RELVI quer instigar. O impacto vem logo na arte que estampa a capa do álbum PESTE. O título também deixa aquela dúvida do que se trata, mas ele explica. “Vai no sentido daquele moleque popular que não para um minuto, tipo: ‘esse moleque é uma peste’”, diz ao RAPresentando. “E dentro do social também, trazer a PESTE como algo contagiante e inevitável quando chega!” Esse mal contagioso puxa o fio para que a cura dele seja descoberta. “Pela indignação de não se contentar com o que o social nos oferece no dia a dia. Traz também essa importância da fuga que a arte – a PESTE – representa pra gente em tempos difíceis”. Essa linha de pensamento direciona a narrativa que o MC Curitibano desenrola em quase 38 minutos guiados pelos beats “sujos”, com recortes do rap nacional, do Traumatopia.
Assim como o conceito sugere, a densidade o permeia. É honesto, realista, introspectivo. Tem violência, rastros de sangue, tensões e uma imersão em demandas sensíveis da vida – cheia de altos e baixos. Pode ser gatilho para alguns e libertação para outros.

“Sempre tive um pensamento mais viral, dentro do sistema em que a gente vive”, diz. “Tipo assim: como um vírus positivo pode agir na sociedade passando a mensagem?! Sempre escrevi e compus minhas letras e músicas com o intuito de transmitir meu sentimento sobre as questões sociais que compartilho com o trabalhador/sofredor brasileiro que não é herdeiro [risadas], e também sobre os problemas mentais que a gente enfrenta todos os dias”.
Para arquitetar o disco, o rapper teve que separar um tempo. “Até porque todos os trabalhos que fiz com meu irmão Trauma sempre foram projetos completos”. Por isso, acredita que não teria como criar algo consistente fazendo músicas soltas para depois juntá-las. Tudo foi calculado para que não tivesse pontas soltas. Também decidiu trabalhar mais uma vez com o produtor que já o acompanha por alguns anos. Segue a lógica de que não se mexe em time que está ganhando.
“Eu conheci o Trauma quando a gente foi trabalhar num clipe do ‘DiaTribe’, projeto dele com meus manos Nairobi e Thestrow”, revela. “Dali a gente já marcou uma sessão, que acabou resultando direto no nosso primeiro disco, “Cinza Com Azul Mesclado”. Na sequência, lançamos “A Guerra Que Os Heróis Não Sabem”, junto com nosso irmão Galf AC”.
Na contagem, “PESTE” é o terceiro projeto deles. A amizade dos dois é o que faz a diferença. Vai além da relação de rapper e produtor/beatmaker. Isso reflete, inclusive, nas composições que são retratos do que vivem cotidianamente.
“Passamos por muita coisa ruim e boa juntos nessa caminhada. PESTE fala sobre as questões sociais que nos afetam no dia a dia, e fala sobre luto também”, observa o MC, que é complementado por Traumatopia: “é um trabalho mais maduro, mais consciente em relação ao resultado que queríamos”.
Com a perda da mãe em 2024, RELVI coloca para fora suas dores e incertezas. “É algo que eu lido todos os dias e, de certa forma, acaba sendo um combustível nessa jornada”. O reflexo disso está relacionado diretamente na estética e nas texturas utilizadas nas bases, o que Trauma define como “pesada, soturna, melancólica e um pouco aborrecida, sem ‘hahaha’”. Outra inspiração para essa “escuridão sonora” é o céu nublado de Curitiba, no Paraná, cidade em que o álbum foi gravado. “Se precisar de um beat pra festa, solar, não me procure”.
A amarração de tudo é feita com a conexão de outros amigos, que possuem as mesmas visões para somar nas ideias: Alienação Afrofuturista (em “Song from the Death”), Wil Santos (em “Rocky & Apollo”), Galf AC (em “Miradouro”) e Cabês (em “Ordem do Dia”).
“Eu quis trazer artistas que estão em sintonia comigo nesse momento, e que são nossos amigos de verdade”, reflete. “Não curto essa frieza de fazer participação com artista que você não tem convívio ou sinergia. Pra mim, tem que ter troca real”.
Presente no catálogo ardiloso da Sujoground, coordenado por Matheus Coringa, um dos selos de rap que tem ido na contramão do establishment nacional, dando visibilidade ao “submundo”, PESTE possui estética visual inspirada em fitas VHS e glitchs. A “sujeira” casa com proposta que se recusa a amenizar as dores. Expõem para tentarem achar a cura. “Ele não quer ser resposta, quer ser reflexo. Quer mostrar que, mesmo no escuro, tem gente com o olho aceso e a caneta afiada”, fala RELVI. “Escrever pra mim é sagrado. Não é sobre salvar o mundo – é sobre não deixar que ele me consuma”. Para tirar as próprias conclusões é necessário escutar, pelo menos, mais de 2 vezes.

