A chuva caia consideravelmente no distrito universitário de Barão Geraldo, em Campinas. Mesmo assim, fãs do Emicida foram até o Brasuca, conhecida casa de espetáculos da cidade no interior de São Paulo, para tirar uma foto, pegar autógrafo, adquirir produtos e garantir ingresso para o show da Emicida Racional MCMV Tour que acontece na Multi Arena neste sábado, 31. Por causa do aguaceiro, a chegada dele teve um pequeno atraso. Ninguém arredou o pé. Também o aguardávamos para uma conversa rápida. Aproveitando a oportunidade, levei meus filhos (Anthony, Cecília e Dandara) para conhecê-lo. Cecília, 8 anos, ouvinte assídua, era a que mais estava na expectativa de ver ele pessoalmente [fez até um desenho] e acompanhar o pai numa entrevista in loco.
Ao chegarmos no camarim, ele cantarolava alguma canção. Sorridente, cumprimenta a molecada. “A nova geração vem como?”, brinca. Nos últimos dois meses nos encontramos durante a turnê no Elemento em Movimento na Ceilândia, no DF, e no MADA em Natal, RN. [Também acompanhei um dos ensaios antes do início da turnê]. Cada apresentação seguiu a mesma dinâmica, mas cada uma com suas peculiaridades. Na CEI, teve a participação do Puro Suco, e na Cidade do Sol, ele tirou um momento para ficar próximo do público, fazendo corpo a corpo na grade. “Eu vou te falar qual música que eu estou mais me divertindo de fazer nesse show”, diz ele sobre aquela que não pode faltar no repertório, que vai da mixtape Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, até que Eu Cheguei Longe… (2009) ao celebrado AmarElo (2019), chegando em Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores . ‘Mesmas Cores e Mesmos Valores’ e ‘A Ordem Natural das Coisas’, porque essa versão tá muito bonita. MCMV eu gosto muito porque o espetáculo inteiro, mano, se você for ver, é construído com trechinhos de referências de várias coisas que formou nós como artista, né?”. Ele lembra do momento que entra o piano fazendo referência a “Still D.R.E”, do Dr. Dre com Snoop Dogg. “Nesse momento eu tenho oportunidade de olhar a plateia de frente vindo junto. Vejo a cara de quem é fã de rap mesmo, tá ligado? Todo mundo faz assim [fecha a cara e faz pose] ao mesmo tempo”. Já em “Ordem Natural das Coisas” as influências são outras, que muitas vezes passam despercebidas.
“No máximo elas vão até o samba do Chico da Silva, “Tempo Bom”, que é a letra que a gente tá empregando ali, mas o Chico da Silva entra nessa versão justamente porque o refrão é o que o Thaíde sampleou no maior hit dele, ‘Senhor Tempo Bom’, que é [canta] ‘que tempo bom que não volta nunca mais’. Então eu gosto muito de fazer isso porque eu também observo a cara de surpresa das pessoas quando chega no refrão e elas ficam: eita, veio daqui o bagulho. Entendem que as coisas se conectam. Eu gosto disso”.

“O QUE OS RACIONAIS ENTREGAM COMO FÓRMULA,CONTINUA SENDO PARA MIM UM MAPA INESGOTÁVEL ATÉ HOJE”.
Essa fase Racional do Emicida tem influência direta de Tim Maia, mas é intermediada pelos Racionais MC’s, batizado assim por causa da série de álbuns mais cultuados de Tim, depois de ficar anos no esquecimento. Usar a obra de Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e DJ KL Jay como ponto de partida para caminhos distintos de “AmarElo” veio da necessidade do rapper voltar ao início. “Você comunica essa cultura [hip hop], como trabalho, como profissão, certo!? E você sabe que não é fácil fazer isso”, observa. “Acredito que várias vezes você se perguntou por que faz o que faz. Eu no lugar da onde eu vejo o mundo, passo pela mesma pergunta. E nos momentos em que a gente se pergunta por que a gente faz o que faz, nada melhor do que olhar para o começo e falar: “Mano, por que eu comecei a fazer o que eu acredito, o que eu preciso e o que eu amo fazer?” Retornar foi a forma que encontrou para avaliar toda sua trajetória.
“Peguei todo o meu amor por essa cultura e coloquei com toda minha paixão dentro de um disco, com toda minha capacidade artística para conversar de novo com uma geração que talvez não seja tão familiarizada com a obra dos Racionais como eu sou”, ressalta. “Embora seja um clássico transversal, geração por geração vai se distanciando. À medida que o gênero vai crescendo, tem uma tendência, de ele, vamos dizer assim, ir se dissipando. E aí parece que o rap é um filho sem pai. O rap não é um filho sem pai. A música que nasceu do rap faz parte de uma árvore que tem muitos galhos e muitos frutos. A gente precisa reconhecer que somos fruto de um galho chamado Racionais MC’s. E de um tronco chamado Cultura Preta, tá ligado?”
Para provocar o lado leitor de Leandro pergunto qual álbum/música dos Racionais seria o seu livro de cabeceira. “Mano, quer prejudicar minha vida?”, me devolve a pergunta, seguida de gargalhadas. Ele pede um momento para pensar. “Eu tenho fases. Nesse momento, a minha… Eu sempre volto para ‘Fórmula Mágica da Paz’. Passa um filme na minha cabeça. Tem uma coisa que lembra a capacidade do Brown de contar a história, mas também dos quatro juntos. O que os Racionais entregam como fórmula, continua sendo para mim um mapa inesgotável até hoje. Cada vez que eu ouço, descubro uma coisa que eu não tinha visto antes”. Mantenho a provocação, mas ouso um pouco mais. Tanto a Ceilândia quanto Campinas são lugares considerados berços do rap gangsta nacional. Como o MC conhece ambas, lanço a questão: qual delas é a mais gangsta?
“Você é louco, senhor [risadas]. Se eu responder essa pergunta de maneira errada, começa uma guerra, tá ligado? [risadas] O país já está polarizado. Mano, você vai olhar para Ceilândia e vai ter GOG, Vieira 17, Cambio Negro… você vai olhae para cá [Campinas], tio, tem Sistema Negro e Dina Di, entendeu? Tem também o Renan Inquérito, mas ainda o Renan do Velho Testamento. Lembra do Renan do Velho Testamento, que não é do ‘Abrakbça’”?

Diferente do que é feito nos festivais, o concerto solo da Tour tem suas características [inclusive de tempo]. Para o de CPS, ele convida Jotapê, Rashid e Os Prettos. Estes últimos fazem parte de “Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores”, indicado ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa. A presença deles não segue um roteiro específico. Está aberta para diferentes possibilidades.
“A gente passou por um período de muita individualidade… Na cultura mesmo e na forma de distribuir ela. Toda vez que eu tô por aqui e os camaradas estão livres, eu dou um salve. E quando eles têm show também, eles me dão um salve para encostar, seja com o Jota, seja com o Rashid ou com Os Prettos. E calhou de todo mundo ter a possibilidade de vir para Campinas neste final de semana. A gente vai oferecer um show extremamente especial, porque são vários amigos que tocam juntos, mas não tem um repertório definido. Talvez a gente comece a entrar numas coisas do Rashid, e olha o que ele acabou de fazer em “Cumulonimbus”… o Jota com o freestyle vai ser um espetáculo. Fora que, mano, tem Os Prettos junto que é tipo assim, na hora que os cara sobem no palco sempre vira outro nível a brincadeira”.
Na programação também não poderia faltar uma batalha de rima. Para isso, a Batalha do Cálice, realizada toda sexta-feira no Largo do Pará, no Centro, vai fazer sua roda com “freestylers”. Emicida conhece muito esse terreno, e diz estar feliz com a geração atual. “Estou me sentindo, fazendo uma analogia com o que acontece quando você planta alguma coisa na horta, como se estivesse vendo uma nova geração de floresta… Acho que a minha geração contribuiu de um jeito maravilhoso, a geração anterior também conseguiu fazer uma coisa bacana que resultou na minha, e acho que foram sendo construídas gerações. A de agora me encanta muito porque eles conseguiram muitas conquistas com as quais a gente sonhou”. Uma dessas pequenas vitórias é o crescimento da presença feminina e de batalhas organizadas por mulheres [como a extinta Estação da Rima]. “A presença de pessoas LGBTQIA+ é regra em vários lugares, então, não necessariamente você precisa criar uma batalha da diversidade para ir na [Batalha da] Aldeia e ver a Devilzinha. Então, eu acho que não são poucas as conquistas dessa geração”. Presente em várias dessas rodas, o rapper diz que além dessas, outra diferença da época em que batalhava é que tudo é postado em tempo real.
“Antes eu ia, ficava mais de quebradinha, ali tranquilo E aí também estou aproveitando mais esse momento para trocar mais ideias, porque eu tive que construir muito meu caminho sozinho. Me faltou alguém mais velho falando pra mim, tipo: ‘Poxa, mano, vai por aqui, vai por ali, não faz isso não’. E aí, de alguma maneira, eu também tenho me colocado para tentar ser essa pessoa que eu não tive no meu começo”.


