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Elemento em Movimento – dia 2: Hip Hop não é bagunça

Na Ceilândia, o rap é compromisso.
Foto: @gabiiils

A previsão de 60% de chuva para o domingo, 6, se concretizou. Era pouco mais de 13h quando o tempo fechou de vez . Ela chegou trazendo uma leve brisa. Esperava-se que chovesse o bastante antes de começar o que estava programado para o dia 2 do Elemento em Movimento. Enquanto a água caia rapidamente, a equipe do Emicida fazia a passagem do som. Logo, as nuvens se dissiparam. Com o tempo limpo e a temperatura amena, a atenção voltou-se ao que viria nas horas seguintes. É interessante observar o quanto o rap é respeitado na Ceilândia. Por diversas vezes, ouvi algumas trocas de ideias, e até entrei em algumas, relacionadas ao hip hop. Capturei a frase “o hip hop não é bagunça” numa dessas conversas que surgiam em diferentes momentos. O retorno da polêmica envolvendo Hungria e G.O.G servia de fio condutor em muitas delas. Todos reconheciam a qualidade de Hungria, porém G.O.G merecia mais respeito por ser um dos que ajudaram a sedimentar o rap nacional. E não que nunca possa ser contestado por algo, mas se faz necessário valorizar a importância daqueles que construíram as bases. Essa necessidade seria ressaltada ao longo do dia.

Apesar de passar rápido, a água que caiu deu uma atrapalhada na programação. Com uns 40 minutos de atraso, o Reggae na Praça abriu os trabalhos levando a música jamaicana tocada na Praça do Reggae em São Sebastião, também no DF. Assim como o hip hop, o reggae é resistência. Afinal, os toasting serviram de influência para os MC’s e os seletores eram o que hoje são os DJ’s. Existe uma conexão. E o EM é um lugar onde as diferenças se reúnem. Até os looks possuem originalidade local. Tem jeitos de se vestir, dos penteados que fazem, dos acessórios usados e até nas tatuagens. O lugar inspira.

Diferente da maioria dos festivais, existem pouquíssimas ativações de marca. Isso faz com que a música e as conexões sejam os elementos principais. Não tira a atenção, mesmo que em alguns momentos o som de um palco atravesse o outro quando o silêncio surge.

 

Reggae na Praça | Foto: @gabiiils

 

Na virada de tarde para a noite, Max B.O e Bruna Paz, MC’s do festival, chamam ao Palco Elemento, o trio Puro Suco, formado por Murica, Peres (Prs) e BEATDOMK. Eles já chegam chegando com os dois pés na porta. O contágio é imediato. O entrosamento de Murica e Prs é impressionante. Tem vigor. Isso faz toda a diferença. No meio do público é possível vivenciar esse fervor transmitido. Uma garota ao meu lado, fuma. Animada, canta todas, inclusive as mais recentes. Está feliz, empolgada. Mas não apenas ela. A produção que levaram para o show pega os ouvidos. Três naipes de sopro e duas back-vocals enriquecem ainda mais os arranjos escritos por Tanise Silva. Quando as bases param e os vocais cantam o verso “mas que nada”, em “Bom Dia Vietnã”, como se tivesse sido sampleado de uma gravação de Sérgio Mendes, imediatamente eu e minha amiga Andressa Dutra nos entreolhamos confirmando o quanto aquilo foi incrível. Jogando em casa, eles concordam com a minha afirmação de que o rap bate diferente na Ceilândia.

“Vou trazer uma visão, porque eu sou lá de Luziânia, para as bandas do Goiás. E verdade, aqui sempre teve essa representatividade muito forte, porque eu de pivete já pensava: caralho, como é que pode uma cidade ser o rap”, diz Peres, que é complementado por Murica: “Para nós é uma escola. Para fazer nosso primeiro álbum, “Rataria Popular Brasileira”, a gente morou junto na lá na 3. É incrível voltar aqui e ter esse carinho da rapaziada, dos nossos amigos, nossas irmãs, quem cresceu com a gente na batalha de rima, e quem mora na Ceilândia e tá conhecendo nosso som agora”.

Já para o final da apresentação, eles tocam “Malabares”. Inesperadamente, no meio da pista, uma roda é formada e alguns artistas circenses fazem apresentações. Nesse momento fez sentido um homem estar lá com produtos inflamáveis. O flagrei desde quando chegou. Assim que a música começou, ele fez seu espetáculo soltando fogo pela boca. O som é do disco de estreia, mas também tocaram as de “Cacau” e algumas inéditas que estarão no próximo, que segundo eles está bem trabalhoso em todos os quesitos. “Na nossa opinião, é o maior que a gente já fez. Estamos trabalhando muito, mas vai valer a pena”, afirma Murica. “Vai ser sobre os erros que nos trouxeram até aqui, saca? Tipo assim, que no final das contas não é erro, né? A gente chegou até aqui porque a gente errou muito. Porque também nos deu a nossa melhor versão agora. Os erros que nos guiaram até aqui, nos ensinaram muitas coisas”. Da mesma geração do Puro Suco, o Coktel Molotov com feat do Subconsciente deixou muita gente de fora do Palco Baile. O rap deles é mais pesado com o grave estourando. Um tipo que definiu a identidade no DF, e ganhou o Brasil.

 

Puro Suco | Foto: @gabiiils

 

Fora do eixo sudestino, esses grupos da chamada nova escola do rap são relevantes no território em que estão. Mas é fundamental que as possibilidades sejam abertas para que estendam o raio de extensão. Muitas pessoas têm que conhecê-los. Kirá e a Candangaria, e Pratanes também precisam ser acompanhados de perto. Com um timbre doce e suave, Pratanes funde reggae com soul e jazz. Ouvidos devem se abrir para o que ela está fazendo. Estar presente no Elemento e Movimento foi essencial para acessar artistas que dificilmente chegariam com a indicação dos algoritmos. Pode ser que algum momento chegasse, mas nem tudo que não está no centro de atenção da indústria chega. Quando acontece, tratam como revelação quem já tem uma certa caminhada. Vícios mercadológicos que dificilmente serão extintos. Porém, festivais como este são essenciais para hackear o sistema de um jeito ou de outro.

Na metade da noite, o chuvisqueiro volta. Japão, do Viela 17, está na beirada do palco com sua sombrinha transparente. Está precavido para não se molhar durante o show dos seus parceiros do Câmbio Negro. Com o fôlego de um adolescente, o rapper X desfere suas rimas como golpes de um boxeador peso pesado. Usando suas próprias palavras em “Quem É você?”: “vocal brutal e pesado, difícil de igualar”. Soma-se a esse poderio vocal, as batidas pesadas do gangsta rap comandadas pelo Dj Beetles, que tem força multiplicada com a bateria de Denizar Marques, e a intensidade do rock, dominado pelo baixo marcante de Moisés Pacífico, dando ainda mais corpo para os graves. Os riffs de guitarra de Ralph Sardela coloca aquela sujeira que tem influência roqueira dos anos 80 e 90, quando Brasília recebeu o rótulo de capital do rock.

“Eu já curtia show de rock. Então, assim, pra mim foi uma coisa normal”, diz ele. “Pra nós é uma coisa normal. Tinha bandas de rock aqui da Ceilândia também, como Os Maltrapilhos. A gente é amigo dessa galera toda. Já o rap que se faz no DF é diferente do rap que se faz em qualquer lugar do país. Você vê pelas produções musicais, você vê pelos bumbos, pelo som mais pesado, mais arrastado. Não que a gente seja melhor que ninguém. A gente é diferente, né? É uma característica daqui. E tem banda de rap, tem grupo de rap tradicional, tem grupo de rap feminino, mas o som que se faz aqui, quando se ouve fora os cara fala: “Isso aí é do DF. Aqui na Ceilândia a gente começou dançando break em 83, comprando papelão de geladeira pra jogar no chão dessa mesma praça e dançar. E depois do break veio o rap e junto o grafite. Então é uma coisa que já está enraizada na cultura daqui há 40 anos”.

 

X [Câmbio Negro] | Foto: @ellyrochaa

A forma que X domina seu espaço deixa quem o vê hipnotizado. Ninguém arreda o pé. Ele conhece a sua área. Tem o respeito de todos. Mas não quer os holofotes apenas para si. Convida os amigos Zé Brown e Thaíde. “A gente já tinha tocado aqui em 2018. Aí os caras falaram: “Ó, o Japão fez um tempo atrás, Japão convida. Se você quiser fazer um Cambio Negro convida, pode”. Eu falei: “Eu quero”. Essa foi a oportunidade para galera da antiga matar saudade e a nova conhecer os professores”. E de fato foi isso o que aconteceu. Com seu chapéu de cangaceiro, pandeiro na mão e camiseta com a imagem de Luiz Gonzaga, Zé faz seu rap com elementos do baião e do forró. Dá uma suavizada no peso sonoro, mas se mantém contundente. Thaíde vai para um caminho parecido, acompanhado de Ana Preta. Na sua participação não poderia faltar o clássico “Senhor Tempo Bom” e “Pra Cima”. Na visão dele, o DF tem um papel fundamental no rap nacional. “De uma certa forma, eles conseguiram mapear o hip hop brasileiro e apresentou um estilo muito importante”, afirma. “O estilo gangsta aqui do DF é muito respeitado, e o hip hop também. Não só o hip hop em si, mas os seus artistas do hip hop, do rap, do grafite, os b-boys, b-girls, aqui, sem dúvida nenhuma, se vive o hip hop”. Realmente, ali a cultura é levada a sério. Não que em outros lugares, como São Paulo [considerado o berço], não seja. Mas na Ceilândia senti que existe um compromisso.

Quem também entende muito isso é Emicida. No final da noite, entrando já na madrugada de 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, ele finalizou o Elemento em Movimento da forma que deveria: com elegância, paixão, alegria e triunfo. Ao lado de DJ Nyack e do power trio formado por Érica Silva, dominando o baixo, guitarra e a voz com maestria, Pé beats, na bateria, e Óscar Jr, nos teclados, Leandro Roque fez mais do que o esperado. Tive a oportunidade de acompanhar um dos ensaios da turnê “Mesmas Cores, Mesmos Valores” (MCMV). No estúdio foi possível ter uma visão do que aconteceria nos shows. Porém [usando o velho clichê], superou as expectativas. Em IV atos, Emicida faz sua narrativa. Existe uma dinâmica, propósito e intenção na escolha das músicas de cada ato. Traz as de “Emicida Racional: MCMV,vol. 2”, mas também as de “AmarElo”, e outras lá de trás. Os interlúdios em que une “Boa Esperança” com “Olhos Coloridos”, e “Ela Partiu” com “Homem na Estrada” e “Levanta e Anda” mostram a genialidade de como tudo foi muito pensado para inserir o público naquela atmosfera. Tem a dor de “Ismália”, que dedica “às 168 meninas assassinadas em uma escola do Irã pelos amigos de Epstein”. Mas também a celebração de “Triunfo”, a qual convida o Puro Suco para chegar junto. Rap até umas horas, diria os mais antigos.

Até chuva deu uma trégua para ver Ceilândia cantar todas a plenos pulmões. Os olhos brilham. Sorrisos se alargam. E as lágrimas que escorrem pelo rosto não são de tristeza. Quase 1h30 da madrugada, o espetáculo acaba [dificilmente em São Paulo qualquer festival em espaço aberto acabaria depois das 23h]. Se por sorte ou destino, encontrei Emicida assim que saiu dos camarins, próximo às 2h da manhã. Passou, me viu, voltou, me cumprimentou e seguiu. Missão cumprida.

 

Foto: @gabiiils
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