiu, mas como minha avó fazia comida pra fora, assim, pra igreja, tinha aqueles panelões gigantes. Um deles estava fervendo água, e minha mãe foi se apoiar no fogão pra levantar e a panela virou nela. Queimou 80 % do corpo.
Nossa…
Foi um período muito complexo por ter sido no dia do meu aniversário. A minha mãe sofreu muito, porque imagina ter 80% do corpo queimado numa situação precária. A gente vivia numa casa muito humilde. Com 16 anos comecei a cuidar da minha mãe, que ficou internada um tempão. Mas quando ela saiu do hospital, precisava trocar de pele todos os dias. Pra isso precisava vir com uma esponja e esfregar. Ela gritava de dor. Minha avó não aguentava fazer aquilo porque tinha problema de pressão. Sobrava pra mim porque minha irmã era super pequenininha. Isso me marcou muito. Não foi um tempo perdido, porque amadureci. Saí da adolescência já pra fase adulta. Não só por essa situação, por N outras coisas. Mas essas camadas de pele da minha mãe me amadureceram e também mataram muitas coisas em mim, de vida, de vivência. Eu nunca tive uma boa relação com a minha irmã porque eu achava que quando ela nasceu tinha roubado meu lugar. A partir daquele momento eu precisei mudar isso porque ela era super novinha e minha mãe estava debilitada. Naquele momento eu comecei a estabelecer uma relação afetiva muito forte com a minha irmã, de levar para a escola, de cuidar. Então, foi uma grande transformação para mim. E sabe quando você nunca trata, você só vive e deixa aquela coisa passar? Eu fiz isso. Agora, depois de adulta, eu precisei voltar para aquele lugar, para o ponto de partida, que foi o acidente da minha mãe, e revisitar essas camadas de pele em mim, que saíram dela, mas estavam na minha. Relevuras nasceu desse momento. Quantas coisas eu matei para que a minha mãe pudesse viver, para que ela pudesse se recuperar, se restabelecer e talvez ela nem saiba, e eu nem sei se eu quero aprofundar isso com ela porque não é sobre ela, é sobre mim. É sobre o que aconteceu com a Thamires naquele período. Eu precisei voltar para esse lugar e rever muitas coisas que eu perdi da vida, coisas que eu encontrei e a partir disso nasceu o disco.
É um processo de cura também. Por isso você falou que o disco tem que ser denso, porque naquele momento não tinha nada alegre, colorido.
Exato.

E você falou um pouco de referências… quais são as suas referências e o que você tem ouvido ou ouviu para ter um norte no direcionamento do álbum?
Olha, Kirk Franklin vai ser sempre meu 01, porque eu realmente cresci ouvindo ele.
E foi muito involuntário. Era uma coisa ali que o pessoal da minha igreja tocava. Eu achava maneiro e ouvia. E eu amo muito até hoje. É meio que um ritual. Eu acordo e coloco um disco dele no talo. Acho que os meus vizinhos já devem ter aprendido [risadas]. Mas pro disco eu comecei a me aprofundar muito em Sade, porque ela tem uma sonoridade que é muito característica. Lianne La Havas escuto muito também, e acho que ela completa o ambiente só com a voz. Então gosto muito de pegar essas referências. E aí, partindo para Brasil, Emílio Santiago. Meu pai ouvia muito quando eu era criança e é um artista que eu peguei um carinho absurdo pelas obras e a forma como ele fazia poesia.
Da música brasileira é um dos mais incríveis musicalmente. A voz e o estilo é de uma elegância surreal. Lembro dele ser um dos únicos negros cantando na TV sempre muito bem alinhado e um sorriso bonito.
Sim, ele é o mais mais. Emílio Santiago, Djavan, Jorge Ben… também gosto muito e eu escuto muito Luedji Luna. Vou colocá-la dentro da nova geração, no sentido de ser a artista mais nova dentro dos que eu já falei. É uma artista que me completa muito com o que escreve. Tem músicas dela que eu escuto e falo assim: nossa, eu gostaria de ter escrito isso. Ela consegue colocar muito bem em escrita coisas que a gente sente no nosso dia a dia. Então, a Luedji tem sido essa artista que me inspira. E ela também, eu acho uma artista extremamente elegante, que se posiciona muito bem, fala muito bem… a figura dela me inspira muito.
Para o futuro, o que você tem de perspectivas, planos, ambições?
“Eu acho que é o meu sonho, e o sonho de todo artista independente na verdade, e falo isso sem medo é que a nossa música seja ouvida pelo maior número de pessoas e que a gente consiga viver dignamente da nossa arte. Quando a gente faz uma obra, não queremos que ela acabe depois do lançamento. Então, o meu plano e o que eu tenho trabalhado já, até mesmo antes de lançar, é conseguir fazer shows com esse disco e levar isso. Eu tenho sangue nos olhos para vencer. E no final todo mundo quer comer bem, se vestir bem, poder viajar, poder proporcionar coisas legais para as pessoas que gostam. E fazer isso trabalhando com arte deve ser incrível. Eu quero mesmo que esse disco ganhe o mundo, ganhe prêmios… eu sonho alto mesmo, porque é isso, eu não vim, eu falo pros meus amigos… eu não vim pra São Paulo pensando na diversão, sabe? Óbvio, a gente se diverte, mas eu vim pra cá atrás da minha carreira. Eu vim pra trabalhar arte. Já estou há seis anos nesse processo e ainda não posso te dizer que eu consigo fazer isso plenamente. Eu já dei muitos passos, mas ainda é muito pouco. Eu quero mais. O meu sonho é que esse disco alcance mais gente para que eu possa relaxar também. Deve ser muito legal relaxar. E a gente não conseguiu ainda. Parece uma coisa boba, mas é isso. Acho que eu quero fazer um trabalho, viver dignamente dele e poder descansar também. Poder curtir o trabalho, porque a gente não curte. A gente só trabalha. A gente já entrega um trabalho pensando no próximo. Então eu acho que esse é o meu maior sonho e eu acredito que esse seja o sonho de todo mundo que trabalha com arte independente, que empreende.
Esse lance de descansar, de curtir, é muito louco porque me pego muito nesse lugar. As pessoas perguntam, como você consegue fazer várias coisas? Só vou fazendo. Só que precisamos descansar também. Às vezes quando dou um tempo, parece que estou cometendo um pecado, perdendo tempo Perdendo tempo…
… realmente. Eu me sinto culpada quando tô em casa deitada. Não era pra estar deitada. Aí pego o computador e vou tentar fazer alguma coisa. Tipo, bate a culpa. Isso é horrível. Eu não quero viver assim.

