“Eu não digo que é uma continuidade, ele tem a mesma vibração e essa coisa solar no instrumental, mas existe sombra em algumas ideias… e um pouco mais de profundidade. O Onda era só para ser de fácil digestão, não precisava ficar pensando muito, é mais para você curtir o momento”.
Se alguém tinha dúvidas se “Nas Profundezas da Onda” era uma continuidade de seu antecessor, “Onda”, Rael ressalta que não. É possível que em algum momento ambos se encontrem, principalmente nas texturas, mas os direcionamentos são diferentes. Neste de 2026, ele reafirma o seu posicionamento.
“Tem essa nostalgia do Rael da Rima, que eu acho maneiro também, porque faz parte da minha história, não tem como você apagar uma coisa que aconteceu de fato, né, mano?”, diz. “Mas tem aquela ideia de a semente e a árvore serem a mesma coisa, só que em momentos diferentes da vida. Então, eu tô num momento diferente agora, mais maduro, mais tempo fazendo música do que não fazendo música. E eu acho que trouxe alguns apontamentos de acordo com a experiência que eu tenho”.
De uma das salas do seu estúdio, o músico, cantor, rapper e compositor afirma por videochamada que é meio cansativo ser do digital. Lembra que quando começou no rap não existia algorítmico, playlists e toda a pressão da indústria. “Não tinha essa coisa meio caça níquel também. Sempre teve um pouco, mas não do jeito que está agora”, observa. “Acho que existe uma indignação coletiva por parte de quem cria, por parte de quem faz”. Um dos gatilhos que o levou a falar sobre o assunto foi as críticas que o cantor Silva fez durante um show em Brasília em 2025. “Ele quis falar isso e sofreu bastante, mas teve uma coragem que muita gente não teve. Claro que teve várias coisas que ele falou ali, de nomes e coisas assim, que eu já não iria até esse ponto, mas muita coisa eu acho que ele tinha razão”. Inclusive, parte da fala de Silva é usada na introdução de “Forma Abstrata”. Pergunto se a música ficou descartável pela velocidade do consumo digital, como se fosse um fast food. A resposta é comedida, porém realista.
“NÃO FICO PENSANDO EM JUNTAR DINHEIRO. É IMPORTANTE, MAS SE NÃO TIVER MÚSCULO PARA GASTAR ELE DEPOIS, NÃO VAI ADIANTAR PORRA NENHUMA”.

“É a pulverização barra IA, barra o jeito que é tratado hoje em dia. Eu acho que essa pulverização deu uma enfraquecida. Não diria assim, descartável. Mas eu acho que deu uma desvalorizada”, ressalta. “Tem gente fazendo um monte de coisa boa, obviamente. Mas não necessariamente essas pessoas vão ser vistas, porque o bagulho virou um monstro gigantesco. A fórmula que é feita hoje em dia e o rumo que tomou a coisa é um pouco assustador. Desvaloriza a pessoa que parou para criar. Acho que a galera não tá mais respeitando esse tempo, a dedicação, por isso que vira muito chá de indignação por aí. Tipo, o mundo não tá acompanhando esse sentimento, essa sua expectativa”.
De fato, aquele sentimento de colocar um disco para tocar, absorver o que ele tem e depois compartilhar as sensações com os amigos está se perdendo. O mergulho nas profundezas está cada vez mais escasso, porque existe uma necessidade de apenas molhar os pés no raso para ter tempo de sair e consumir outra coisa que esteja disponível na mesma praia. A escuta é quase inexistente. E na visão de Rael isso não se resume à falta de sensibilidade, mas ao excesso que leva as pessoas a ficarem anestesiadas pela gama de opções.
“Hoje é muita coisa. Antigamente também tinha, mas era um pouco mais limitado a forma que você consumia, porque tinha dinheiro para apenas um disco. Aí ouvia ele até ter dinheiro mês que vem para comprar outro. Se não tivesse dinheiro, pegava um disco emprestado. Hoje em dia você tem uma livraria infinita no seu telefone. É bom? Bom pra caralho, porque também você tem muita possibilidade de ouvir coisas novas, de ser influenciado. Mas para o criador em si, acaba nessa dificuldade de ser visto mesmo, porque é muita coisa”.
ESPÍRITO LIVRE
Quando conversei com Rael, na metade de março, “Onda” tinha completado um ano. Como não existe facilidade na produção de um álbum, o espaço de tempo entre eles foi bem curto. O motivo, ele coloca na conta da hiperatividade. Mas também estava com planos para iniciar o que afirma ser um novo momento na carreira. Como as ideias estavam fervilhando na mente, uniu o útil ao agradável para arquitetar, com Nave e Fejuca, tudo em 30 dias.
Evidentemente, os acontecimentos de 2025 também o ajudaram a expor o que precisava colocar para fora. “Eu passei um monte de coisas… perdi minha mãe, sofri assalto, foi um ano de teste pra mim”, reflete. “Então eu acho que estava com muita coisa dentro de mim e ao invés de ir para a internet ficar reclamando, chorando, falei: mano, vou entrar no estúdio”. Essa profusão de emoções serviu de combustível para ele escrever e direcionar suas dores ao lugar certo. “Eu saí com um disco, e acho que sou suspeito para falar, que é o melhor que eu fiz nesses últimos tempos”.
Refletindo, Rael levanta a questão de que quem vem de quebrada, como a gente, “não tem muito tempo para ficar reclamando”. Chorar faz parte, mas a reclamação tem que ser excluída do cardápio de ações.

“No final das contas, as pessoas só querem saber se você está pronto, irmão. Quando você vai contar suas coisas, o que aconteceu, os caras falam: ‘Porra, sinto muito. Mas e aí, mano, está pronto? O show é daqui uma hora, você vai subir lá?’ A vida é assim”.
Antes que eu continue a conversa com mais perguntas, ele pergunta se rola acender um cigarro. Mesmo distante, digo que sim. Enquanto ensaia acender, volto ao universo do álbum, o qual as músicas foram surgindo ao longo da construção. A única que “sobrou” do anterior foi “Cabulosa”. Ela não entrou porque já tinham outras duas músicas com a sanfona do Mestrinho, e ele não queria colocar mais uma. “Meu pai tinha falecido, e ele era sanfoneiro também. Aí fiquei na onda da sanfona, mas não ia ficar legal três músicas com ela”. Tirando esta, as outras nasceram do zero.
Apesar de não ser consenso de todos, Rael concorda com uma máxima que paira entre os compositores de que a inspiração surge nos momentos mais difíceis, de dor e desilusão. “Você fica mais à flor da pele, né, mano? Você fica mais sensível mesmo, eu acho que essa sensibilidade para criação funciona”, pondera. “Se você não entra numa fossa, você fica com sangue nos olhos, a raiva funciona. Para mim foi meio isso, eu estava meio com raiva. E funcionou. Eu já fiz música que foi nesse mesmo âmbito. Mas às vezes você fala: ‘caralho, não precisava ter passado por aquilo pra sair a porra dessa música’.
O processo poderia ser simples, mas a vida não segue quesitos próprios. Tem suas surpresas. Por isso, os temas abordados são um pouco mais profundos, comparando com um mergulho profundo, onde encontram-se ambientes que não podem ser visualizados pela superfície.
“Tô falando de saúde mental, Tô falando da indústria (da música), tô falando de feminicídio, ecocídio, em Manaus, eu cito essas coisas”, afirma. “Falo de que eu não sou só disco e hit de sucesso, sou de tudo um pouco, porque, às vezes, as pessoas me resumem ao cara do hit “Envovidão”. Ah não, mano, Rael é além disso, entendeu!? São muitas camadas, e acho que me humanizei em algumas faixas. Apontei o dedo na ferida em outras. Têm profundidade nesse aspecto, com apontamentos que fazem refletir”.
Versátil, Rael deixa claro que nunca quis ficar numa caixinha só, e que até dentro do próprio rap foi além. Ele lembra também que na época que ninguém cantava, era o cantor do rap que todo mundo chamava para fazer refrão. “Eu sempre fui disruptivo nesse sentido, depois comecei com essas coisas de afrobeats e amapiano… não tô dizendo que eu fui o primeiro, mas bebi muito nessa fonte e nunca tive restrição”. Essa várias possibilidades são comparadas à comida. “Eu como de tudo, não tenho nenhuma restrição alimentar”. Neste caso, a música é o seu alimento.
Por outro lado, nem todos entendem essas variações. Na verdade até pedem, porém, quando a mudança acontece as críticas vem porque era melhor o artista manter a essência. “Eu faço isso há 27 anos que vai fazer”, diz. “Se eu continuasse fazendo do mesmo jeito como eu comecei, mano, eu ia enjoar. Tenho necessidades de fazer coisas diferentes. Eu gosto de desafio, eu gosto de navegar em ondas novas”. Se não for assim, na visão dele, o criativo fica defasado. “A gente tem que acompanhar o bagulho. Música é igual a medicina, tio. O médico tem que ficar estudando toda parada que aparece. Todo o vírus que aparece, todo remédio que entrou no mercado, tudo isso, o cara tem que saber, tio. Música é igual a medicina: pra mim, as duas curam. Então, você tem que saber o que tá rolando, tem que se atualizar”.

CORRENDO DAS TENDÊNCIAS
Ter identidade é importante, e Rael pretende manter a sua. A intenção dele é continuar remando contra a maré sem fazer com que a arte que faz vire refém das tendências criadas pelos algoritmos. Mesmo que seja prejudicado por não saberem em que playlist o colocar, ele prefere que seja assim, fazendo o que acredita e não o que esperem o que faça. Não pretende ser só mais um.
“Quando eu comecei a fazer, a gente tinha uma preocupação em ser original e não copiar”, reflete. “Hoje em dia eu vejo uma molecada falando: “mano, esse bagulho tá foda, tio. Tá soando igual o Travis (Scott). Caralho, tio, porra. Tipo, eu acho que a gente tá vivendo numa era que é importante ser você. Eu acho que eu achei o meu som. Eu sei qual é o meu som. É essa coisa aí. É um pouquinho de tudo que acaba virando uma outra coisa, que não tem o nome definido, e não precisa ter nome”.

Mas no mercado, cada coisa tem que estar numa prateleira específica. No caso brasileiro, quase tudo que soe alternativo é MPB (ou nova MPB), mesmo que não seja. Se for de fora com referências do jazz podem considerar World Music. Já os artistas negros ou de periferia, colocam na caixa artificial da urban music (ou urbano). “Eu já ouvi isto de gravadora: você é a raiz do hip-hop, cara, se mantém nisso”, revela. “Tipo, como se eu tivesse que ser o que ele acha que eu deveria ser, e porque eu sou um MC, venho de favela, não posso fazer um disco pop. Se fosse assim, então o Michael Jackson não poderia ser o rei do pop”. A mesma coisa aconteceu com o Mano Brown quando fez “Boogie Naipe”. Passados 10 anos, muitos ainda não entenderam a proposta. “As pessoas não entendem que para o artista cansa ficar no mesmo processo repetitivo. E para quem ouve também é”.
Paralelo à música, Rael se dedica à corrida. É maratonista há mais de 10 anos. Tanto é que fez uma audição correndo 5km com outros corredores. O objetivo é o autocuidado, a manutenção da cabeça e do corpo para conseguir dar conta. Essa vontade de mudança veio depois que se tornou pai e por causa de um problema que teve no pulmão em 2011, resultando na perda de parte de um dos pulmões. Mesmo o médico dizendo que não ia dar para fazer atividade, ele seguiu.
“Se você direciona os pensamentos para o lugar certo, você consegue transformar coisas internas”, ressalta. “Se eu tivesse preso só na ideia que ele me falou não ia fazer mais nada. A gente vive num tempo que tem mais informação. Eu vi meus pais só trabalhando a vida inteira, nunca tiveram tempo para cuidar do corpo, para fazer uma atividade física. Então, a gente que tem muita informação hoje precisa usar a nosso favor. Não dá pra ficar só pensando em juntar dinheiro, e não juntar massa muscular. Não fico pensando só em juntar dinheiro. É importante, mas se você não tiver músculo para gastar ele depois, não vai adiantar porra nenhuma”.

