“Depois do falecimento do Léo, eu senti que tinha que voltar toda a minha atenção para o Síntese. Fui atrás de tudo que tinha nosso de registro e comecei a escrever, a juntar, documentar e organizar as coisas pra contar nossa história ”. Neto, que tinha Leonardo Irian como parceiro do Síntese (falecido em 14 de novembro de 2024), afirma isso um dia antes do álbum “Flor de Maio” ganhar o mundo pelo streaming no dia 28 de maio. O título faz referência à data de nascimento de Léo e também ao nome da rua em que ele nasceu, foi criado e morreu.
“Eu já tinha essa música, por causa dele ser de 1 de maio, Dia do Trabalhador… o disco também veio no mês de maio”, diz. “Quando eu peguei o atestado de óbito, e vi que o nome da rua dele era Flor de Maio, falei: não tem como, esse é o nome do movimento, esse é o nome do momento que a gente tá eternizando”.
OFF
“A GENTE FEZ BASTANTE LIVE NA PANDEMIA COM O LÉO PRESENTE, E SEMPRE QUE TINHA ALGUM SHOW PERTO ELE COLAVA TAMBÉM. MAS EM 2022 A GENTE DECIDIU SE DEDICAR À TURNÊ DE 10 ANOS DO PRIMEIRO ÁLBUM, “SEM CORTESIA”. INCLUSIVE, FIZEMOS AA DATA DE SÃO PAULO NA AUDIO COM O MARECHAL E FOI MARAVILHOSO”.
Rodeado de amigos do rap, incluindo Criolo, SPVIC, Yago Oproprio e Nego Max, Neto estava na Audio (em São Paulo) prestes a apresentar o disco em público pela primeira vez. Antes de “Muhammad Ali” ecoar, acompanhado de um visual, o rapper de São José dos Campos agradeceu e pediu aplausos para o seu parceiro ao longo de décadas e ao seu pai, que também havia falecido quando finalizavam as produções.
“O disco começa com a morte do Léo e termina na morte do meu pai, sabe, mano? Perdi o meu pai recentemente quando a gente estava gravando a “Hey, Honey”, a música que eu fiz com o Léo, que tem caneta dele. Na sessão de estúdio, meu irmão liga, eu tirei o fone, tava eu, o Patrício Cid e o João Swe, produtores do disco. Daí meu irmão tava com a voz firme. Eu achei que era uma notícia boa, coloquei no viva voz, todo mundo ficou na expectativa, mas o bagulho foi louco. Depois que enterrei meu pai, terminei de colocar a segunda parte da voz, que era minha, tinha gravado a parte escrita pelo Léo. Não tinha coisa mais significativa naquele momento, sabe?”
Além de ser uma ode ao amigo, que lutava contra o agravamento de um transtorno mental crônico, a esquizofrenia, e partiu com apenas 31 anos, Neto diz que essas músicas são uma espécie de cura para si próprio. Também por isso decidiu não colocar a voz de Léo nas músicas, e sim usar algumas das composições que fizeram juntos (mesmo assim, não há composições creditadas a ele nas plataformas de streaming). Uma delas é a já citada “Hey, Honey”, que escreveram juntos em 2012. “A gente tinha 18 anos na época”, observa. “Eu senti que era importante colocar essa letra, que nunca tinha saído em nenhum trabalho”.
O MC revela que existem muitos materiais guardados que pretende soltar no futuro. “Estamos organizando da melhor maneira. A presença dele vai ser pra sempre, graças a Deus… a gente sempre produziu muito, tem muita coisa gravada, mas a tá organizando pra soltar da melhor maneira isso”. Agora, segundo ele, é um período para dar um respiro e fazer uma oferenda pra marcar essa troca de corpo.

A mudança é estendida a ele que afirma estar iniciando uma nova fase. “Quando o pai morre, você é quem vira o pai”, reflete. “Nunca tinha deixado a barba crescer, assumido minha barba, tá ligado? Sei lá, eu acho que é uma nova cara, um novo corpo, é a década dos 30 agora, né mano? Nova fase do Síntese, nova fase minha”. Inclusive, ele deixa isso explícito nas músicas “Funk e Amor”, “Gueto Gospel”, “Opera” e “Giramundo 2”, e na foto que ilustra a capa, a qual o mostra chorando. O registro espontâneo foi feito numa praia de Maricá, no Rio de Janeiro, durante a gravação de alguns videoclipes.
“Emoção e sensibilidade, às vezes são artigos de luxo na sociedade e no tempo que nós vivemos”. “E no rap também… a gente segura muito essa emoção, né? O Síntese sempre foi uma parada pra ser uma forma de expressão sem pudor de falar o que a gente sente e pensa, sem ligar pra nada?”
Foi isso que fez o Síntese ganhar relevância nacional. Faziam o que chamavam de rap de mensagem, por tratar de temas pouco abordados de uma forma poética. “Acho que também por isso até tenho São José (dos Campos) inteiro comigo, tenho minha família inteira comigo, tenho o Vale inteiro comigo. Todos os corações que se conectaram com a nossa luz aí no Brasil todo também”. E hoje, mesmo sem Leonardo no corpo físico, Neto pretende manter essa gênese. “Uma parada bem pura, falando desse do cotidiano, da vida, da quebrada, das pessoas, das perdas”.

