#ENTREVISTA | “Tinha que ser nós e outros caras também”, fala Rael sobre a ascensão do RAP BR

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Calor. Muito calor. O pior é que estávamos no inverno. A aglomeração de pessoas ajudou no aumento da temperatura. Atravessei um pequeno túnel que fazia a ligação entre o fosso do palco Sunset e o espaço de convivência dos artistas e suas equipes no Rock In Rio. Câmeras, celulares e microfones apostos. João Donato, Lucy Alves, Emanuelle Araújo, Tiê e Mariana Aydar estavam por lá. Tudo muito colorido, dos figurinos às artes expostas. Atravessei a área.

Pequenos contêiners foram transformados em camarins. O do Rael estava estrategicamente instalado ao lado do aconchego de Elza Soares. Não a vi, apenas seus dançarinos que preparavam o figurino. A menos de duas horas para subir ao palco, Rael conversava com seus parceiros, o Dj Nyack estava ao lado dele, e se refrescava com uma breja, que deixou de lado para gentilmente me atender.

O convite inesperado e a antecipação da parceira dele com Elza tinham que estar na pauta. O papo fluiu.  E nem preciso dizer que a performance de Rael e Elza foi bombástica – talvez uma das melhores do Palco Sunset do RIR. 

Como foi receber a notícia de que substituiria o mestre Charles Bradley e faria parceria com Elza Soares no Rock In Rio?

Cara… eu fiquei sabendo no dia do São Paulo Fashion Week… Cheguei lá e o Fióti me deu esse salve. Na verdade até agora a ficha não caiu. Na verdade, era uma coisa que iria rolar em 2019 e os caras anteciparam… e eu sinto muito honrado de estar fazendo isso, ainda mias com a Elza, uma pessoa icônica como ela… com a biografia que tem. Eu tô chegando engatinhando agora, ali perto dela, né moleque!? (risadas) Vai ser louco.

Essa parceria com a Elza também casa com esse seu momento na carreira: disco recém-lançado, show novo, interpretando músicas do Vinicius de Moraes. E você tem prezado por interpretar (cantar) mais, deixando as rimas um pouco em segundo plano.

Eu gosto de fazer coisas, igual eu estou fazendo do Vinicius e o que eu acho que é uma pausa também pra você sentir outras coisas né, não só o seu autoral, não só o rap, não só trabalhar com as mesmas pessoas que você trabalha. é uma coisa que eu faço com muito prazer também, porque eu tiro uma onda, é um respiro e é um trabalho com muita responsabilidade também. Paralelo a isso, estamos com a turnê de “Coisas do Meu Imaginário”. A gente tá aí rodando o Braza. E eu acho que não é nem o lance de… fazer menos rap. Tudo, de modo geral é música, o rap é música também. Eu só estou cantando mais mesmo, mas as idéias continuam na mesma  pegada de sempre. E gosto de cantar de tocar violão, e eu acho que isso está mais presente na minha vida, estou sentindo isso mais do que nunca. E tá daora, eu tenho curtido bastante.

E o atual momento do RAP Brasil? 

Eu vejo que está numa crescente legal, né cara!? A gente tá colando em lugares que a gente não colava, mas ainda é uma coisa tímida né!? Porque se você for ver bem é só nós. Tinha que ser nós e outros caras também. Tinha que ser os caras aqui do Rio, os caras do nordeste, os caras de vários lugares. Então, é uma coisa muito tímida ainda. A gente tá aqui no Rock In Rio graças a Deus, daora. Vamos fazer o nosso trampo ali. Mas ainda não é… eu acho que nosso movimento, embora seja positivo o que tá acontecendo, ainda não é uma coisa que tem uma estrutura do tamanho que o Brasil é. A gente não atende toda a demanda do país, sacou!?

A cena é bem envolvente. Mas observo que ainda falta união. Tá cada um por si. É claro que tem excessões, a LAB é um exemplo. Dar suporte aos novos artistas é a chave para que o RAP seja ainda mais fortalecido?

Acho que sim, isso tem que rolar. Agora o Coruja e a Drika entraram para o cast (da LAB)… Você vê os moleques se organizando. Têm os caras lá da Fundão, do Brown. Tem vários grupos lá do clã do Negredo. Tem o Big da Godói. Você vê o Don Cézão tem a Ceia com o Febém, Clara Lima, o Djonga. Tem os moleques do Damassaclan… enfim, hoje em dia tem mais pessoas fazendo essas bancas… Acho que tem que ser assim. Nos Estados Unidos foi assim. Nova York era a capital do bagulho. Aí foi rodando. Teve uma época que quem dominou foi L.A, agora é Atlanta. Então, eu acredito que aqui vai ser assim. A gente tá aqui hoje, mas de repente pode ser o Rio. De repente pode ser Minas Gerais. Mas é questão de tempo também.

Os pretos sempre quiseram chegar aonde deveriam estar, ganhar espaço. Mas quando um de nós chega, recebe uma porrada de críticas. A LAB é um exemplo. Foi muito criticada pelo preço das roupas. Falta apoio das próprias pessoas que fazem parte do movimento?

Às vezes não é nem questão de apoio. O problema é que as pessoas se prendem numas paradas que tipo assim: nós que é preto, muitas vezes, somos perseguidos por nós mesmos. E quando você tá na merda, nego fala: puta, esse cara é humilde, esse cara é daora. Mas quando você começa subir, viram e falam: aí, esse maluco é vendido. Parece que tem sempre alguém vigiando pra quando você tiver indo falar: “e, eu to te vendo hein negão! Você não pode ir muito longe”.

Foto: I Hate Flash

Foto: I Hate Flash

Parece que é isso. Tipo: jogador de futebol pode ganhar dinheiro, ator pode ganhar dinheiro, MC não! Só que o bagulho da LAB não é o lance de ganhar dinheiro… não é somente o apoio, é a falta de informação também. Porque os caras da LAB tiveram que trazer tecido da África; o João Pimenta, que é um estilista renomado, um fashionista de miliano, fez a parada das roupas… ele que desenhou as roupas; tem as costuras… então, o custo é alto. Entra também no mesmo conceito das marcas que tem esse mesmo preço no mercado. Eu sei que é um bagulho nosso (dos pretos), mas quando se entra nesse bagulho você também tem que dialogar com a galera de lá. E às vezes rola um bagulho de respeito, dentro desse meio (da moda). Agora a LAB veio com uma outra coleção, justamente focada nisso. Esse viés meio que afastou a galera que é nossa, porém dessa vez a gente veio com uma ideia de fazer uma roupa nossa, com preço acessível.

E qual é a recomendação que você dá para a rapaziada que está começando a carreira artística, mas que não valorizam a arte que faz e, muitas vezes, quer que o trabalho vingue rapidamente?

Quem tá começando sempre quer ver resultados imediatos, fica ansioso. A gente tá vivendo muito uma fase do “embrulha e entrega aí”. Mas ainda falta o toque final, o refinamento. Isso é um detalhe. São coisas para que você entregue um trabalho legal, ponto. Segunda questão: tem que pensar numa carreira, sacou!? Eu tô nesse corre faz 17 anos, vai fazer 18 anos já. E… é passo por passo. Cada um tem uma história também. Não adianta eu pegar e falar: é isso ou aquilo. Não tem uma fórmula. Mas a fórmula principal é: você gosta do que está fazendo? Você gosta da sua música? Você gosta dela ao ponto de ouvir sua voz? Quando você colar no palco você vai falar aquilo com propriedade? Tem isso no seu coração? Se tiver isso, vai que vai. O resto são coisas estratégicas. São coisas que você deve pensar como carreira. Como uma construção. Tem neguinho que lança o CD e estoura. Agora tem outros que precisam lançar vários. Eu tenho mais de 10 trampos na rua. É pessoas e pessoas. Eu conheço o Criolo desde os meus 14 anos. Quando o “Nó na Orelha” saiu, ele tinha 23 anos de carreira. Ele falou: “vou lançar um disco pra mim parar”. E aconteceu o que aconteceu.

O Charles Bradley é um exemplo. O cara fez sucesso aos 60 anos de idade. 

Sharon Jones.

É. São dois exemplos a serem seguidos.

Então mano, a gente vive na fase agora dos singles. Tem muita coisa. O mercado tem mudado muito, mas eu acho que o primeiro passo é você estar conectado com você mesmo pra saber se é isso que quer pra vida. E pensar: “será que eu tô dialogando com alguém”. Às vezes é um diálogo pra você mesmo. Tem coisas que você fala pra você mesmo. “Eu to falando certo, eu tô conseguindo me conectar com as pessoas?” Tem que ter essa percepção também. Você tem que fazer uma análise. E, não adianta pressa. Não adianta pressa. Não adianta apressar o rio, ele corre sozinho.

O que podemos aguardar para o futuro? Já tem algo programado?

Agora em novembro vai vir o vinil do “Coisas do Meu Imaginário”. Que mais… ano que vem, se tudo der certo, vou tentar fazer um DVD acústico. Estou pensando em juntar o meu material, coisas dos primeiros discos: MP3, Diversificando, Ainda bem… Músicas que eu tenho participações que marcaram um ponto da minha vida. E depois, de repente, um disco. Mas eu tô começando a arrumar tempo para produzir outras pessoas. Já tô produzindo para uma menina chamada Mari Nolasco. Tô produzindo uma galera. Enfim, tô pensando nessas paradas todas aí. A gente não sabe se vai ficar muito tempo na estrada não, o bagulho cansa (risadas).

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