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“Escrever foi um processo de revisitar algumas dores”, diz Afreekassia sobre ‘Cacau 50%, Vol. II’

Autoestima, desejo e leveza direcionam suas canções.
Foto: Vinicius Marques

“A gente está num momento muito especial. Eu tenho história junto com as meninas que estão fazendo sucesso. Então é muito lindo poder conhecer a pessoa e ver o que ela construiu no meio disso. E também, enquanto artista, tem sido muito poderoso poder ver que eu faço parte de um movimento tão grande que tem realmente rompido várias barreiras”.

Parte fundamental do atual (e necessário) levante as mulheres no rap nacional, Afreekassia faz a afirmação minutos antes de antecipar a escuta de “Cacau 50%, Vol. II” para convidados no arborizado quintal da Casa da Música Brasileira, em São Paulo, numa noite de terça-feira. Este é o contraponto do anterior que estava focado em trazer à tona mágoas, vulnerabilidades e frustrações. E mesmo olhando para as cicatrizes, a autoestima, o desejo e a leveza direcionam suas canções. “Escrever foi um processo de revisitar algumas dores. Mas foi também um processo de cura”, afirma. “Eu sinto que precisava falar sobre essas coisas pra conseguir seguir em frente, entendeu!?” Assim, concluiu que tinha que liberar essas cargas. “Pensei, desse jeito vou me sentir um pouco mais leve, vou conseguir criar novas coisas. É também muito pessoal”.

De sorriso largo, a cantora e MC diz que tinha ideias para produzir um álbum, porém achava que não estava preparada. “Tanto como pessoa quanto artista”, observa. “Eu falei: vou lançar mais um EP para eu entender como me sinto nesse processo, e foi gostoso”. Ambos os EPs foram gravados na A Firma, selo colaborativo do produtor Mello Santana e da MC Luanna. “É um lugar que pra mim é muito casa, sabe?! No volume 1 eu ainda estava meio travada. Já no volume 2, por mais que seja um EP meio denso, foi muito divertido gravar. A gente teve uma relação muito legal, muito gostosa”.

 

“EU ACHO QUE TEM MUITA BELEZA E FORÇA EM SER SENSÍVEL”

 

Foto: Vinicius Marques

 

Como o que canta é um reflexo do que viveu, Afreekassia revela que desnudar sua intimidade foi desconfortável no começo, mas precisava fazer essa exposição.

“Eu acho que o que deu entrada pra esse processo foi o single ‘No Meu Fone’, que eu falo sobre um término. E quem me conhece sabe exatamente de quem, e do que eu tô falando”, ressalta. “Antes eu ficava falando que era muito sensível e achava isso um defeito. Aí depois que eu trabalhei com a música, achei incrível eu conseguir escrever sobre isso, fazer dinheiro e inspirar outras pessoas. Eu perdi a vergonha, mas eu ainda me sinto meio pelada para as pessoas porque todo mundo sabe o que eu penso e o que eu passei. É um processo que exige muita coragem”.

Abrir a intimidade é uma forma de incentivar outras mulheres a não segurar o sentimento. Ela acredita que ficar sempre na posição de posturada e inabalável faz com que percam a sensibilidade. “Eu acho que tem muita beleza e força em ser sensível”. Poeticamente, ela mostra essa necessidade na intro “Caminho do meio”, a qual diz ser a sua favorita. Mas na visão dela, “Minha Onda”, feita com Amanda Sarmento, é a que mais transpira o sentimento do porquê quis fazer o EP. Porém, o interlúdio “rouba” seu coração.

“Apesar de ser a introdução, considero uma musicona. Por exemplo, eu tenho um problema muito grande de decorar as letras que eu mesmo escrevo”, revela. “Mas essa eu não tenho nenhuma dificuldade, assim, porque pra mim foi algo muito falado e é muito inspiracional. Eu gosto muito dela, principalmente do beat, e de como a gente construiu. Ela fala mais do que qualquer outra música poderia falar. A mensagem dela é bem forte, e eu fico pensando quem vai ouvi-la pela primeira vez. Eu queria morar nesse momento, de ver a pessoa ouvi-la pela primeira vez”.

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