Projota e “A Milenar Arte de Meter o Louco”

O MC revela que se libertou dos medos de expor seus pensamentos

Foto: Rui Guedes

Foto: Rui Guedes

Na ampla sala reservada no QG do Spotify em São Paulo, os fãs aguardam Projota. A ansiedade paira. Abro a porta e geral se empolga. Lamento dizer, eu não sou o Projota. Sorrisos nervosos invadem o ambiente. Dez minutos depois, o rapper surge sorridente com um terno cinza, de riscos pretos, camiseta azul marinho, relógio dourado, calça preta e tênis branco. Aperto o REC do gravador para não perder o que ele tem a dizer.Projota pega o microfone e agradece a presença de todos. Os celulares entram em ação. Os stories são preenchidos com fotos e vídeos. Cada gesto é capturado. Após as considerações iniciais, o MC da Zona Norte de São Paulo começa a falar sobre “A Milenar Arte de Meter o Louco”.

“Esse disco está pesado pra caralho. Nego não espera isso. Ele está bem pessoal e, acho, que esse é o meu melhor disco. E eu realmente acredito nisso, de verdade”, afirma. “Atingimos uma maturidade muito boa. Estou muito feliz com todo trabalho. A gente demorou muito. Nosso plano era lançar em março. Era pra ser quatro meses de produção, mas dobramos o tempo.”

Iniciada a audição. Todos em silêncio. Dou um vacilo. Esqueço de pausar a gravação. É evidente que não se poder registrar algo inédito que ainda não foi liberado para o público. A moça que estava atrás de mim, me alerta: tá gravando! Não pode gravar! Opa, foi mal. Passou desapercebido. Pausei, enquanto a voz do Mano Bown ecoava nos potentes falantes Yamaha: “Unanimidade não é liberdade. É o contrário.
Não pode isso, não pode aquilo. Ser infeliz pode! Ser feliz não pode! Simples assim […] O bagulho tá maior, e agora? Tá tocando em todos os carro. Todos os bagulho. E agora?”

A deixa do Brown leva para a música que intitula o LP. “A Milenar Arte de Meter o Louco demorou quase um ano pra ficar pronta. Fizemos várias versões dela. Quando chegamos na última, veio o pensamento: mano, o Brown podia dar uma ideia no final, fazer tipo uma assinatura no final da música”, diz Projota.

Pegar uma frase marcante do Mano Brown não foi tão fácil quanto se imaginava. “Ele estava ensaiando para o show de lançamento Boogie Naipe. A gente colou no estúdio. Ficamos do meio-dia até dez e meia da noite esperando ele pra gravar. Ficamos esperando, pacientemente. Foi Foda, compramos até umas esfihas”. As risadas tomam a sala, mas logo se esvai. Projota volta a falar.

“Ele não gravou a assinatura que eu tinha falado. Ele estava até tímido. Aí o Brown falou: vamos gravando aqui. Conversamos por uma hora e meia. Como tinha muito material, não dava pra pegar só dez segundos, então pensei: vou fazer um interlúdio só do Brown. Uma faixa do Brown no meu disco. Só com as ideias dele, eu consegui sintetizar o disco”.

pROJOTA

Apagar os esteriótipos criados pelas músicas mais POPs e radiofônicas – entre elas “Linda“, feita em parceria com o duo AnaVitória – é um dos planos do Projota. Ele não quer mais ser reconhecido somente pelos hits que impulsionaram sua carreira e o fizeram, de fato, “meter o louco”, como a collab com a Anitta. Ele recebeu críticas da ala conservadora do RAP, mas seguiu em frente.

“Eu fico puto, porque tem muita gente que não ouve o disco todo, e fica refém das músicas que ganharam clipe ou estão nas rádios”.

Em “A Milenar Arte de Meter o Louco”, José Tiago Sabino Pereira solta o leão que estava preso. O romantismo não é a principal linha que ele segue. E a pretenção também não é essa. “Quero mostrar que também faço um som pesadão”. Com Karol Conka, em “Mais Like”, o MC aponta os malefícios do uso desenfreado das redes sociais. “Eu não tenho saco mais”, decreta. “Eu já tô com 31 anos, e realmente odeio essa porra. Eu quero viver a vida. Mas eu tô me cobrando, porque eu sei que os fãs querem esse negócio (estar mais presente)”.

Das 12 faixas, “Segura seu BO” é a mais reveladora. Projota fala da luta que teve com a depressão, em 2015, no auge da carreira. Ele não mede as palavras. Coloca os bagulho na mesa. Rashid o acompanha.

“É de um jeito que eu nunca tinha feito, expondo alguns pensamentos que eu nunca tinha exposto”, diz. “Eu tinha medo, tá ligado. Em “Muleque de Vila” eu falo: meu nome é foda e meu sobre nome é pra caralho. Eu tinha medo de falar isso. Eu achava que ninguém nunca ia aceitar eu falar isso. Hoje, eu penso o seguinte: um moleque preto da periferia, que é quem eu mais gostaria que se identificasse com tudo isso, se ele não tiver essa marra… ele é pisoteado pelo mundo. Eu quero ser mais representativo para esse moleque hoje. Eu gostaria que o moleque da periferia acreditasse em si mesmo, mesmo com as poucas oportunidades”.

Ao fim da audição, aplausos. Na sequência, por mais de 30 minutos, Projota responde as perguntas dos fãs. Antes de encerrar os trabalhos com um acapella da #11 música e posar para as fotos, ele a declara novamente que não quer ser mais visto como o cara bonzinho, puro, o menino romântico que não bebe e não fuma. Essas “cobranças” o trouxeram problemas.

“Isso foi uma das paradas que me levou a depressão. Eu não conseguia mais lidar com isso… com a necessidade de ser foda. Eu tinha que ser foda, tinha que ser perfeito. Eu não podia expor minhas ideias no Twitter. Tinha que ser muito perfeito, o romântico. Eu tinha que ser isso e aquilo. Mas eu não quero mais. E esse disco é para me libertar. E acho que vai me libertar.”

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