Na introdução “É Necessário Voltar Ao Começo”, da mixtape “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe…”, Emicida diz que “quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo”. Mais de 15 anos depois, essa frase volta a ser uma espécie de fio condutor para um possível retorno do MC às suas “origens” no rap. Isso porque com “AmarElo”, ele expandiu o alcance do seu trabalho a partir de um flerte com elementos da música popular brasileira. É um álbum que os mais “conservadores” não consideram ser efetivamente de rap.
Essa adaptação foi necessária para que o rapper saísse de vez do nicho com o objetivo de levar sua mensagem a outros ambientes. Por esse motivo, teve de moldar sua música para que pudesse entrar em alguns lugares, ser mais palatável, algo que dificilmente aconteceria com os que vieram anteriormente [salvo, uma música ou outra].
Passados quase 7 anos após o fenômeno que emplacou hits, ganhou prêmios e gerou conversas para além das periferias, Emicida ensaia a volta daquele “velho MC”, inclusive participando da Batalha da Matrix. É verdade que a expectativa da maioria era que ele já viesse com algo inédito. Como a proposta não atingiu o que se esperava, o entusiasmo baixou [inclusive o meu] por um momento. Algo normal quando se está diante de algo inesperado.
Quem não acompanhou lá no início, quando vendia-se CDs com beats conhecidos para que os MC’s rimassem, e a alta das mashups e remixes no Soundcloud, da metade dos anos 2000 para frente, pode ficar confuso ao ouvir Emicida rimando nas bases clássicas dos Racionais MC’s.
No primeiro momento, bate um certo estranhamento porque quando surge os primeiros acordes, a mente já se programa para que você comece a ‘cantar’ os versos. Mas depois de ouvir e reouvir algumas vezes é possível se acostumar e entender a proposta de “Emicida Racional VL3 – As aventuras de DJ Relíquia e LRX”. “Capítulo Boa, Versículo Esperança”, com letra de “Boa Esperança”, e instrumental de “Capítulo 4, versículo 3”, dos Racionais MC’s, e “Voz Triunfal”, direcionada por “Voz Ativa”, dos Racionais MC’s e bases de “Triunfo”, são as mais interessantes.
A mixtape começa pelo terceiro volume. Então, presume-se que outras virão na mesma estética. Ou seja, o rapper, juntamente com o DJ Nyack (o DJ Relíquia), que o acompanhou nos shows por 18 anos, vai fazer outros projetos mesclando suas obras com as de seus ídolos. Essa é uma forma dele resgatar suas raízes e memórias daqueles anos iniciais (antes de ser batizado de Emicida) como a.k.a LRX (“Louco Revolucionário X”). Também serve de prelúdio de algo maior que deve estar preparando.
Ele está preparando o terreno, assim como faz [acredito que ainda faça] na sua horta, vai plantar a semente e depois mostrar sua colheita. Não faz algo só por fazer. Tem um plano maior nessas ideias. Só de especular seu futuro, já conseguiu fazer barulho e movimentar o cenário. De repente esse vai ser o glorioso retorno de quem sempre esteve aqui.

