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Impossível não reverenciar Milo J

Um gentleman [el caballero] que merece ainda mais respeito da nossa parte.
Foto: Alexandre Mazzei

É possível que o estigma de que brasileiro não escuta música dos países vizinhos esteja sendo quebrado aos poucos. Não que os ouvidos estejam totalmente abertos, mas o que vi no show do Milo J na audio, terça, 15, deu uma ponta de esperança. Pode ser também que isso esteja acontecendo após sua participação no Tiny Desk. O mesmo aconteceu com CA7RIEL & Paco Amoroso. E também vivenciamos a catarse Bad Bunny. Inevitavelmente, somos pautados pelas tendências que ganham “importância” a partir dos Estados Unidos. Ainda exploramos pouco o nosso quintal. Mesmo não falando a língua majoritária da América Latina , o espanhol, fazemos parte dela. E pode ser que também estejamos caindo na real para essa verdade que não queremos acreditar.

Assim que entrei pela porta que dava acesso à pista fui impactado por um mar de gente que tomava cada espaço da casa. O lugar, talvez não tenha sido a melhor escolha para comportar um segundo concerto do jovem de 19 anos que se tornou um dos nomes mais importantes da música argentina. Considerando que na estreia no “MUCHO! Ciudad Sonora” já tinha sido bem requisitada, esta seguiria a mesma toada: sold out. Em diversos pontos da galeria e nas laterais da parte inferior, a experiência não era das melhores, tanto visual quanto sonora. Porém, esses detalhes não impediram a apreciação de quem se espremia para curtir a noite.

 

Foto: Alexandre Mazzei

 

Mesmo sem poder dançar conforme as músicas, a platéia acompanhou o rapper na maioria delas. Foi aí que tive a impressão de que pode estar acontecendo algo nessa relação de amor e ódio com a nossa latinidade. Por isso também, ele expressou que o Brasil tem dado uma de suas maiores experiências. Há uma identificação de ambas as partes.

Comedido, e se movimentando pouco, Milo J deixa que a música seja o centro. Apenas ela comunica. Os dois percussionistas, Martín Beckerman e Gastón, possuem lugar de destaque. A bateria está acoplada aos tambores. Não há distinção. Isso faz com que as batidas orgânicas façam o complemento das digitais de forma concisa. A originalidade é o que distingue o artista de seus pares. O rap e o trap servem de fios condutores. Mas ele coloca suas origens regionais como guia. A Argentina andina sobressai, seja nas cordas ou nas linhas percussivas. Os violões de Lautaro Fernández e Kiro dão ainda mais corpo. Em algumas canções deixam carregadas. Uma possibilidade de refletir, chorar, sorrir, se deixar levar. Tami Meschller tem seu momento solo no violino. Jazmin Kendikian, no teclado, completa a escalação que mantém a base quente por mais de uma hora e meia.

Poucos são aqueles que conseguem sustentar todo esse tempo do jeito que Milo J faz. Tem uma dinâmica muito bem pensada. Foge totalmente da mornidão. E até quando é frio, consegue prender sua atenção. Pelo seu jeito simples, tranquilo, de voz marcante, mesmo amplificada por efeitos, o “apelidaram” de “o João Gomes deles”. Não que sejam comparáveis. Cada um possui autenticidade própria. E é isso que os fazem sobressair a maioria. Existe um orgulho das raízes. No caso do argentino, as origens dos povos indígenas. Também conclama e saúda Silvio Rodrigues, o roqueiro Fito Páez [o qual cita “Giros”] e Mercedes Sosa, com quem faz um duo virtual em “Jangadero”. Este é um dos momentos mais bonitos da apresentação que por si é simbólica. Bandeiras de Brasil e Argentina se encontram. Sem bis, e emocionado, Milo J se despede e agradece cumprimentando a todos presentes. É aclamado. Um gentleman [el caballero] que merece ainda mais reverência e respeito da nossa parte. Impecável.

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