Ir a um festival sem ter o mínimo de ideia de quem vai tocar foge completamente dos padrões estabelecidos. A aposta da Heineken foi justamente ir contra esse establishment com o No Lineup Festival. As especulações de quem iria tocar se mantiveram até minutos antes dos artistas entrarem em cada um dos três palcos (Pulse, Echo e Noise) montados na Fábrica de Impressões, em São Paulo. Mantidos em sigilos, os nomes poderiam ser descobertos (ou não) a partir de dicas compartilhadas nos telões – através de uma playlist da Deezer. Poucos conseguiram o feito. Mas as surpresas até foram positivas, levando em consideração a repetição dos lineups da maioria dos festivais brasileiros.
Um fato a ser considerado é que se fosse anunciado antecipadamente, com venda de ingressos, o público seria completamente diferente. O interesse de boa parte não era na música. O hype de estar e pertencer a um seleto grupo falou mais alto do que a proposta de descobrir novas musicalidades.
Por causa de imprevistos, só consegui chegar perto das 20h. Acompanhei essa novidade à convite de Trident e Club Social Snack. O formato é interessante, instiga. Porém, até por se tratar de uma novidade, o público [que reservou ingressos gratuitamente via app] teve uma certa apatia em determinados momentos por não conhecer ou ter afinidade com o/a artista. Neste caso, precisa ter disposição para explorar o desconhecido, musicalidades não convencionais, o principal objetivo de um evento com esse tipo de formato. Já os aficionados pela música, aproveitaram a oportunidade.

Às 15h, DJ Nuvem abriu a sessão. Na sequência vieram Don L, Soccer Mommy, Pelados e TV on the radio. Lamentei por não ver este último, porque dificilmente a banda do Brooklyn voltará ao Brasil. Peguei o final do punk rock da Panick Shack no Echo. O galpão abafado recebeu apresentações quentes, bem propícias para o seu A.K.A: inferno. A proximidade dele com os outros dois, o Pulse (principal) e o Noise (inferninho) ajudou na mobilidade das cerca de 3 mil pessoas. Bastava alguns passos para chegar. Os intervalos entre um show e outro também foram importantes para que ninguém perdesse nada e ainda tivesse um tempo para encher os copos, se alimentar e encontrar amigos.
Considerada uma das MC’s mais versáteis dessa escola atual do rap, Tierra Whack fez acontecer. Antes dela entrar, sua DJ Kill Sing fez um set de uns 7 minutos iniciado com a versão de Sérgio Mendes para “Mas Que Nada”. Só nessa já foi aclamada. Depois de hits de 50 Cent, DJ Khaled e Jay-Z com Kanye West, Tierra entrou com toda sua energia e estilo. Muito bem regulado, os graves do som faziam o corpo tremer. Sem apelar para o uso de playbacks, como virou corriqueiro, a rapper mostrou porque as atenções têm sido voltadas a ela. Do começo ao fim, manteve a temperatura alta, interagiu com a platéia de um jeito peculiar, fazendo grunhidos ou pedindo para que imitassem animais, incentivou um bate-cabeça e deixou todos hipnotizados. Explosiva, insana e com um nível de humor que nem sempre se faz presente no rap.

Na altura de 21h já rolavam boatos de quais seriam os nomes principais que viriam a seguir. No “inferno”, tinha uma expectativa de que Racionais tocassem. Mas depois de um certo spoiler, isso mudou: “a voz que fundou a maior revolução do rap brasileiro”. Isso não quer dizer que a teoria estava toda errada. Acompanhado de Lino Krizz, Big da Godoy, DJ Dri, Roberto TalkBox e uma banca composta por MCs e dançarinos, Mano Brown fez o baile. Com os funks do álbum “Boogie Naipe”, ele colocou todo mundo para dançar. Todo feliz – sorrindo de orelha a orelha -, vestido de branco e de tranças nagô, também convidou Rincon Sapiência e Rael. Cada um cantou músicas próprias, como “Ponta de Lança” e “Envolvidão”, além de “Onda”, que faz parte e nomeia o recente álbum do Rael, que tem a participação de Brown e Don Filó. Algumas pessoas deixaram o recinto calorento, após verem que o rapper não iria tocar o repertório dos Racionais. Essa não é a primeira vez que essa debandada acontecia. E nada indicava que não ia rolar. Mais para o final, Brown cantou “Eu sou 157”, “Jesus Chorou”, “Vida Loka Parte 2”. A última encerrou a performance e deu a deixa para o que viria na sequência.
CHAKA KHAN DOMINA A NOITE
Tinha recebido uma informação antecipada de que a headliner seria uma determinada cantora de soul que revolucionou a indústria da música. No entanto, com o passar dos dias outra entrou no radar: Chaka Khan. A procura no site e mídias sociais dela sobre agenda no Brasil foi em vão. O alinhamento de não divulgação foi muito bem feito. Isso só se confirmou quando a diva do funk, e inspiração para a maioria de cantoras pop das gerações seguintes da dela, entrou no Pulse com uma blusa de renda preta, calça roxa, sorriso no rosto e com uma disposição bem difícil de se ver atualmente [vide as críticas feitas a Mariah Carey. Também [assim como o TV on the radio] pode ser muito difícil ela voltar para shows no Brasil – não que seja impossível. Então, quem esteve presente teve uma oportunidade única.
Com uma banda elegante e muito bem harmonizada, complementada por três backing-vocais, a Rainha do Funk tocou clássicos que alavancaram sua carreira no final dos anos 1970. Inclusive os timbres remetiam a esse período, tendo sintetizadores, bateria e percussão como guias para que ela soltasse aquela voz aguda singular. Impressionou por estar plena aos 72 anos, se movimentando ao longo de 1h30, esbanjando vitalidade, e entusiasmada por compartilhar a obra que criou ao longo de mais de 50 anos de carreira. Por outro lado, mesmo com toda a entrega, boa parte dos espectadores se mantiveram mornos. O fato de não a conhecerem influenciou essa postura. Independente de qualquer coisa, Chaka Kahn mostrou porque se mantém relevante e na vanguarda musical.

Já no começo da madrugada, a dispersão se iniciou. De volta ao “inferno”, Arca fez um set que não agradou tanto. Mesmo com todo o frenesi eletrônico, a “bateria estava baixa”. Muitos saíram para pegar o rumo de casa. Paralelamente no inferninho, o “Palco Noise”, Metá-Metá fez uma apresentação intimista e pulsante. As luzes vermelhas dos leds combinaram perfeitamente com a estética do trio. É impressionante como soa o violão de Kiko Dinucci. Ele possui diferentes texturas que parecem ser tiradas de diferentes instrumentos. Entretanto, é de apenas um.
Quando se soma à voz impactante de Juçara Marçal e o saxofone de Thiago França as músicas ficam encorpadas. Impossível não se impressionar e manter os olhos vidrados, enquanto o corpo responde às ondas sonoras. Toda e qualquer pessoa precisa ter essa experiência. Para fechar, DJ K trouxe todo o seu repertório de funk bruxaria para amarrar tudo muito bem. Os que se dispuseram a ficar, tiveram uma pequena vivência dos fluxos de São Paulo com uma pedrada sendo lançada atrás da outra.
No balanço, ir no escuro foi intrigante. Ter esse balanço entre indie e o pop teve sua importância, porque abriu espaço para que emergente em nichos específicos cheguem a outros lugares. Thalin (Maria Esmeralda), Negro Leo, Alma Negrot, Tessuto e Caps Lock são alguns desses. Mesmo assim, é difícil afirmar que essa dinâmica será tendência. É necessário encontrar outras estratégias para que gere real interesse. Senão vira só mais um pico para desfile de looks e registros feitos especificamente para serem compartilhados nos stories. Ao mesmo tempo que lendas, como Chaka Kahn, não recebem a atenção que merecem.

