Do lado de fora da Casa Rockambole, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, era possível ouvir resquícios do que estava acontecendo atrás das paredes. Lá dentro, Joabe Reis coordenava os últimos detalhes da primeira Dejavu Session de 2026. Ao redor dele estava o DJ Tubarão e alguns dos mais requisitados músicos do Brasil.
Para tentar reunir todos os amigos, o trombonista colocou quase que duplas de instrumentistas. Ou seja, tinha duas baterias [Dedé Silva e Daniel Pinheiro], assim como teclados e sintetizadores [Gabriel Gaiardo e Murillo Teixeira], baixos [Braguinha e Robinho Rodrigues], trompetes [Bruno Santos e Felipe Aires], trombones [Joabe e Heloisa Alvino], uma guitarra [Stanley Wagner] e um trio de Saxofones [Bira Júnior, Lucas Santana e Josué Lopez]. Mesmo assim, teve quem ficou de fora. Para Joabe, essa edição seria uma das mais especiais porque também comemoraria o seu aniversário de 35 anos, assim que o relógio marcasse 00h00 do dia 14 de janeiro.
Cheguei pouco mais de 18h do dia 13, quase duas horas antes de começar, e já tinha pessoas aguardando para garantir o melhor lugar na roda formada na pista da Rockambole toda segunda terça-feira de cada mês. Para fazer uma comparação aproximada, é como se fosse uma grande roda de samba com o público em volta dos músicos. A diferença é que ali o jazz, o funk e o soul dominam. Porém, a energia é a mesma. Impossível ficar aquém do que está acontecendo. Tem momentos que você fica sem reação. Parece não acreditar no que ouve de tão surpreendente que é. Em outros, vibra, pula, dança, se emociona. É um “Sunday Service” [só que numa terça] com tudo o que tem direito. Impossível não sair impactado por tudo que presenciou ao longo das horas.

A arquitetura da Casa favorece o aconchego, assim como um templo. Joabe é o reverendo que rege e dá oportunidade para que cada um de seus ministros sejam protagonistas. Há uma organização. Porém, não existe hierarquia. Todos são importantes para que apenas a música se sobressaia. Tem uma troca, apoio. E é possível observar que levam sério o que fazem, porém, aquele espaço é como se fosse um playground. Alguns são tipo Art Blakey. Brincam, sorriem, se divertem [esse é o caso do “pastor” Daniel Pinheiro e do pianista Murillo Teixeira. O segundo dá impressão que é fácil demais dominar as teclas, fazendo com que seus dedos corram rapidamente, enquanto ele viaja para outra atmosfera]. Outros já assumem a postura de Thelonious Monk. Semblante fechado, sem risadas, mas sempre prontos para uma dança. Essa atmosfera contagia. Faz com que palavras torpes sejam ditas altas por quase não acreditar naquilo que se está ouvindo. É orgânico, apesar de não parecer.
O ouvido mais exigente [como o meu] parece dizer: mentira que ouvi isso. Possui equilíbrio. Até as microfonias que aparecem de vez em quando colaboram.
O primeiro set da sessão foi aberto com “Bololô Grooves”, de Danilo Sinna, e na sequência veio “Hargrove”, composta por Kenny Garrett. Já na abertura dos trabalhos deu para sentir o que a noite aguardava. Do mezanino foi possível ter uma visão panorâmica do ambiente. Olhares fixados, cabeças balançando e o corpo reagindo às ondas que reverberam. Para colocar um pouco de pimenta no molho, a baixista Ana Karina Sebastião chegou com o groove de “Nega Ninja”. Difícil não se apaixonar pela forma apaixonada que conduz. Tem a ginga que dificilmente será encontrada em outro lugar que não seja o Brasil.
Isso também se reflete no suingue da guitarra de Anna Tréa. Seus riffs carregados e pausados deixaram todos atentos para saber o que ela tinha preparado para os segundos subsequentes. Depois da introdução, quem não dançou perdeu uma das várias oportunidades. O funky-soul esquentou ainda mais o baile.

Apesar do ar-condicionado, o calor era intenso. Lá fora, a chuva caia. Na metade do setlist, Joabe convidou dois ícones do jazz brasileiro: Arismar do Espírito Santo (69 anos) e Filó Machado (74 anos). Esse foi um dos momentos mais bonitos da Dejavu. E como era de se esperar, esses dois mestres da música instrumental surpreenderam. Arismar chegou no centro do círculo com seu baixo sem cabeça. Para Filó foi oferecida uma guitarra por Stanley. Porém, ele decidiu usar a voz. Tanto em “Jogral” como em “Boca de Leão”, ambos fizeram os olhos marejarem pela beleza do que pôde ser observado. Filó interpretou as canções fazendo scatts. Arismar o acompanhou. Cheios de vigor, disposição e plenitude, brincaram como crianças felizes em suas brincadeiras favoritas.
Depois desses espetáculo a parte, ainda vieram Ellen Oléria, Cleverson, Conrado Goys, Caio Andreatta, Agenor de Lorenzi, Serginho Carvalho, Tuto Ferraz, Gina Garcia, Jadiel, Jota Erre, Silveira cantando “Can’t Side Love”, do D’Angelo, e Seu Jorge com toda a sua elegância em “Everybody Loves The Sunshine”, de Roy Ayers, e solo irrepreensível do saxofonista Josué Lopes.

Como a estética pede, nessa o clima arrefeceu. Isso não quer dizer que esfriou. Apenas deu a deixa para que Fábio Brazza puxasse “Só Uma Noite”, emendando com um freestyle à meia-noite para dar os parabéns ao aniversariante. Com direito a bolo e tudo, Joabe agradeceu pela noite. Mas na verdade quem compareceu é que foi presenteado pela festa organizada por ele. A cereja do bolo foi colocada no final por Jamah, entregando tudo e mais um pouco com seus vocal marcante, e Hanni fazendo uma versão quentíssima de “Superstition”, de Stevie Wonder.
Essa noite só reafirmou que o moderno jazz brasileiro está vivão, vivendo e na vanguarda. Outra igual a essa dificilmente se repetirá. Cada edição da Dejavu é única, seja em SP ou em outras cidades que faz residência, como no Rio de Janeiro, com surpresas diferentes. Assim, Joabe Reis se consolida como um dos mais inventivos dessa geração de jazzistas, unindo o tradicional com as sonoridades periféricas locais, do rap ao funk. Não por acaso tem chamado a atenção de críticos e esgotado bilhetes nas icônicas casas de jazz da Europa.
É bem provável que com “Drive Slow – A última das fantasias”, seu terceiro álbum [o qual tive a oportunidade de ouvir antecipadamente] abra ainda mais as possibilidades para além das fronteiras do Brasil, inclusive pela participação do trompetista estadunidense Theo Croker [este, aceitou o convite para gravar depois de ir a uma edição da Dejavu].
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[enquanto os roadies organizavam a Casa depois da festa, já na madrugada. Tuto Ferraz assumiu as congas, enquanto Arismar do Espírito Santo foi para a bateria. Sob a “regência” de Serginho Machado, os dois fizeram um improviso para a alegria de quem aguardava a adrenalina baixar. Ninguém queria ir embora.]

