Sempre adiantado, cheguei ao Artsy Club Studios, na Vila Madalena, em São Paulo, às 14h. Ali, acompanharíamos uma parte do ensaio do Emicida para os shows da turnê “Mesmas Cores, Mesmos Valores” (MCMV), que se inicia em 30 de abril, com ingressos esgotados, e 1º de maio, no Espaço Unimed. Estar antes do horário marcado tem seus benefícios. Enquanto aguardava, o rapper e a equipe terminavam o almoço. Quando acabam, servem-se de um café com banoffee. Para manter tudo no seu tempo, Negus, A&R, alerta a todos que faltam 13 minutos para voltarem ao estúdio.
Continuei no hall de entrada, acompanhando de longe. Mesmo com a porta fechada era possível ouvir o que vinha lá de dentro pela sala de controle, onde Damien Seth, o engenheiro de som, gravava à distância e passava as orientações. Pouco mais de 15h, Negus e a equipe da 30e convidam os jornalistas e creators a entrarem na sessão. Quase que iniciando um círculo, Emicida, todo de preto, está acompanhado pelo microfone e o seu inseparável caderno com uma série de desenhos.
Ele não muda as páginas de uma espécie de storyboard. Serve como apoio para caso ele precise consultar algo. Ele até chega a mostrar rapidamente algumas de suas artes, mas não deixa que registrem imagens dos quadrinhos. São visuais que explicam alguns direcionamentos.

Logo de início, a principal dúvida é sanada: sim, músicas que não fazem parte do álbum “Mesmas Cores, Mesmos Valores, vol. 2” estarão presentes no repertório. Podemos acompanhar os “ajustes” de “AmarElo”. “Vamos fazer a versão original do sample”, afirmou o rapper. Os responsáveis por isso são Pé Beats, na bateria, Érica Silva, assumindo baixo, guitarra, violão e voz, e Óscar Jr, nos teclados. O power trio, somado ao DJ Nyack, deixa a música com outra textura, seguindo as linhas de soul-funky brasileiro presente em “Sujeito de Sorte”, do Belchior.
Outra que terá uma releitura é “A Chapa é Quente”. Nesta, o funk maculelê se funde ao rock, deixando-a ainda mais tensa e explosiva. Esse processo de construção parece fácil. Mas é apenas aparência.
Por quase uma hora, ajustaram o que achavam que estava fora de ordem de apenas duas ou três músicas. Na direção musical, Fejuca faz o papel de maestro. Em alguns momentos o BPM sobe, em outros desce. É um trabalho de repetições. Externamente, Damien também diz qual caminho pode ser seguido. Para descontrair, Emicida e Nyack quebram o gelo. Conversam com os visitantes. “Estava dando tudo certo, mas como temos convidado o pessoal quer se ‘amostrar”, brinca Emicida, pedindo para que Óscar toque temas do Chaves, Jaspion e Dragon Ball Z. Para delírio de todos, o sorridente pianista mostra seus dotes. Érica impressiona com seu solo na guitarra, e a cadência que tem no baixo. As viradas frenéticas do Pé impressiona os convidados, que ficam com os ouvidos “pregados” na bateria. Toda essa atmosfera gera curiosidade de como será ao vivo, valendo.

Depois de experimentar um pouco do que será apresentado nos palcos, o Emicida deu espaço para o Leandro. Na pausa para um café, sempre com um sorriso no rosto e falando pausadamente, ele revela mais alguns detalhes do que pode se esperar do show. Já era de conhecimento geral que Projota e Rashid participariam. Depois de algum suspense, Jotapê também foi confirmado. “Ele é um moleque que mexeu muito com a gente. Direto ele passa aí, porque é um moleque que tem a cabeça muito pra frente, ele entrou no nosso ritmozinho de nerd também”, ressalta. “Já aparece com os livros agora que ele sabe que nós gostamos de conversar, eu tô lendo”. Mas além dessa informação, tinha algumas outras ainda não reveladas.
“Eu fiz a trilha sonora de uma peça chamada Tá Pra Vencer. Ela rodou alguns teatros, mas foi bem pequenininha, e foi lá que eu comecei a brisar nesse bagulho de samplear o som da vida, só fazer um som com os ruídos do dia a dia, saca!?”, observa. “E aí no disco eu levei isso para outro nível. Quando a gente começou a montar o show, eu pirei nesse barulho de trazer o espetáculo mais pra perto. Então, a gente estruturou ele com monólogos, dividido em partes. Também funciona quase que como uma peça de teatro mesmo, com as intervenções dos atores, em que cada um faz a introdução de um determinado estado de espírito”.
Assim, é possível concluir que não será apenas uma performance com uma música na sequência da outra. Vai além. O objetivo dele é fazer com que o espectador faça uma imersão. Participe. É uma forma também de reivindicar [mais uma vez] o hip-hop como movimento coletivo. “Porque todo mundo tá achando que está inventando o hip hop”, afirma. “E aí, se reinventar, se provocar nesse lugar, é também tipo, mano, buscar jogo, tá ligado!? Mostrar que nós também estamos inventando o nosso bagulho aqui porque a gente faz isso a muito tempo”. Por esse motivo, estudo a obra dos Racionais MC’’ para elevar a sua própria à última potência. “Porque não é só fazer uma homenagem para os Racionais ali, a obra do Racionais está posta como um grande manifesto intelectual. É um barato que é muito profundo, muito poético, muito inteligente, muito visceral, ligado? Muito atual, saca!?”.
É basicamente a manutenção da essência do rap nacional, com estética e identidade do Brasil. Uma das referências usadas por ele é o álbum “Jazzmatazz”, do Guru. Porém, esse é apenas um ponto de partida. Emicida reconhece toda a influência dos arquitetos do rap, mas agora quer olhar para dentro de casa e beber das fontes locais.

“Não só estamos fazendo um bagulho tão legal quanto o Jazzmatazz, como estamos fazendo isso com a influência brasileira. Um Jazzmatazz mais doce, sacou? Não é mais um bagulho de olhar e falar: deixa eu ver o que os gringos fizeram, ou o que os gringos estão fazendo. É um bagulho muito de tipo… acho que a gente construiu isso como uma cultura madura, a ponto de poder olhar o que a gente fez e falar: vou me inspirar num bagulho que nós já fizemos. Acho que é meio isso. A gente gosta de vários artistas, tá ligado? Mas tem coisa foda pra caralho aqui pra colocar dentro da nossa música”.
Para entender e absorver todas essas visões é necessário estar presente. Cada show será um show. Pelas observações, difícilmente haverá algum tipo de repetição. E para quem ainda tem receio da inserção de bandas nos concertos de rap, pode manter a tranquilidade que o DJ não perderá o protagonismo. É o que podemos considerar parte da evolução natural das coisas.
“A gente consegue operar as máquinas. Só vamos sentir a oscilação entre o DJ e a banda apenas em casos propositais”, alerta. “Os momentos que isso acontece é porque a gente quer que o DJ fique em evidência, e que as pessoas se conectem com a linguagem tradicional do gênero. Depois vem pra essa coisa mais jazz. Acho que esse show tá meio jazz!”
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