Me deram o aviso: escute sem as crianças por perto. E só de ler PORNOGRAFIA AUDITIVA já dava para perceber o que poderia me deparar. Também me disseram para ir preparado. Até perguntei se era ainda mais explícito do que “Pra Todos Os Garotos Que Já Mamei”, da N.I.N.A. A resposta foi positiva. Tudo certo. Tinha visto algumas impressões, porém, decidi tirar as minhas. Pelas demandas, posterguei a audição. Precisava de atenção porque a curiosidade estava alta.
O momento escolhido foi uma ida ao mercado. Enquanto escolhia os alimentos, ouvia formas variadas de saciar outro tipo de fome. De fato, Bia Soull entrega o que prometeu. É totalmente explícito. Não faz rodeios. Se não fossem musicadas, as letras poderiam facilmente ser contos eróticos [ainda é possível adaptá-las]. A forma que discorre é detalhada. Por isso, choca. Mas nesse mar de mesmices, faz-se necessário algo que diverge para gerar transformações e pensamento crítico.
Não que ela esteja sendo disruptiva. Já tivemos outras mulheres no funk abordando o assunto. O ponto é que Bia faz narrativas não convencionais para o período atual do funk e do trap. Sai daquele “senta, senta”, e da “ego trip sexual” masculina, que se repete em quase todos os traps e funks, e vai para algo mais aprofundado. Aborda do jeito que tem que ser, às vezes exagerado, dependendo de quem julga, outras mostrando que existem inúmeras possibilidades não falocêntricas. Isso ajuda a desmistificar alguns tabus, principalmente para uma geração (a Z) que está cada vez menos interessada em sexo [a pesquisa está aqui]. Também reforça a liberdade e a vontade das mulheres expressarem seus desejos. Não se sentem mais representadas por letras que sempre a colocaram como objeto, e limita suas possibilidades. Essa autonomia confronta o que está estabelecido pelos homens, e complementa o que outras rappers e funkeiras estão compartilhando.
Talvez o mercado não seja o melhor lugar para escutar Bia. Enquanto sua voz quase sussurrante é acompanhada pelas bases apimentadas do MU540, DJ Th4ys Paulo DK, d.silvestre, Mello Santana, RD Da DZ7, IAMLOPE$$, CARLO, THS, Saggaz, DJ LUKINHAS, DJ CARLOZS e Caio Santos, eu empurrava o carrinho com um sorriso no rosto. “Menage” e “Malandro TouchScreen” me trouxeram risos pela forma perversa que ela discorre. Algumas servem para colocar naquela playlist de cremosidades – “Bombap de Puto”, por exemplo -, outras têm tudo, se já não estiverem, para fazer geral dançar e cantar alto no baile. “Sinergia” e “Óleo de Coco” são as cotadas. Não vai dar para ignorá-las quando os/as DJs tocarem.
Como nem só de pornografia o disco é feito, Bia também passa a visão para os caras que estão parado na pista. Convida NandaTsunami para o erotismo de “Putinho Pirú Rodado”, uma daquelas que você repete várias vezes. A cadência é gostosa, e o refrão cantado suavemente gruda como chiclete. O mesmo acontece com “Coração Puro”. Esta é quase uma observação 360º das ideias que Bia Soull quis passar. Não que seja um resumo. Tem alguns códigos que revelam os motivos dela fazer o que fez. “Gosto de falar putaria, me sinto tão confortável”, diz um dos versos.
Falar sobre intimidades não a deixa num não lugar. Possui autenticidade. Talvez ajude a abrir a mente, ou fechá-las de vez. Depois de escutar, poucos vão querer voltar novamente. Nem todos vão chegar ao final. É pesado. Tem densidade. Chega a ser sério. Também faz rir. Pode soar divertido e escrachado ao mesmo tempo. A sensualidade aparece, mas fica um pouco distante. E o objetivo parece não ser este. O fato é que dificilmente quem der o play não será impactado de alguma forma. Ao menos o transformará em assunto. É o que se propõe.

