“Vim num território sagrado do rap”. Assim definiu Don L o que o Distrito Federal, e especificamente Ceilândia, representam para o rap nacional. “Tipo, não tô num lugar que a galera não sabe do bagulho”. Observei isso de perto ao longo de 4 dias que passei na CEI. O hip hop está tão presente quanto o sol no cerrado. É sábado, 05, dia 1 do Elemento em Movimento (EM). O tempo está abafado, seco e com uma certa possibilidade de chuva. Algo não esperado nessa época do ano na região. Quando entro na Praça do Trabalhador me surpreendo com a estrutura. O palco principal, Elemento, não deve nada a qualquer um dos maiores festivais do país. É gigantesco. Algo não convencional nos de rap. Dentro de uma grande tenda redonda, o Palco Baile segue a mesma dinâmica com telas de leds arredondadas, uma em cima e outra embaixo. Ali, entre as duas, DJs comandam a festa contribuindo para que a poeira levante com o movimento dos pés que dançam. Mas nem só de dança é feito o baile.
Tradicional encontro de poetas e slammers, o Sarau da Quarta mostra que conhecimento é necessário e faz parte da resistência. Organizado pelo coletivo Aurora do Oprimido, o sarau é organizado toda quarta-feira no Cio das artes, reunindo mais de 20 poetas a cada edição. A nomeação, além do dia que é realizado, faz referência a Quarta Internacional, uma organização comunista fundada em 1938 por Leon Trotsky com o objetivo de liderar a classe trabalhadora a partir do socialismo sem a influência de Joseph Stalin. No EM, foram responsáveis por abrir as atividades com diferentes visões poéticas relacionadas às experiências cotidianas de pessoas pretas, periféricas, trans. Dora Revolusie, a mestre de cerimônias, é enfática e efusiva quando impõe sua voz ao microfone. Existe diversidade nas ideias. Dessas, frases da declamação da CRI$TYLE fazem refletir. “O Brasil nunca foi pátria / somos filhos de mãe solo”, disse com veemência, encerrando com “Eu já estive no navio negreiro / hoje sou minha própria embarcação”. Marginais aos olhos de quem quer (n)os ver atrás, parafraseando outro verso dito, o Sarau da Quarta expressa a necessidade de se organizar coletivamente para desenvolver pensamento crítico e partilhar conhecimento.

Valorizar e amplificar essa capacidade humana faz parte do alicerce do festival. Através do Jovem de Expressão, que o organiza, muitas pessoas têm a oportunidade de participar de oficinas de profissionalização relacionados à produção cultural, fotografia, comunicação, audiovisual. Para além de apenas ter um certificado, os participantes fazem uma espécie de estágio durante o Elemento para colocarem em prática o que aprenderam. É um tipo de modelo que poderia ser usado como referência em ações nas periferias do país. Essa profissionalização se reflete no cuidado e na organização do rolê criado por e para quem vive naquele território.
Para testar o raciocínio lógico daqueles que se garantem na rima, a Batalha do Neurônio tem o conhecimento como ponto focal. “Luta, ternura e baile”, tema central do EM, se faz presente. E a dificuldade só aumenta cada vez que as etapas se afunilam. MVP da Batalha da Aldeia 10 anos, Jotapê foi responsável pela presença de vários adolescentes, que, em tese, não fazem parte do público alvo. Vestindo a camiseta do álbum “Cacau” do Puro Suco, o MC levanta geral na tenda. Barreto o acompanha, e recebe elogios do amigo. “Ele é bom em tudo que faz, seja rimando, cantando, produzindo, dançando”. Apesar da idade, o rapper é quase um veterano das batalhas, lugar que reafirmou pertencer: “sempre serei um MC de batalha”, disse. A expertise que desenvolveu para chamar a atenção dos jurados, foi levada para o seu rap, que tecnicamente tem suas diferenças com o freestyle. Desse jeito, consegue engajar sua base de fãs que ficou por algumas horas de plantão na entrada do backstage aguardando a possibilidade de tirar uma foto.
Enquanto a molecada espera, vou dar uma volta. Há uma quadra de basquete 3X3, onde as disputas são quentes, pista de skate, slackline, lojas, corte de cabelo e uma área coberta para dar uma descansada quando bater o cansaço. No Palco Underground, o bate cabeça acontece ao som do hardcore punk e grindcore da banda Galinha Preta. Essa foi uma grata surpresa, tanto por sua qualidade do som quanto pela loucura e os discursos do vocalista Frango Kaos. Digamos que quando cantaram “vá se foder”, e ele pediu pra gritar alto e lembrar daquela pessoa que se odeia, serviu como uma sessão extra de terapia. Isso sem contar com as risadas geradas com as letras e o título das músicas. “Roubaram Meu Rim” poderia até servir de inspiração para um roteiro de filme de ficção científica.

Essa diversidade e a possibilidade de conhecer expressões musicais do local é o que mais interessa. Artistas consagrados nacionalmente estão no lineup, mas têm o mesmo grau de importância daqueles e daquelas que são da área. Esse é o caso de Rachmemo e Matuto. Ambos possuem estéticas distintas. Rachmemo é mais entertainmet. Já Matuto tem letras contundentes. A junção desses elementos, deixa a proposta instigante. Ambos não param. A energia que transmitem é recebida na pista, e devolvida. Essa troca acontece também com Isa Marques. No seu repertório tem raps do álbum “Sem Volta Vol. 2”. Além da voz, ela se garante na guitarra. É uma rapper do DF que o Brasil precisa conhecer urgentemente. Tem potencial de sobra para alçar voos ainda mais altos. No contraponto, os veteranos dos Pacificadores fazem o rap característico do Distrito Federal com graves na frente, interpretações densas, contundentes, e letras que narram a vida cotidiana da periferia. Os três citados habitam o mesmo ecossistema, porém nada ali é homogêneo. Cada um possui características que contribuem para a variedade. Algo essencial para que a cena se fortaleça.
A premissa é levada à sério pelo DJ KL Jay. O set dele foge dos padrões do que a maioria está acostumada. Por ser dos Racionais MCs, existe a expectativa que o rap seja o guia. Pode até ser, porém ele sempre quer apresentar outras sonoridades. “Os jovens gostam de trap e de funk”, observa. “O rap mesmo, gostam dos Racionais, do Sabotage, alguma coisa ali do Black Alien. Mas os rap mais underground não gostam muito. E eu sou um pouco teimoso porque eu gosto de mostrar: ó, tem isso aqui, tem isso aqui também, mas vai chegar o momento de vocês. Então, a minha discotecagem é como se fosse uma viagem de avião. Ele tá ali na pista, faz o táxi aéreo, decola, aí sobe, vai saindo da cidade… aí quando ele tá no voo de cruzeiro, começa a viagem mesmo”. Quando “Capítulo 4, Versículo 3” ressoa, todo mundo vai junto. Mas não acontece sempre. Mas o papel do DJ é ser o curador, apresentar novidades e, obviamente, fazer todos curtirem. Ele faz isso com técnica e precisão. Vai de Sabotage e Racionais, passando por Beyoncè, Bad Bunny, Flora Matos e Rihanna [que ressalta amar].
“Eu poderia muito bem já começar com o trap, com funk, ia ser um sucesso, mas eu gosto dessa sensação da temperatura ir subindo. E aí depois você desce, cada lugar é um lugar, tipo assim, eu não gosto de tocar lá no alto que nem hoje. Eu fico distante das pessoas, gosto de estar mais próximo, não no chão, mas eu gosto de um palco um pouquinho mais alto para eu sentir mais a atmosfera, para eu olhar mais para as pessoas”.
A insistência de KL Jay serve de exemplo. Lutar e resistir foi necessário para que o hip hop surgisse. Também para que se mantenha. No Baile, Bixarte entrega toda sua energia. Resiste. Para ela, é necessário que o hip hop retorne à base. “É um bando de homem com cordão no pescoço agredindo mulher sendo transfóbico, falando que tem droga e carro na garagem”, observa. “E esse não é o rap que eu conheço, não é o rap que eu escutava quando eu tinha 12 anos. Eu faço rap para a favela, é para a periferia, para as travestis que ainda estão à margem na prostituição, para que elas entendam que a gente pode ter outro lugar”. Esse questionamento se conecta com os discursos da Ebony, uma das que estão servindo de referência para meninas iguais a ela. Dificilmente teve alguém (entre os jornalistas) que não concordou que ela fez o melhor show do dia 1 de Elemento em Movimento.

Sem DJ e com duas bailarinas, ela se agiganta. Está confortável. Cativa as mulheres. Impressiona os homens. Fez sua sessão gratuita de terapia. Na maioria das vezes é acompanhada por um coral de vozes que canta todos os versos com paixão. Um desses momentos, acapella, foi em “KIA”. Há períodos efusivos. Quando puxa “eu me sinto…”, é respondida com “extraordinária”. “Espero Que Entendam” serviu como gasolina na fogueira. Ebony foi o ápice da noite. Exemplificou na prática porque elas estão revolucionando o rap e o trap brasileiro. N.I.N.A colabora com essa posição feminina assumindo a camisa 10. Enaltece e defende a presença delas nos estádios, nas torcidas organizadas e no campo, lembrando que em 2027 tem a Copa do Mundo de futebol feminino no Brasil. A esperança é que seja dada a mesma importância que deram aos homens. Simpática, a Bruta, a Braba e Forte é consistente. Não deixa que a mornidão chegue. Seus versos em “Poesia Acústica 13” são cantados com emoção pela maioria. “Faz Assim” e “Karma” levam todas à loucura. Difícil ignorar esse levante necessário. Algo que KL Jay concorda.
“As meninas têm a caneta melhor. Elas se preocupam, têm outros valores. Ajuliacosta, a Duquesa, as gêmeas (Tasha e Tracie) e a Ebony, pode escrever…. tem uma preocupação porque a mulher tem um olhar muito mais amplo do que o homem, né? Então isso vai refletir na forma delas fazerem música. Os homens têm que prestar atenção, senão eles vão ficar para trás”.
Aguardado pela maioria, Don L não levou apenas o repertório de “Caro Vapor, Vol. 2: qual a forma de pagamento?”. Ele queria fazer uma passagem por todos os seus discos para contemplar quem nunca tinha visto seu show ainda. “Pra transmitir essa parada, porque muita gente pede mesmo as músicas antigas e tal”, diz. “Às vezes aquela música mudou a vida de uma pessoa. Aí, ela vem aqui e é o primeiro show, tá ligado? Então, eu tenho que fazer alguma palhinha, pelo menos que seja um verso, um refrão, né?” Não muito empolgante quanto esperava-se, o concerto de pouco mais de uma hora, invadiu a madrugada como uma montanha russa [com êxtase e arrefecimento]. “Para Kendrick e Kanye” chamou o público, igualmente “pimpei seu Estilo” e “saudade do Mar”. Na companhia de Terra Preta, Ali NIss e o DJ Roger, ele faz coreografias, se movimenta, mas ainda falta algo. O fervor do que se ouve nos álbuns não reflete no ao vivo. Mas Don fez o que tinha que fazer. De acordo com o próprio, estava num dos lugares mais importantes do rap brasileiro, de acordo com o próprio.
“Quando a gente começou a fazer rap lá em Fortal, a gente ouvia mais rap do DF do que de São Paulo, na real. Tem uma proximidade com o Nordeste e a maioria das pessoas daqui são descendentes de nordestinos, né? Então, as gírias e as vivências são mais parecidas. Eu cresci ouvindo os caras daqui: Japão (Viela 17), o Álibi, G.O.G, DJ Jamaica, Cirurgia Moral, esses caras aí. Depois veio o Tribo da Periferia, Pacificadores… é muita coisa. Nosso sonho era vim aqui na Smurphies (Disco Club). Nesses rolês têm uma identidade, tem um uma uma tradição, na real, que tem que ser honrada. Então, venho aqui com muito respeito num território do rap. Talvez seja como um americano que cola em Compton. Tem que ser um respeito”.


