A missão era conseguir acompanhar a maioria dos shows de rap, trap e R&B no quarto dia (12/09) do The Town, em São Paulo. Na lista estavam Kaê Guajajara, Brô MC’s, Ceelo Green, Alee, Duquesa, TZ da Coronel, Kayblack e Jason Derulo. Quando cheguei, quase às duas da tarde, Kaê já estava finalizando. Por ser a primeira e única mulher indígena a tocar no festival, merecia um horário melhor para que mais pessoas a conhecessem. Mesmo assim, ela foi lá e fez.
Às 14h45, também representando os indígenas, os irmãos Bruno, Clemerson, Kelvin e Charles, do Brô MC’s, subiram ao Factory acompanhados por um DJ, baterista e guitarrista. Eles mantiveram a essência do rap com letras cantadas na língua Guarani-Kaiowá e em português para protestar contra a violência, a invasão e expulsão dos seus territórios, e as demarcações de terras nas suas áreas. Ao final, reforçaram a condenação de 27 anos do ex-presidente do Brasil, um dos responsáveis pelo descaso com a população indígena, e fizeram uma dança tradicional com todos ladeados indo para frente e para trás. Quem estava no gramado seguiu a celebração.

Duas horas e meia depois, Alee dominou o mesmo palco. Ele tem presença, é explosivo, sabe cativar seus fãs. Muita gente se juntou para acompanhá-lo com entusiasmo. Colocou geral para dançar, fazendo a poeira levantar. O pequeno bate-cabeça também chamou atenção da segurança, que depois do ocorrido na pista do Don Toliver estava atenta para evitar problemas. Mas como evitar o caos tendo o seu porta-voz como mestre de cerimônia? É preciso dizer que o VS estava um pouco mais alto do que o normal, sobressaindo algumas vezes a voz, principalmente quando ele interagia e a voz de fundo continuava. Porém, isso não atrapalhou a dinâmica. Teve que colocar sua vulnerabilidade para jogo, algo que poucos estão dispostos a fazer no ao vivo.
Para recarregar as baterias, antes de ver a Duquesa, uma pausa no stand da Trident foi necessária. Impossível não conferir as ações imersivas e as embalagens feitas especialmente para o The Town. Cada sabor representava um estilo: Rock (menta), Trap (blueberry), Funk (melancia), Eletrônico (intense) e Pop (tutti frutti). Essa é mais uma forma de se conectar com a GenZ para destravar experiências intensas, autênticas e cheias de atitude.

Já no início da noite, logo depois de Duda Beat, um número considerável de pessoas se aglomerou em frente ao Palco Quebrada. Todos e todas ali aguardavam com expectativa a performance da Duquesa. Isso porque circulava que seria uma das apresentações indispensáveis da sexta-feira. O único erro foi colocarem ela no mesmo horário que Ceelo Green, no Skyline – que não foi possível acompanhar, principalmente pela distância. Com um “bonde” formado apenas por mulheres, dos instrumentais à dança, a rapper e cantora baiana chegou desfilando como quem detém todo o poder do mundo. De início, convida aos presentes para fazer parte da sua gang.
“Vocês oficialmente pertencem a minha Taurus Gang”, afirmou antes de cantar “Primeiro de Maio (Gostosas Inteligentes). “Eu preciso dividir com vocês uma classificação muito importante do meu público. Essa classificação é muito importante. Pra vocês entenderem que não é só ser gostosa, também tem que ser algo mais”.
Ela canta, rima, dança. Está mais do que pronta para ser protagonista de uma cena que está cada vez mais pasteurizada. A arte dela predomina. Tem presença, carisma. Sabe o que faz para manter a atenção. Os celulares, do começo ao fim, se mantêm com as câmeras ativas. Só por isso, mas principalmente pelo que tem feito nesse último ano, merecia estar ao menos nos palcos médios. Assim como o Favela do Rock In Rio, o Quebrada veio com uma proposta de inclusão, mas (de alguma forma) segrega artistas e gêneros periféricos. Porém, independente de qualquer coisa, Duquesa se agiganta. Da mesma forma faz com que todas as mulheres se sintam bem com o próprio corpo.

“Independente do corpo que você tenha, eu espero que todo mundo saia desse show olhando pro espelho e se sentindo a pessoa mais gostosa da face da terra”, disse ela. “Aqui não é sobre imposição. Eu não tô dizendo pra vocês terem corpo X e Y. Eu tô falando pra vocês se amarem cada dia mais, porque vocês são incríveis do jeito que são. Certo? Enquanto a mídia tá o tempo todo falando que você não é suficiente, o seu corpo não é suficiente. Talvez um dia disseram que o meu corpo não seria um corpo de artista. E eu quero que vocês se sintam incríveis com o corpo que vocês têm. Entendeu?”
Para compartilhar esse momento importante, Duq convidou MC Luanna (“99 Problemas”), Yunk Vino (“Purple Rain”) e Tasha & Tracie (“Disk P@#$%&!”). Emocionada, enalteceu a música preta, ressaltando que o rap é preto, o pop é preto, o house é preto, o rock é preto. O a.k.a que Jeysa Ribeiro escolheu foi assertivo. Ela tem feito juz a ele.
SUBMUNDO, TZ DA CORONEL, KAYBLACK E JASON DERULO
Fora dos grandes palcos, mas servindo referências, a Submundo 808 fez bailes crocantes no stand do Club Social Snack. Com os graves do pancadão os e as Djs Rafinha Duarte, THR e Glass, Ray e Clandestina, quem passou por lá pode ter uma pequena experiência da essência da Submundo. O objetivo, segundo Carol Lermann, coordenadora de marketing de Club Social, é se conectar cada vez mais com a geração que está no corre do dia a dia buscando identidade própria e independência financeira.
“Pra gente era muito importante falar da cultura de rua e o funk surge muito como um conceito do nosso produto”, diz Carol. “Então, por um lado é o pancadão, a intensidade do sabor do snack e o pancadão do funk. E aí falando de funk, a gente quis trazer os experts mesmo pra mostrar o que é esse baile, o que é esse funk. Por isso, a Submundo tá aqui com a gente trazendo essa legitimidade de verdade de quem vive desse corre e quem faz o rolê acontecer. A gente quis trazer eles pra contar essa história aqui dentro também porque se a gente tá celebrando a música, a cultura, eles precisam estar aqui junto com a gente”.

Do funk, voltamos para o trap com TZ da Coronel no Factory e Kayblack no Quebrada. Havia uma expectativa para ambos. Mas nada de surpresas. TZ fez uma apresentação básica, sem novidades. Kayblack, que ainda receberia Vulgo FK, LPT Zlatan e Caverinha, teve o apoio de uma banda, o que não tirou o show da mornidão. Nem a pirotecnia em alguns momentos, elementos visuais, cenografia e bailarinos conseguiram empolgar. No começo, principalmente, o auto-tune estava no limite. Em alguns momentos nem era possível entender o que ele cantava. Vulgo FK ajudou a animar, mas foram poucos os picos altos.
Um dos grandes nomes do Skyline, onde Backstreet Boys finalizaria a noite, Jason Derulo dividiu opiniões. Teve quem elogiou e aqueles que não se empolgaram com o cantor. Nem toda a sensualidade e o suor ajudaram a tirar o frio da performance mecânica e direcionada pelo playback. Essa foi a chance que Derulo teve para ir além dos hits que bombaram no TikTok. Mas não aproveitou. Seguiu a temperatura gélida, com a famosa garoa, de São Paulo.
*O adailton moura foi ao The Town a convite de Trident e Club Social Snack


