Animado, BK’ entra na sala para a coletiva de imprensa no Nubank Parque, a arena do Palmeiras, em São Paulo. Está vestindo diferentes tons de preto. Atrás dele tem um telão com a identidade visual da turnê. Do seu lado esquerdo, tem um backdrop gigante, que ele diz que vai levar para casa. Assim que senta, as perguntas começam. De início, respondendo Giovanna Venancio, do Arquivo Nacional do Rap, sobre como é trabalhar novamente com as pessoas que acreditaram nos seus sonhos de 10 anos atrás, e como o audiovisual teve importância nessa jornada, ele diz que a experiência produzindo vídeos o ajudou na forma de fazer rap, de escrever e de se expressar.
“É um lugar que eu sempre tenho que ter um cuidado a mais justamente por eu já ter passado”, afirma. “Sempre vai ser uma parte importante da minha vida, e eu digo até da minha carreira porque se eu não tivesse usado a câmera, acredito que meu trabalho seria outro… de ter essa sensibilidade artística. Acredito que contribuiu muitos por centos pra minha escrita e pra forma que eu trabalho a minha arte”.
Trazer as pessoas que estiveram lá no início o apoiando é uma forma de começar tudo de novo. E ser o primeiro rapper brasileiro a fazer um show solo no estádio onde já passaram Travis Scott e Kendrick Lamar é a realização de um sonho. “Vamos acreditar no nosso potencial e no potencial da nossa galera”, diz. “Eu chego em casa e tenho as ideias mais malucas possíveis, mas pra realizar já são outros 500. Eu tento ao máximo manter esse espírito de 10 anos pra cá, e até antes do “Castelo & Ruínas”. Eu tento manter esse espírito de sempre estar sonhando e não deixar a parada virar apenas trabalho, apenas negócio”. Por isso, acredita que fazer arte é o mais importante.
Atencioso às perguntas, e cuidadoso nas respostas, BK’ sorri facilmente. NiLL [o rapper] suaviza ainda mais o momento. Ambos lembram a vivência que tiveram no Rio de Janeiro. Sua questão está relacionada à sensação que Abebe teve quando terminou o álbum. A revelação é que este é o único que ele tem 100% de certeza de ter finalizado sem ressalvas.
“Tipo ‘Gigantes’, meu segundo álbum, se eu não tivesse que lançar eu ia estar fazendo até agora”, observa. Já ‘Castelos & Ruínas’ eu falei: aqui eu não tenho mais o que mexer. Foi uma das melhores sensações que tive fazendo um disco. Senti que estava pronto, finalizado, construído. Eu não senti isso em nenhum outro trabalho. Qualquer coisa que eu fosse mexer, ia estragar. Por isso que eu nunca fiz um parte dois. A galera fala: pô, faz o volume dois. Não vou fazer porque não vou gostar. Ali tá pronto”.
Apesar de não querer modificar nada, para o espetáculo preparou algumas surpresas. Além dos arranjos feitos para a banda, com direção musical do Daniel Ganjamen, o público ouvirá versões remixadas por diferentes produtores. Uma delas, “Caminhos”, terá o saxofone de Kamasi Washington. Ele também diz que só fará esse show com banda porque já fez trabalhos anteriores nesse formato. “Ela não pode estar aí só para enfeitar. Tem que estar realmente para somar com as músicas”, reflete. “Pô, cara, tem cada arranjo ali que vão levar as músicas para um outro lugar”. Pegando o gancho, relembro uma conversa que tivemos em 2019 no João Rock. Na ocasião ele disse que “Castelos & Ruínas” era sua tatuagem. Pergunto se ele lembra da dor dela e qual foi a maior dificuldade de fazê-la.
“Acredito que seja a mesma dor de todo artista independente, mano, que é você querer realmente fazer uma parada e não ter os caminhos e os meios para fazer aquilo”, fala. “É muito duro, porque a gente não tinha onde gravar, a gente não tinha as coisas. Hoje em dia, a molecada tem mais acesso, consegue fazer mais rápido, consegue produzir dentro de casa. Na época era tudo muito estranho pra gente. Tivemos muita ideia, queria fazer muita coisa, mas é isso, a vida adulta nas costas… é o que todo artista independente passa. Especialmente a gente que é preto e de favela. Aí você tem que trabalhar para caralho, tem que estudar e no tempo vago fazer tua música, entendeu? Mas acredito que tatuagem hoje está bonita. Eu acredito que apesar de todo o corre, tudo ali valeu a pena pra mim, para o meu time, para os meus amigos”.

Ainda sem acreditar na magnitude do palco que vai ocupar, ele observa que essa pode ser também a possibilidade do rap (no geral) ser olhado por outros olhos pela indústria e por marcas. “A gente só vai entender o que significa tanto pra minha carreira quanto pra cena daqui a um tempo”, observa. “Eu quero fazer uma parada maneira. A minha vaidade não é ser o primeiro a fazer isso. A vaidade é realmente de fazer uma parada que seja marcante. Isso é o que realmente me movimenta. A gente sabe que é a exceção, da exceção, da exceção, da exceção, da exceção. Então, ver de que forma isso pode reverberar pra cena no geral, de que forma os patrocinadores vão olhar pra cena do rap, não só o BK, não só os nomes que tão em alta, porque tem muita gente fazendo muita coisa foda em muitos lugares. Mas ainda é uma barreira muito grande pra muitos artistas do rap conseguirem fazer algo grande. Tomara que de alguma forma a cena seja olhada no geral e não só o top 10 do Spotify”. Esse pensamento de coletividade, que faz parte da construção do hip hop, também reflete nas músicas. Tudo que canta ali, fez parte da sua realidade.
“Fazer show é esperar pessoas cantando as nossas dores”, ressalta. “Então, eu acredito que eu tô continuando a cultura que a gente vive (infelizmente), e, de certa forma, felizmente, porque se é ruim sofrer pra caramba, é ruim passar pelo que a gente passa sem ter nenhum aprendizado. Tô informando a galera, tô inspirando outra galera, de certa forma, para não passar por aquilo ou quando estiver atravessando ter um apoio e se sentir abraçado. Não tem uma música que eu não consiga cantar. Sempre foi muito minha realidade”.
Para o futuro, BK’ quer continuar sendo criativo. Não pretende deixar essa vontade sumir. Ainda deseja voos ainda mais altos, talvez até para além das fronteiras brasileiras.
“Se eu tô aqui, se você tá aqui é por causa dessa cultura que a gente faz parte. Então, quero continuar somando. Realmente poder mostrar a potência do nosso rap quem sabe pro mundo inteiro. Por que não tentar mostrar isso que a gente faz aqui pro mundo, já que estamos se conectando e estão olhando para o que estamos fazendo no Brasil. Esse é um dos meus sonhos”.

