Quando descobri que Seun Kuti & Egypt 80 tocaria na minha cidade, Campinas, foi uma fusão de incredulidade e satisfação. Apesar de ser uma metrópole, com uma das mais importantes universidades do país, e um polo tecnológico gigantesco, a cultura falha em vários aspectos. Quando o assunto é show de artistas de fora do país, as possibilidades ficam ainda mais escassas. Porém, o inesperado aconteceu.
Na noite de 06 de novembro, quinta-feira, pouco mais das 20h, a Egypt 80 subiu ao palco do Sesc Campinas para iniciar a turnê brasileira, e fazer todos dançarem ao som do autêntico afrobeat. Os ingressos não se esgotaram, mas o galpão estava tomado. O carismático Fabsmith Fila fez o papel de mestre de cerimônias. Por quase 20 minutos, ele, no sax tenor, Anis Benhallak (guitarra), Valentin Pellet (trumpete), Nicolas Sakelario (sax Baritono), Mario Osinet (bateria) e o lendário baixista Kunle Justice, membro original da banda do Fela Kuti, abriu com um instrumental de preparação. A expectativa, assim como o calor do ambiente, obrigando a retirada das blusas de frio, estava alta. A jam foi acontecendo, impedindo que o corpo ficasse parado.
Antes de Seun dar o ar da graça, a dançarina e back vocal Yetunde Kuti é anunciada por Fabsmith. Desfilando, ela é ovacionada. Com um chocalho na mão, dança. Segundos depois, o herdeiro do trono do afrobeat surge como um verdadeiro príncipe acompanhado do seu saxofone. Ele usa uma espécie de túnica bege com as mangas cortadas, adornada por diversos símbolos com estética adinkra, conchas e franjas, que já pelo final fica de lado no seu momento mais eufórico – quando fica descamisado. Logo depois de cumprimentar seu “MC”, joga mais lenha e assopra para aumentar o fogo. Tanto pela aparência quanto pela forma que se movimenta, Kuti lembra o pai. É explosivo. Só para quando precisa recuperar o fôlego, beber água, secar o suor. Tem o poder de fazer com que as pessoas se mantenham com os olhos fixados e os ouvidos atentos.

Assim como no jazz, cada músico tem seu momento de improviso. Muito bem escolhidos, os responsáveis pela cozinha seguram a onda. Anis, o guitarrista, não chama atenção apenas pelo look extravagante. Seus solos apimentam o saboroso cozido, que ganha mais caldo com a cadência frenética da bateria de Mario. Para manter o ritmo, muitas vezes quebrado, desenvolvido por Tony Allen, é necessário estar com a coordenação e o corpo muito bem preparados. Diferente de Justice que mantém o groove com a tranquilidade e o sorriso leve de um monge. Seun canta, mas também faz uma ponta no teclado e de vez em quando empunha o saxofone.
O repertório se baseia no álbum Heavier Yet (Lays The Crownless Head), produzido por Lenny Kravitz e Sodi Marciszewer [que também fez a engenharia de som de Fela Kuti nos anos 1980]. As músicas mantém a tradição do afrobeat de fazer a cabeça pensar e o corpo dançar. É sensual, dançante, político e espiritual, principalmente quando reverência Fela. Poucos gêneros conseguem unir esses três elementos no mesmo ambiente.
Quando parou, Kuti não ficou quieto. Fez um discurso anticapitalista e anti colonialista. Pediu liberdade para a Palestina, Sudão, Congo, Somália e Uganda, se solidarizando com seu amigo Bob Wine [cantor, ator e político perseguido, vitima de atentados, preso diversas vezes pelo regime de Yoweri Museveni e futuro candidato à presidência do país. A história política dele é contada no documentário Bobi Wine: The People’s President, da Disney]. Também pediu liberdade para a Nigéria, ameaçada de intervenção militar pelos EUA, e ao Brasil. Empolgado, fez diversos agradecimentos em português: “Obri-mother fucking-gado”. Afirma também que essa forma de agradecimento aos brasileiros é única e exclusiva dele.
Parece óbvio dizer que já se aguardava algo intenso. Porém, foi mais. Seun Kuti surpreendeu de uma forma que não é possível descrever com adjetivos. Está mais relacionado com o sentimento gerado ao longo das duas horas do que com a definição específica. Quem se conectou, saiu com as energias renovadas. Isso não acontece a qualquer momento. Um tipo de experiência que cada pessoa precisa ter algumas vez na vida. Nenhuma oportunidade deve ser desperdiçada. É a essência transformadora do afrobeat.

