Tranquilo, Rashid se diz empolgado com o lançamento de mais um álbum. Porém, dessa vez está ligando menos para certas coisas que costumavam tirar seu sono em períodos como este. “Acho que a maturidade vai fazendo isso com a gente, deixando a gente mais à vontade”, observa. “Agora eu tenho que seguir o que foi planejado, tenho que seguir os meus valores, tenho que seguir os meus princípios. Essa tá sendo a grande coisa pra mim”. Conversamos por Meet uma semana antes de “CUMULONIMBUS” chegar nas prateleiras dos streamings. O título faz referência a um tipo de nuvem que está diretamente associada a grandes tempestades, vento forte, rajada, raio, tornado. “É de descarrego emocional, descarrego de ideia”, ressalta. “Tem a ver com uma busca, daquela coisa do rap chegar e fechar o tempo, tá ligado? E eu falo isso e já reforço, não da forma negativa, mas de fechar o tempo com ideia, no sentido de: demorou, mano, os caras do rap são embaçado. Os caras chegaram nas ideias, agora nós temos que ficar quietos e ouvir”.
A intenção dele é provocar uma reminiscência da época em que o “tempo fechava” quando o rap dava as caras. Todo mundo baixava a orelha para ouvir. Isso porque, na visão dele, querendo ou não, a conquista de alguns acessos acabou o distanciando da cultura. De certa forma, perdeu-se os bons modos de se portar e respeitar o Hip Hop. Assim, tudo ficou muito raso, gerando discussões desnecessárias sobre assuntos que não deveriam ser tão importantes em relação a outros.
“Esse distanciamento vem de várias partes. Da parte dos artistas, com certeza absoluta, e da parte do público também”, afirma. “Porque quando você passa a ser servido demais, você se acostuma a parar de ir até a cozinha buscar. Acho que de certa forma é o que tem acontecido com a nossa cultura. E aí todo mundo tem sua parcela de culpa. Porque é muito fácil o artista culpar o público, e também é muito fácil o público culpar o artista. Mas todo mundo tem parte nisso: público, artista, selos, gravadoras, imprensa. Todos nós fomos para o que dá resultado, porque a gente precisava de resultado…também precisamos de dinheiro, de números, de visibilidade. É digno que a gente vá para o que dê resultado. O complexo é a gente permitir que os nossos passos se afastem justamente daquilo que nos fez chegar aqui. Sinto que chegamos nesse momento”.
“QUANDO VOCÊ PASSA A SER SERVIDO DEMAIS, VOCÊ ACOSTUMA A PARAR DE IR ATÉ A COZINHA BUSCAR”.

É aquela coisa: o rap se tornou tão grande que saiu de perto daquilo que o fez sair da sua redoma. Perdeu o senso de contracultura. Por isso, Rashid quer abrir novamente a discussão para mostrar de onde o rap veio e o porque foi criado. “Nós não fazemos parte do pop, nós fazemos parte da cultura hip-hop. Tem uma postura, tem um comportamento, tem uma busca, tem os seus próprios códigos”, diz. “Acho que são essas coisas que a gente, enquanto sociedade cultural, talvez enquanto indivíduo, você, eu, quem está lendo, se permitiu se afastar e se aproximar muito das coisas mais superficiais”. Enquanto conversávamos, havia uma discussão em alta no X [Twitter] de quem tinha a melhor discografia e em qual posição estava no ranking. Isso durou algumas semanas, e foi necessário para mostrar que realmente existe uma desconexão. O que é importante não possui tanta relevância. O rap se tornou aquela pessoa da classe trabalhadora que ascendeu socialmente e, de certa forma, esqueceu de onde veio.
Essa realidade gerou incômodo no MC que ao longo de 15 músicas revisita aquilo que fez do rap uma experiência que transforma trajetórias. É uma forma de manter a chama original acesa, deixando de lado o saudosismo. “As pessoas confundem fama com qualidade, tá ligado? Isso para mim é o mais gritante, tipo assim, não, peraí rapaziada. Peraí, porque tem um monte de gente absurda”, pontua. “É aquela velha história: o melhor MC, a melhor MC, provavelmente, desse país, não é a mais ouvida, não é o mais ouvido. Eu acho que as pessoas perderam esse limiar”. Para exemplificar, ele usa Kendrick Lamar como um fenômeno que consegue aliar qualidade com muito reconhecimento. Isso cria uma sensação de que esse vai ser o parâmetro. Mas no Brasil é diferente.
“Por isso, a gente vai para esses lugares mais esvaziados quando começamos a seguir a dinâmica das redes sociais, onde esse tipo de debate é o que engaja, e é o bagulho que chega para todo mundo. A lógica é a discussão, a desconcordância, porque gera engajamento. Acho que quando a gente passa a obedecer a lógica do mercado, que é essa a lógica das grandes empresas, a lógica das big techs, a gente se afasta do que fez a gente ser a gente. Que é a rua, que é o encontro, que é a troca de ideias. O disco do Clipse (“Let God Sort Em Out”), lá nos Estados Unidos, e o disco da Stefanie (“BUNMI”) aqui, me causaram muito essa reflexão. Olha a qualidade desse rap aqui. E o Clipse não ganhou Grammy, mas era pra ter ganhado. Eu amo o Kendrick, mas o Clipse foi o campeão do povo no ano passado. E a Stefanie fez o melhor disco de rap dos últimos tempos. Rap pra caralho”.

Realmente, esses dois discos deram uma amostra que, apesar dos pesares, o rap não perdeu sua essência, ainda mais se tratando de artistas da (chamada) velha escola que não se renderam ao mercado. “Já emendando um raciocínio no outro… eu assisti o show do Ogi de 15 anos do “Crônica da Cidade Cinza” e fiquei refletindo as pessoas cantando aquelas letras, fazendo aqueles flows do Ogi. Fiquei pensando: mano, olha que louco”. Assim como Ogi, e vários outros MC’s da sua geração, Rashid foi explorar outras sonoridades. Mas ele acredita que este é o momento de voltar para trocar ideia em casa. “Porque saiu todo mundo e a casa ficou vazia”, observa. “Agora a gente precisa voltar para trocar ideias em casa, botar o bagulho em ordem”. Essa necessidade de retorno para organizar a bagunça não foi necessariamente o que o fez compor “CUMULONIMBUS”. “O que me fez escrever o disco foi o que me fez me apaixonar pelo rap”, responde sobre a motivação. “E tá tudo aí no disco do Clipse, no disco da Stefanie, nessa coisa do show do Ogi, que eu vi, no último disco do Rael, que pra mim trouxe muito daquele Rael que fez a gente se apaixonar pelo Rael da Rima. Essas coisas me emocionam muito, mano. E é o que a gente gosta de fazer”. Tudo isso é meio esporte, com suas disputas, mas também missão de vida. É fazer porque gosta de fazer, mas também porque sente que é importante.
“A partir dessa reflexão do que me fez apaixonar pelo rap, eu comecei a pensar nessas coisas. Eu sou um rimador. Eu amo rimar, tá ligado? Então eu sempre parto desse lugar. Caio pra trás quando o MC ou a MC fala um bagulho que eu falo: pô, eu queria ter pensado nisso. Esse tipo de coisa.. as batidas, que sempre foram muito icônicas aqui no rap do Brasil… tipo, os beats já começavam a transmitir a mensagem antes do MC abrir a boca. Esse tipo de beat e postura me fizeram apaixonar pelo rap”.
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Para os curiosos em saber como é o processo de escrita do Rashid, aqui vai a receita. “Primeiro eu gosto de partir do instrumental. Mesmo que eu já esteja sentindo alguma coisa, eu quero achar esse instrumental”, revela. “Às vezes eu vou nas conversas dos beatmakers, que me mandam as batidas, e tem batidas do disco que eu recebi em 2021 e não tinha chegado o momento ainda… chegou agora”. Então, ele resgata as mensagens, ouve os arquivos e vai atrás daquela emoção até conseguir achar o lugar para começar. Assim parece ser fácil. Porém, na prática, é quase um problema matemático a ser resolvido. E para que chegue ao resultado correto, precisa ter algumas referências para que as palavras não sejam simplesmente jogadas. No caso do MC, elas vêm da vida, dos livros, documentários, filmes, anotações.
“Antes eu anotava a rima, pra falar a verdade. Ficava pensando umas barras de efeito, umas punchlines e tal. Mas hoje em dia, nos últimos dois anos, não faço mais isso. Eu vou anotando coisas que eu acho que são interessantes, termos ou conceitos diferentes. Eu vou anotando essas coisas porque são lugares para ir, saca? Vou anotando lugares diferentes para não usar sempre as mesmas palavras, para eu sair daquelas terminações, falar de coisas diferentes. Então hoje em dia eu nem escrevo punchline mais, porque eu sei que ela vai sair. Essa é a minha função de vida”.
Uma das refs que usa em alguns momentos do álbum é (do cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico) Leonardo da Vinci, porque quando estava compondo ficou meio viciado no que ele criou e falou durante a vida. Outro exemplo é tentar se basear em achar temáticas diferentes. A intenção é surpreender quem ouve. E de fato isso acontece em diferentes ocasiões. “Ano que vem eu faço 20 anos de carreira. Eu preciso surpreender nas minhas linhas, tá ligado?”, ressalta. “Não posso ficar repetindo as coisas que eu já falei. Então tá muito baseado nisso e no meu instinto. Tenho escutado muito a minha intuição”. Assim, muitas dessas músicas surgiram no primeiro impulso. Quando o instrumental bateu, a ideia veio de imediato. Esse exercício tem funcionado também como experimento para medir a qualidade. “Se ficar ruim, eu não lanço”, afirma. “Eu acho que o grande segredo da coisa é esse. Não tem como a música ficar ruim porque só vai lançar se você quiser. Se você lançar o ruim, aí é um problema seu. Então, vai ficar bom, não tem como não sair bom”. Para isso acontecer, fica martelando em cima até a hora que sair a linha que deseja.

Assim como mudou a forma de arquitetar suas letras, Rashid também quis fazer diferente nas parcerias. “Tudo comunica alguma coisa: o instrumental comunica, o título comunica, a letra comunica, o refrão comunica e a escolha da participação comunica alguma coisa”, observa. “A minha intenção era que tudo comunicasse propriedade, verdade”. Depois de ir para diferentes ambientes da música brasileira, dividindo o microfone com Lenine, Duda Beat, Péricles, Melly e Liniker, ele decidiu que para o tipo de mensagem que desejava transmitir, teria que escolher os mais íntimos. Então, chamou Emicida, Projota, Luedji Luna, Kamau, Rael, Paula Lima, MC Neguinho do Kaxeta, Jota Ghetto, Slim Rimografia e Flavia K.
Mais do que nas outras vezes, precisava se aliar com as pessoas que tinham propriedade sobre o assunto. “Estamos falando de algo que nos é muito íntimo e eu trouxe os íntimos para corroborar com a minha intenção, com a minha missão”, fala. “Então não era o disco de fazer participações mirabolantes. Era o disco de chamar as pessoas da cultura, tipo o Neguinho do Kaxeta é um cara que representa a cultura. É um cara bem sucedido, com respeito na rua, que transita por vários gêneros musicais também, com maior respeito. Quando você olha pra ele, você vê cultura, você vê rua”. Para Rashid, talvez o mais fora dessa caixa seja o próprio Kaxeta. Mas também cita Luedji Luna, que mesmo não fazendo parte efetivamente, tem um relacionamento sério com o rap.
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CONHECIMENTO É NECESSÁRIO
Nos anos 1990 e 2000, ter proceder era uma regra (não escrita) no hip hop. A postura, o respeito, a disciplina e o conhecimento faziam parte dos princípios básicos para fazer parte de qualquer um dos elementos. Na rua, tinha que saber como entrar e sair. Ainda hoje há quem siga religiosamente essas normas. Porém, com o advento da internet alguns posicionamentos mudaram. Como todos possuem opiniões, cada um fala o que bem entende. Assim, o quinto elemento da cultura não tem sido tão considerado pelos mais jovens – e até por quem já está na “caminhada” faz um tempo.
Chegou-se a ponto de fazerem chacota com quem estuda – e até quem tem um trabalho CLT. Por isso, Rashid acredita que o movimento cultural precisa ser defendido. “Para entrar na nossa cultura, meu irmão, tem um passo a passo. Você entra, você aprende. Aliás, você estuda, aprende, respeita”, diz. “Os maiores MCs que vocês admiram todos são nerds. Os gringos tudo aí, Kendrick Lamar, todos os caras da Griselda. Todos que tem alguma coisa pra falar são nerds. No Brasil, vai ouvir o podcast do Brown, o maior MC da nossa história. Vai ouvir o podcast dele para você ver o tanto de referência que ele tem de história, de música, de história preta, de literatura. Isso não pode ser um bagulho pejorativo. Você ser inteligente não pode virar uma coisa negativa na nossa cultura nunca, mano”. Desassociar conhecimento da cultura hip-hop é derrubar o alicerce. Foi a curiosidade que o fez desenvolver uma das principais técnicas musicais dos últimos 50 anos.

“Ninguém sabia usar toca-disco. As pessoas não sabiam, aliás, tocar instrumentos. O toca-discos veio para substituir. As soluções foram encontradas através da curiosidade e a curiosidade começa a formar o conhecimento que transforma isso em técnica”, lembra. “Então, de uma coisa que há uma necessidade, você cria o scratch, você cria o freestyle, depois vieram os MCs, que viram as maiores estrelas da música mundial. A nossa cultura é feita assim. E nesse meio do caminho tem muito estudo”.
Essa deveria ser a norma, mas com a popularização do rap, principalmente com o trap, mesmo quem não tinha uma proximidade começou a se envolver. Porém, não de forma profunda. “Um bagulho que mais me incomoda é esse pensamento de qualquer um olhar pro rap hoje e falar: pô, parece fácil, acho que eu também consigo fazer. Isso me ofende porque a gente tá a vida inteira estudando e pesquisando pra conseguir falar os bagulhos. Há 20 anos, olhávamos para os MC’s que a gente admirava e falava: mano, será que eu vou conseguir chegar nesse nível? Agora as pessoas falam: eu acho que eu consigo. E vai lá e faz. Se é bom ou não, aí é outra questão. Mas qualquer um acha que consegue fazer rap hoje, tá ligado?” Por esse motivo, Rashid reafirma que o rap precisa ser defendido do mercado e dos outsiders que se arriscam para seguir a moda vigente. “Virou um corta caminho. O cara vem do emo, e com todo o respeito ao emo, e começa a fazer trap. Não era nem emo de verdade. Largou o bagulho porque caiu. Virou rapper porque faz sucesso. E são pessoas que, às vezes, corroboram com essa visão de que não precisa ficar estudando o bagulho das antigas”. Antes, isso era motivo de vergonha. Agora tem um salvo conduto.
A questão é polêmica, porém mesmo assim ela puxa o fio que conduz de “CUMULONIMBUS”. E quando o MC disse que estava chegando com um rap para fechar o tempo não era de brincadeira. “Não é uma farofa, não é um pacote de pirulitos, que você vai ali e compra. Aí, a gente chega no momento em que tem tudo de rap menos o rap em si”, observa. “Depois as pessoas perguntam de onde vem o fenômeno de rappers de direita e público de rap de direita? Vem desse distanciamento. Se os MC estão distantes dessa raiz, se os MC não se preocupam em transmitir para o seu público que está sendo formado, não tem como você querer cobrar do público porque você tá num lugar de mero entretenimento, o que é totalmente digno também”. Apesar disso, se o artista não está formando o seu público, outras pessoas sem vivência farão isso, principalmente na política. O próprio Rashid lembra que é nessa que a gente vê o fenômeno de pessoas que ouvem trap sendo formadas politicamente pelo Nikolas Ferreira.

“É nesse lugar, nesse momento que esse fenômeno acontece. E aqui não, aqui vamos ser defensores do bagulho, defensores da cultura. Nós vamos formar nosso público. Tem que parar de ser preguiçoso e ir procurar referências. Foi assim que nós aprendemos, caralho. Antigamente a gente tinha medo de levantar a mão pra poder falar uma coisa. Hoje, muita gente tem essa coragem, mas não tem a resposta, tá ligado? Não sabe o que dizer, mas tem a coragem pra levantar a mão. Então, é isso, a coisa deu uma volta. E eu sinto que há um movimento de olhar para esse lugar da essência, esse lugar que criou a gente, esse lugar que formou a gente, enquanto cidadão cultural também, enquanto MCs, b-boys, DJs, sei lá, jornalistas que estão dentro da cultura, porque também nem todos serão MCs”.
Antes de finalizarmos, já ultrapassando os 30 minutos combinados, tive que perguntar se o funk realmente “tomou” o espaço de representação que era do rap nas periferias. “Olha a caneta dos caras, tipo o Hariel, o próprio Kaxeta?”, alerta. “Eles estão ganhando o dinheiro deles e ganham um bom dinheiro que muita gente do rap não vai nem ver na vida, de repente. Só que eles precisam defender o gênero musical deles, e estão fazendo isso, porque o bagulho é muito atacado”. Ele também cita o levante das mulheres no rap. “Pra mim é o bagulho que mais representa tudo o que a gente tá falando agora. Pra mim tudo isso parte de um lugar dessas pessoas terem o que defender”. Na visão de Rashid, vários homens do rap, não têm mais o que defender do que os próprios cachês.
“É por isso que o bagulho ficou super esvaziado, repetitivo”, afirma. “Um monte de gente com medo da música de IA, mas a IA no rap chegou faz tempo. Tá todo mundo fazendo uma música em cima da música do outro. Até parece que a IA foi inventada assim. Tem coisas para serem defendidas aqui. Tem uma postura, tem uma cultura para ser defendida. Não é uma questão de recursos, é uma questão de postura. Com os recursos que a gente tem hoje, poderíamos estar fazendo coisas maravilhosamente impactantes para a cultura nacional”.

