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Rincon Sapiência: “são poucos rappers que têm coragem de explorar os sons que eu tenho explorado”

No álbum "Um Corpo Preto", ele expande ainda mais o seu leque de musicalidade.
Foto: Nuna Nunes

Domingo de chuva em São Paulo. Na metade de maio a água cai torrencialmente. Mesmo com o tempo desfavorável, no Museu das Favelas, Rincon Sapiência recebe amigos e convidados para a pré-estreia do curta-metragem “Homem Gol”, dirigido por Juliana Jesus e co-dirigido por ele. O filme, que faz um mergulho na realidade de jovens da periferia que encontram no esporte uma possibilidade de futuro, serve como fio condutor para o álbum “Um Corpo Preto”. Mas não resume sua estética. Apenas gera uma curiosidade do que poderia vir. E novamente, assim como em “Ponta de Lança”, o futebol volta a ser o centro da narrativa, tendo os campos da várzea como ambiente.

Essa conexão com o esporte mais popular do Brasil – e do planeta – vem desde a época em que Danilo Albert Ambrosio jogava bola nos campos de terra e ganhou o apelido do então meio-campista do Corinthians, o colombiano Freddy Rincón. Apesar de palmeirense, o rapper adotou o apelido – dado por ter a aparência do jogador. “Eu jogava na mesma época que ele estava em alta”, afirma. “Mas o ponto de partida pra eu fazer é que no processo de fazer o disco, queria achar algum som que me contemplasse, que não soasse muito jovem e que fosse um som maduro, mas ao mesmo tempo gostoso para as pessoas ouvirem”. O desejo é que tivesse profundidade. Foi quando mergulhou ainda mais na obra do Jorge Ben. “Ele fala de raça, faz uma música gostosa de dançar, de balançar, mas ao mesmo tempo transforma a realidade da favela, a Nega Tereza, o futebol… ele transforma tudo em poesia da melhor forma”. Foi a partir dessa inspiração que nasceu “Homem Gol”.

 

“EU SOU VANGUARDISTA, SEMPRE FUI VANGUARDA”

 

 

Compartilhando um lado seu que ainda não tinha explorado, Rincon diz que tanto a música quanto o disco refletem o que tem vivido atualmente. “É o meu rap quarentão”, brinca, reforçando que nesta fase quer falar daquilo que retrata o seu momento. Porém, não pretende deixar de lado as experimentações, algo que faz parte da identidade que criou no rap.

“Eu sempre fui esse cara… e, às vezes, isso joga contra mim, né!?”, observa. “Eu viro um produto isolado do rap. Um produto que as pessoas (às vezes) demoram pra entender qual a onda que eu tô. Mas ao mesmo tempo tenho esse lado pesquisador, original, autêntico, de ter coragem e qualidade pra fazer o som que eu quero ter domínio pra produzir. Então isso também sempre me abriu muitos caminhos… esse lugar de genialidade, de originalidade”.

Até tentei, mas quase um mês antes do lançamento todos os detalhes do disco estavam em segredo. “Vai vir com muitas experiências sonoras e um detalhe curioso: ‘Homem Gol’ é quase que uma faixa isolada”, revela. “De faixa a faixa, tem um tipo de BPM, tem um tipo de levada… mas isso sempre foi presente nos meus discos”. Na visão dele, “é um híbrido de música orgânica com música digital feito com muita competência”. Quem ouve as 17 músicas concorda plenamente com a afirmação. Para os padrões atuais, ele segue remando contra a maré. Mas faz de um jeito que mantém os ouvidos atentos. Convida Dino Santiago, Lino Kriz, Funk Buia, Mylena Drague, Péricles, Marissol Mwaba, Torya, F7rança e Bren9ve. É o rap do Rincon de 40 anos.

 

Foto: Nuna Nunes

 

“Eu sou um cara muito à vontade para fazer música. Então, tem músicas com esse lado mais maduro, entre aspas, mas tem músicas que muitas vezes é para você se divertir mesmo… tem a batida já sugestiva para você curtir, balançar”, observa. “Então, às vezes, eu sou um cara que me dou a liberdade… se não tiver uma música com um texto tão profundo, tá valendo também a experiência de fazer a música, de produzir, de gravar. Mas sim, é um álbum maduro e extremamente moderno, no que diz respeito à produção musical, sons que eu explorei. Eu sou vanguardista, sempre fui vanguarda, mas ele tem sim essa maturidade”.

O Rincon Sapiência “quarentão” não vai só falar de política, crises econômicas, problemas ou coisas do tipo. “Eu continuo levando uma experiência genuína com a música”, diz. “Transformo tudo em música: pode ser um date ou relacionamento seríssimo, tudo vira uma música, tá ligado!? Uma experiência pode virar, como uma noite, pode virar uma música também”. A verdade é que tudo o Manicongo transforma em música. Mas as ideias são diferentes de anos atrás. Evoluiu e, como um cronista, passa a visão para que pensem e dancem. Não necessariamente na mesma ordem ou simultaneamente. Continua seguindo suas regras. Musicalmente falando, mantém os ritmos da diáspora africana. Tem o afrobeats que o consagrou. Mas tem os mais diversos elementos da música eletrônica negra.

“O afrobeats tem, né? É um som que acabou tomando conta da minha pesquisa fortemente, mas tem outras sonoridades afro”, ressalta. “Tem o Afrobeat também, que é aquele som feito por Fela Kuti e Tony Allen, Então, trago essa influência também. Aí tem Boom Bap, tem… e tem segredos que vou deixar pra descobrirem quando ouvir. Mas eu tô explorando muito o som, assim, de uma forma ousada. Posso dizer que são poucos rappers que têm coragem de explorar os sons que eu tenho explorado”.

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