Dias antes de colocar no mundo “Beyond”, vol.1 – “Respirar”, BIOND1 estava com aquela ansiedade para saber como que sua música chegaria no ouvido das pessoas. Esse mesmo sentimento não aconteceu nos anteriores “OLHO D’AGUA” (2025) e “Homeostase” (2022), e ele diz não saber explicar a sensação. “Eu comecei esse projeto em 2022”, lembra. “Aí, mano, sei lá, meu plano na época era lançar em 2023. Só que aconteceu vários bagulhos, e aí não rolou. Às vezes penso que se tivesse saído antes a energia não seria tão da hora como tá sendo agora”. Ambas as coisas estão entrelaçadas com os processos da vida ele. E ao mesmo tempo que se diz ansioso, também está tranquilo pela realização.
O desenvolvimento do álbum aconteceu do jeito que deveria ser: sem pressa. Isso aconteceu porque o conteúdo refletia um momento complicado da vida do rapper, com crises e um quadro depressivo. Os problemas na cabeça passaram a influenciar o corpo. As músicas se tornaram válvulas de escape para se libertar. Porém, expor o que sentia não teve o resultado esperado.
“Comecei a piorar. Fui abrindo certas caixinhas, como se tivesse aberto a caixa de Pandora”, revela. “E aí tudo o que eu não queria olhar, comecei a olhar com mais profundidade. Por isso que foi tão difícil. Tem músicas ali que foram anos escrevendo, tá ligado!? Escrevia, depois montava uma coisa, apagava o segundo verso e fazia outro verso. Sempre sentia muito. Acho que por isso que demorou, porque precisava do tempo da própria vida para o projeto caminhar. Tinham situações que, às vezes, eu não queria muito lidar. Foi bem confuso”.
Depois de um tempo, recebeu as masters finais. Era meio que um caminho sem volta porque o trabalho já estava encaminhado. Também foi nesse momento que percebeu que tudo que colocou ali serviu como guia durante seu processo de cura. Era a oportunidade que precisava para colocar para fora o que estava guardado. Por isso, ele considera que foi bem visceral e intuitivo. Ao longo da construção teve que sentir o que se encaixava, mesmo que não fizesse sentido na sua cabeça.

Outro ponto que ele ressalta na conversa que tivemos por videochamada é que o disco não teve um planejamento prévio. Mesmo assim, existe uma certa conexão entre as 9 faixas que viajam entre os raps “sujos” dos 90 e variações de jazz dos anos 1960 e 1970. “Tinha coisas que eu precisava dizer, precisava muito falar, precisava muito botar pra fora”, observa. “Acho que os beats também tem bastante essa energia. São densos e eu sentia que aquilo ali se comunicava de alguma maneira”. Pode-se dizer que existem dois lados. O A, que vai até a metade, tem os boom baps falando de crises sociais, os problemas do mundo e a manipulação feita pelo sistema capitalista. Já o “lado B”, ‘dá uma amenizada’, abordando o amor e os relacionamentos. “Essa sempre foi uma parada que eu tinha muita dificuldade de falar e não entendia muito bem por que, tá ligado? Fui entendendo os motivos dessa dificuldade e isso me abriu um novo campo de possibilidade criativa. Meio que tirou um bloqueio que eu tinha”.
Esse desbloqueio serviu como um exercício para que BIOND1 virasse a chave. Tinha dificuldade de entrar em detalhes da sua vida amorosa ou dos pensamentos que tinha em relação ao tema. Existia um abismo que ele teve que atravessar para abandonar os receios. De certa forma, essa também ainda é uma das dificuldades no rap nacional. Hoje se fala um pouco mais, principalmente por causa das mulheres, mas no geral fala-se de “romances” apenas no contexto sexual.
Isso fez o MC repensar para tentar diminuir uma distância que o separava das coisas relacionadas à paixão. Fazia parte da insegurança gerada por seguir as regras não ditas do coletivo, o que o fazia ignorar o que estava sentindo e desejava falar.
“Existem a velha e a nova escola, mas dentro de cada uma delas existem várias outras. Tipo, são muitas maneiras de se fazer… e da maneira que eu aprendi a fazer era um assunto que não existia. Existe uma maneira mais, digamos assim, tipo, com pouca amplitude, pouca profundidade, e acaba sendo uma coisa que não dizia respeito à minha experiência. Eu comecei a perceber e me perguntei: o que faço? Preciso falar disso, só que eu não fui ensinado a fazer. Então, tive que criar o meu jeito de fazer”.
Esse passo foi importante para fugir daquele estereótipo de que o rapper tem que ser rude, não pode dar risada ou expressar os sentimentos. Mas, para além disso, BIOND1 também viu a necessidade de falar com pessoas que não estão totalmente inseridas nesse cenário. Para explicar seu ponto de vista, faz a analogia do sábio e do louco. “O primeiro é aquele que conhece as regras e advoga por elas. E o louco é aquele que desafia as regras e está indo em busca do novo. Este é tido como louco, mas depois de um tempo, quando as pessoas se acostumam com tudo aquilo, ele vira sábio”, reflete. A coisa vai indo assim, tipo o louco vira sábio, o sábio pode virar louco”. No resumo, ele quer dizer que as coisas realmente significativas dentro do hip-hop foram feitas a partir dos riscos.
Ele exemplifica citando os Racionais MC’s, que construiu sua obra assumindo vários riscos. De “Sobrevivendo no Inferno” para “Nada Como um Dia” existe uma grande diferença. Mudaram o caminho. Com “Cores e Valores” mais ainda. Quando aconteceu essa mudança de direcionamento ninguém entendeu quase nada”.

POR QUE ESTOU FAZENDO RAP?
“Sei lá, é uma coisa que eu fico pensando: tipo… por que boto tanta energia, tanta paixão nisso? Sei lá, eu fico pensando que, além de ser um bagulho necessário, não é só a coisa artística individual. É uma parada social mesmo”.
Ao mesmo tempo que faz indagações para si próprio, BIOND1 traz respostas. Talvez essas também sejam perguntas da maioria das pessoas envolvidas com o hip hop. Ele também acredita que provocar reflexões e gerar conversas seja seu papel social. “Isso faz parte da função de MC”, afirma. “Eu enxergo dessa maneira”. Dessa vez o emplo é Mano Brown e o álbum “Boogie Naipe”. “Ele saiu totalmente daquela estética de durão para fazer uma parada mais dançante, mais romântica”. Essa disrupção com o que era esperado dele escandalizou quem não entendeu a proposta. Queriam as letras densas, políticas, críticas, violentas. Porém, a vida não é só porrada. Tem os amores e a diversão.
Essa é a reflexão que “Respirar” pretende transmitir, usando a arte como o oxigênio que mantém a vida. Colocar em prática a respiração, usando a música, foi necessário para que o projeto ganhasse forma e fosse concluído. E não só faz parte do conceito como está presente nas produções. Porém, poucas são calmas. Tem uma respiração mais densa, porque representa a vida acontecendo, com seus altos e baixos. O MC concorda que o que fez musicalmente serviu para curar seus sentimentos, dar uma amenizada, trazer um respiro.
“Eu sou muito grato da música possibilitar isso. Sei lá, eu sinto que realmente deu uma baita marejada”, afirma. “Acho que fui entendendo aos poucos o significado da palavra. A arte é uma parada que cuida de mim, e acho que de todos nós, em certa medida. Mas no caso de fazer esse ato criativo é um autocuidado pra mim. Partilhar com as pessoas é uma bênção e eu me sinto privilegiado de poder fazer música”.

Esse contexto foi traduzido pela artista Brenda Passos, que desenvolveu a arte da capa em óleo sobre tela enquanto ouvia o disco. Da escuta surgiu uma pintura que BIOND1 diz representar o que está compartilhando no conteúdo interno. Ele também ressalta que existem alguns significados, mas que é muito mais sobre sensação, algo que tem perdido espaço para a falta de tempo, a velocidade tecnológica e a impaciência que tomou conta das pessoas. Inevitavelmente, o corpo reclama. Surgem a gastrite, depressão, os aborrecimentos.
Por esse motivo, a ideia foi desenvolver algo baseado na experiência sensitiva. Assim, o desenho que saiu desse experimento se tornou a identidade. “Esteticamente eu tô propondo esse tipo de experiência, de um retorno pro corpo. Tem uma necessidade política nisso também, frente a toda essa realidade que estamos vivendo. Precisamos lembrar disso”.
Perguntar qual é a expectativa de quem vai ouvir é um dos maiores clichês jornalísticos. É fato que a resposta sempre será favorável. Porém, nesse caso, havia a necessidade de retornar àquela ansiedade do começo. “Espero que o que eu trouxe ali possa de alguma maneira despertar algo de bom em quem ouvir. Tipo, despertar o que for”, afirma. “Eu não tenho controle sobre isso e nunca vou ter controle sobre cada reação, porque são singulares. É um tipo de movimento que se propõe em gerar algum tipo de transformação. “Tipo, tem uma frase dos Racionais que antes de fazer esse disco eu não flagrava tanto a profundidade. É aquela de A Vida é Desafio que diz que ‘o caminho da cura pode ser a doença. Tipo, a doença também é produção de saúde. A real mesmo é que a única maneira da gente sustentar um modo de vida que comporte a nossa vulnerabilidade, é agindo coletivamente. Quero que as se manifestem também de alguma maneira”.

