Mesmo com o calor de pouco mais de 30 graus que fazia em São Paulo na tarde de sábado, 20 de março, N.I.N.A não ia deixar passar a oportunidade de mostrar seu casaco, estilizado pela MATOS BREXÓ especialmente para ela, no Lollapalooza Brasil. De dupla face, a peça tem um lado todo preto com a bandeira do Brasil e o outro forrado com camisetas do Flamengo. A inspiração veio das roupas dos atletas das Olimpíadas de Inverno, tendo o look complementado por um vestido [também da MATOS] com as cores do uniforme principal da Seleção Brasileira. O propósito era refletir o conceito do EP “O Jogo Virou”, o qual direcionou seu show no palco de música eletrônica do festival.
Para este, teve que construir uma apresentação inédita, tendo o futebol como base. “Foi uma correria absurda, tipo, na prática, na verdade, a gente teve quatro semanas para construir esse show”, afirma. “Então, a gente quis modificar algumas coisas, arranjos, balé, coreografia, tracklist. Foi muito intenso, não vou mentir”. Todo o nervosismo e a expectativa foram superados logo depois que ela encerrou a apresentação. “Foi super gratificante ver o resultado disso tudo e a forma que a galera recebeu essa entrega. As expectativas foram ultrapassadas de uma maneira absurda. E ver a galera abraçando uma mina preta do rap e falando de futebol dessa forma, foi lindo”.
Fanática pelo esporte mais praticado por aqui, a rapper diz que fazer algo nessa temática era necessário pela evidência que o futebol feminino vem ganhando, inclusive por causa da Copa de Futebol Feminino que será realizada no BR em 2027 e o mundial de 2026. É também uma forma de reafirmar o poder e o protagonismo das mulheres em todos os lugares.

“SE FORTALEÇAM, FORTALEÇAM O CORPO, A MENTE E O ESPÍRITO DE UMA FORMA QUE VOCÊS CONSIGAM SE SENTIR PREENCHIDAS PARA NÃO BUSCAR APROVAÇÃO OU ATÉ MESMO ALGO QUE AS PREENCHA”.
“Eu trabalho como comunicadora e acho que o esporte não pode ficar de fora”, reflete. “Acho que é muito importante a gente lembrar e frisar que mulheres fazem parte de arquibancada, fazem parte de organizada, jogam futebol dentro e fora de campo. A gente tá sempre dominando tudo. Por isso, é muito importante ter essa representatividade. Como eu não estava vendo isso, falei: Ah, vou fazer”.
Quem quiser encontrá-la nos dias de jogos do Flamengo no Rio de Janeiro, precisa ir ao Setor Norte do Maracanã. A regra é que na semana de jogo não tem estúdio, e quando tem show ela não vai ao estádio porque sabe que ficará sem voz. “Eu sempre estive na arquibancada, eu cresci no meio do futebol dentro da minha família, tipo, tanto por parte de mãe, quanto pela parte do meu avô, então eu vivi o futebol desde cedo”, ressalta. “Não tinha como eu não falar disso em algum momento da minha carreira. Na “A Bruta, A Braba, A Forte” falo que eu sou a artilheira do ano, né?” A própria também brinca que “nunca disse ser a 01, mas essa cena me trouxe a 10”. Pela facilidade de falar de diferentes assuntos de uma forma natural, a MC diz que sua criatividade flui de acordo com o que está vivendo no momento.
“Esse EP veio na hora que eu precisava resgatar a essência da N.I.N.A, e da N.I.N.A reencontrar a Ana, que é o CPF. Então, tipo assim, eu me reencontrei nas arquibancadas e a N.I.N.A (agora sem o complemento Do Porte) surgiu através dessa potência, tá ligado? Do abraço da torcida, de ver o futebol acontecer no campo, de perceber que tipo assim eu estava voltando naquela memória afetiva de infância e me sentindo acolhida de novo, entende!? É muito do momento que eu estou passando. Se eu estiver muito apaixonada vai vir alguma coisa aí romântica. Se eu estiver com muita raiva, vai ter alguma coisa rasgando alguém”.
Sempre na intenção de saber de que forma surgem as músicas, pergunto se geralmente as que ela escreve são baseadas em fatos. A resposta é positiva, exceto “Carma”. “Eu nunca fui amante, tá gente?”, enfatiza. “Eu tenho que frisar isso para todo mundo saber”. Também levanto a questão das reclamações que os homens têm feito sobre as letras das mulheres no rap, que segundo eles não os representam. Por outro lado, somente agora elas estão tendo um pouco mais de espaço para fazerem suas vozes ressoar com a mensagem que sempre quiseram passar, gerando assim identificação para as que curtem e nunca se sentiram representadas pelas letras cantadas por eles. “Os homens durante muito tempo pregaram a ostentação. E hoje nós mulheres, como comunicadoras, falamos muito sobre conscientização, sobre você saber que cada passo tem que ser pensado antes de ser dado. Então os homens meio que sentem uma como aversão a isso porque vai contra tudo que eles pregam”. Essa repulsa também não deixa de ser aquele dedo na ferida que incomoda cada vez que aperta.

“As mulheres estão ganhando evidência no rap porque estão falando assuntos de interesse público e do público, incentivando o cuidado, alimentação, treino e a organizar a finança”, observa. “Eles estavam normalizando algo que não é para ser normalizado, colocando a mulher no lugar de objeto, a mulher no lugar de moeda de troca. Isso não tem que ser normalizado, não tem que ser colocado de uma forma engrandecedora, tá ligado!? E a partir do momento que as pessoas vão amadurecendo, elas vão vendo como que nós trabalhamos nessa questão do amadurecimento. A gente está aqui para te acolher, mas também vamos encostar na tua feridinha e fazer você entender que não é perfeito”.
Além de passar a visão para os caras se ligarem, ela também orienta as mais novas a se prepararem para esse mundo que está se abrindo. “Se fortaleçam, fortaleçam o corpo, a mente e o espírito de uma forma que vocês consigam se sentir preenchidas para não buscar aprovação ou até mesmo algo que as preencha”, diz. “Não deem importância para o que outras pessoas falam. Você vai ter dúvida e é muito importante seguir a sua intuição, o seu coração, e não se perder no caminho por conta de ninguém, seja homem, seja mulher, seja familiar. No final das contas, quem tá é só você”. O objetivo dela é falar de futebol antes, durante e depois da Copa. Mas dá um pequeno vislumbre do que virá.
“Eu vou brilhar muito esse ano, cara, assim. Pode ter certeza que vou acompanhar todos os jogos, comentar e sempre associar a minha música, porque as duas artes se complementam. E assim, terá visuais, remixes e já estou trabalhando no meu próximo álbum. Pode esperar por muita coisa”.

