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“Seijin”, a maturidade pela poesia de Gigante no Mic com o ritmo do Noshugah

vulnerabilidades expostas.
Foto: Kailani Galhardo

Falar de maturidade não era algo pensado por Gigante no Mic quando sentou com o beatmaker Noshugah para arquitetar “Seijin”. Porém, ao longo do processo as ideias seguiram a amplitude do termo japonês que nomeia o álbum: “adulto” ou “pessoa que atingiu maioridade”. “Eu percebi que ele estava num grau de maturidade que eu nunca tinha alcançado em nenhuma das minhas outras obras, tanto a nível musical, quanto a nível temático ou lírico”, diz. “Mas não pensei em cada música ligando a outra”. Apesar de não ser temático, possui uma linha criativa que se conecta. É um reflexo do momento de vida do MC, que aos 39 anos é pai de família com uma filha de 7 e um enteado de 15 anos. Também pela primeira vez, expõe vulnerabilidades.

“Quando eu comecei a compor, as músicas estavam indo para um lado mais politizado. Mas aí o Noshugah falou uma fita para mim que marcou: ‘Gigante, eu sou um consumidor da sua obra há algum tempo e vejo que você é muito bom para trabalhar sua parte externa. Você é um observador, um testemunho ocular dos fatos políticos, históricos e sociais que estão ao seu redor. Mas eu acho que seria interessante você trabalhar algo que viesse dentro de você, porque as pessoas se identificam’”.

A partir desse olhar, Gigante redirecionou o conceito. Tirou as composições que não se encaixavam para que todas seguissem a mesma linha. Entendeu que ser um agente político e social passa por suas experiências individuais. “A importância de ser um bom pai, de ser presente e de estar evoluindo na vida enquanto ser humano, eu tô inspirando pessoas a ter esse processo e, consequentemente, eu tô trazendo alguma mudança na vida das pessoas”, observa. “Às vezes aquela sua história vai falar com outras pessoas e elas vão se identificar porque nós somos seres humanos e o que liga um ser humano ao outro são essas peculiaridades.” Nessa conta também entram os defeitos, as inseguranças, medos, e frustrações. Assim, quando um artista se expõe, gera uma identificação. “Tanto é que a música que encerra o disco, ‘De dentro pra fora’, é para ser justamente o amálgama de tudo que veio antes, que é o Gigante realmente mostrando o que tem dentro, o que eu penso, o que eu tô passando nessa fase, nesse recorte temporal que foi fazer esse disco”. Compartilhar suas inseguranças não foi algo fácil. Só caiu na real quando viu essa música se materializar.

 

“EU FICO MUITO FELIZ DE VER ESSA MOVIMENTAÇÃO DAS MULHERES. ANTES AS MINAS NÃO TINHAM ESPAÇO. TOCAVA, A DINA DI, A STEFANIE AQUI E ALI, MAS ERA POUCO”.

 

“Quando estava fazendo ela, falei: “Caramba, eu tô falando aqui das minhas insatisfações com a minha carreira, das dificuldades financeiras que eu já tive…. Será que as pessoas vão querer ouvir isso?’ Mas algumas pessoas que ouviram vieram me dizer que choraram ouvindo ela. Teve até um artista que chegou em mim e falou que estava pensando em desistir de fazer rap, mas que depois que ouviu ia continuar”.

Esse processo também o ajudou a entender um verso do Froid em “Eram Os Deuses Astronautas?”, do Um Barril de Rap com o Atentado Napalm. “Eu sempre achei foda a frase por si só, mas depois de anos que eu fui entender o que ele queria dizer”, lembra. “Ele fala: ‘Fazer arte é fácil, quero ver você se expor’. E realmente, fazer arte, fazer uma alegoria, criar uma melodia… É uma coisa. Agora você expor algo pessoal, como uma fraqueza, pode ser difícil no início mas quando consegue, chega a ser terapêutico”. A terapia trouxe alívio. Também ficou satisfeito em saber que outras pessoas se reconhecem nesse seu lado interno. Não que pense em fazer algo para agradar terceiros. Mas alcançou o que achava não ser possível.

“Se fosse só para fazer sem o lado rebuscado que a poesia tem, a gente só discursava e tava tudo bem, ou a gente só escrevia sem rima, sem compasso, sem melodia, eu seria um escritor”, reflete. “Só que como toda a poesia é rebuscada por si só, na medida que você começa a trabalhar o que você está dizendo, a própria poesia te puxa. É como se eu fizesse parte de um processo muito maior de reflexão, onde eu sou só um canal que rebusca aquela ideia e transforma em poesia”.

O ritmo que acompanha essa poesia é assinado exclusivamente por Noshugah. Aliás, Gigante relembra que sua esposa Stefanie (também rapper) foi quem percebeu que ele faz algumas citações do produtor estadunidense, radicado no Brasil, algumas vezes. “Ela notou algo que nem eu não tinha percebido: eu cito ele quatro vezes durante o disco. Lembrava de três”. Isso evidencia o quanto eles estavam envolvidos. Essa conexão aconteceu em 2023 depois que ambos participaram de “Garcia”, álbum do Victor Xamã. “Eu realmente achei um produtor que entrou em sintonia comigo da gente se preocupar em primeiro lugar com a qualidade do trabalho e em segundo lugar com o mercado”, ressalta. “Nós somos duas pessoas humildes, bons ouvintes e de críticas construtivas. Então, um ajudou muito o outro. Posso dizer que ele é a pessoa que eu conheço que mais entende de rap, da estrutura do que é uma música rap, das pequenas nuances, dos detalhes”. De Nova York, Noshugah veio para o Brasil com 10 anos de idade. Por entender a língua inglesa e ouvir muito o rap do seu país, o berço do hip hop, tem uma certa facilidade nos macetes.

 

Foto: : Kailani Galhardo

 

“Eu sempre costumo falar: se um sambista norte-americano for fazer samba, ele vai ter que beber de qual fonte? Do samba brasileiro”, faz uma analogia. “Você tá ouvindo o samba, mas o samba veio de lá. Você quer que a minha base seja qual? Então ele é um mano que sempre teve acesso a uma informação muito grande do rap gringo. De ouvir podcast, entrevistas, de ver documentários”.

Ambos entraram em estúdio no final de 2023 para fazer algumas músicas. Mas ao longo de 2024 decidiram fazer um disco. Gigante lembra do que ouviu do Noshugah quando começaram a trabalhar. “Ele falou pra mim: eu sempre quis encontrar um MC que tivesse o nível de dedicação e profissionalismo que você tem. De sempre chegar no horário ou quando não chega, avisa que está chegando ou que não pode ir”, observa. “Ele falou que foi a primeira vez que conseguiu extrair tudo o que podia, justamente porque tinha alguém junto fazendo isso com ele”. Os encontros aconteciam duas vezes por semana em Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo. Como mora em Santo André, Gigante levava cerca de 1h30-1h40 de transporte público para chegar. Esse também foi o motivo da construção ter sido progressiva.

Suas influências passam por Kendrick Lamar, Tech N9ne, Tupac, Notorious B.I.G, Jay-Z, Stefanie, Black Alien, Victor Xamã. Rodrigo Ogi, Marechal, Criolo. Liricamente, pela cadência, o Eminem é uma referência no tipo de rima com multisilábica. Não coloca os Racionais MC’s porque estão além da influência. Gigante no Mic é uma amálgama do engenho alheio. Como o próprio destaca, o poeta é uma cópia daquilo que absorve.

“No decorrer da vida eu fui absorvendo tudo desses caras. É uma fita que eu tenho aprendido, e eu sempre fui muito só da rima, focado em rima. Então, se eu tô rimando para caralho, a música para mim já estava perfeita. Mas nesses últimos anos ficou claro pra mim que a música não é feita só de rima, ela é feita de estrutura, feita com refrão, ponte… Você emociona, depois você faz a pessoa refletir. Essa tem sido uma grande preocupação. E esses grandes nomes que eu citei aí, todos eles têm isso. A minha esposa, por exemplo, a Stefanie, o disco dela, BUNMI, foi uma influência muito grande para mim fazer o meu. Não como influência lírica e de temática, mas de padrão. Olha o nível que a minha esposa alcançou, tá ligado? Isso é motivador demais. Não para mim tentar fazer algo igual ou maior para competir. Mas por ser de alguém próximo”.

Se fosse escolher uma música para definir Seijin, o rapper responde de imediato que seria “Virou Spam” porque retrata a maturidade. “As minhas preocupações hoje são outras”, afirma. “Eu não tô preocupado em postar minha vida pessoal e até quando eu posto é só meu pessoal que ainda fica sabendo realmente o que tá acontecendo”. Revelo que a minha preferida é “São Longuinho” pelo storytelling, algo escasso no rap nacional, e por suavizar a densidade. “O Sabotage tem uma frase famosa que está num documentário que diz assim: ‘O pessoal fala para mim falar só de sofrimento, mas se eu for falar só de sofrimento, o meu tempo não dá’”.
Aproveitando o gancho, finalizo a conversa querendo saber qual a visão dele sobre o rap atual.

“Eu fico muito feliz de ver toda essa movimentação das mulheres. Antes as minas tinham pouco espaço, tocavam a Dina Di, a Stefanie aqui e ali, mas era pouco. Então, a primeira coisa para mim observar, para ressaltar que da cena atual é essa força feminina. Essa representatividade que elas trazem é muito importante. Fora isso, é muito da hora essa fita que a galera fala: ‘Ah, o retorno do boom bap‘. Não, é o retorno para vocês, porque a gente continua aqui. É vocês que estão retornando, tá ligado? E aí a gente vê como é cíclico e geralmente tem uma cultura que ela é underground e começa a se tornar popular que esquece que é underground. Só que ela se torna tão popular que ela se satura e por se saturar muito, volta a ser conceitual”.

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