Sábado, 17. O frio e a chuva prometidos não deram às caras. Melhor assim. O calor agraciou a noite de quem foi ao Teatro Carlos Gomes do Centro de Convivência Cultural de Campinas para ver o show do álbum “Tireóide”, do Renan Inquérito. Na última vez que se apresentou na cidade, em outubro de 2025, para comemorar os 10 anos de “Corpo e Alma”, foi embaixo de forte chuva. Dessa vez, os fãs que esgotaram os ingressos ficaram confortáveis.
Horas antes, conversei com Renan sobre a expectativa de tocar naquele ambiente. Ele estava ansioso, mas tranquilo. “A gente preparou um show bonito”, disse. “Mas não sabemos o que vai acontecer lá em cima”. Camisetas do Inquérito fazem parte do kit de boa parte do público. Depois dos quatro sinais, a cortina se abre. O cenário possui faixas grandes com imagens de lagartas, borboletas e casulos, complementadas pelas frases “Tudo pode faltar, menos força e a fé / o palco é meu altar, o mic é meu halter”, do lado esquerdo, e “Eu sou a metamorfose e a minha voz tem asas”, no direito.
À tarde, a produtora Bruna Bueno me mostrou o vídeo que tinha feito quando chegou ali. Na entrada, encontrou uma borboleta repousando na porta, e também um casulo. Para ela, aqueles eram bons sinais. E provavelmente foi. Quando a introdução de “Tireóide”começa, Renan entra com uma navalha numa das mãos, espuma de barbear na outra e uma toalha no ombro. Passa a espuma no rosto e simula que está se barbeando. Na sequência, se limpa, veste a camisa branca com a palavra metamorfose escrita nas costas, coloca o boné marrom do San Diego Padres e pega seu conhecido microfone vintage para desenrolar todas do álbum de ponta a ponta. Na retaguarda estão Pop Black, que faz o papel de DJ e dobras vocais, o multi-instrumentista Índio Sax, que além do saxofone ataca na flauta doce e na guitarra, e as back-vocals Vih Mendes e Yandara Pimentel.
Diferente da maioria dos shows de rap, que são mais sisudos, este tem leveza. Uma senhora sentada à minha frente faz crochê. É possível observar que Renan também está tranquilo, apesar das letras iniciais carregarem um certo peso. “Elis Não Sabe Nada”, logo no início, mareja os olhos. Inclusive, Elis sobe ao palco, nesta e em algumas outras, para abraçar o pai. Um dos momentos mais quentes foi em “Batalha de Sangue”. Sem avisar trazem a atmosfera de uma batalha de rima com a participação dos MCs Ikki e Azec da Batalha do Cálice, uma das maiores do interior paulistas. Pop Black se torna o MC Maligno que disputa com Renan. Todos entram no clima e respondem à chamada para repetirem a pergunta “vai matar ou vai morrer, vai morrer ou vai matar?” Outra surpresa foi em “Martelinho de Ouro” com o B-boy Negão surpreendendo o próprio rapper com seus movimentos de break.
Após todo o repertório de “Tireóide”, o bis veio com versões reduzidas de sons que marcaram os mais de 20 anos do Inquérito. “Dia dos Pais” abriu a sequência finalizada com “Corpo e Alma”. Tanto o disco quanto a apresentação refletem a sinceridade e a maturidade de Renan Inquérito. Talvez uma fase de evolução pessoal. Para muitos, inclusive para o próprio, aquela 1h30 serviu de alento, força, renovação. Ouvi de algumas pessoas que o concerto “lavou a alma”, “deu uma aliviada no peso” e “confortou o coração”.Também fez pensar sobre as artimanhas e a brevidade da vida.

