De fato a crítica de rap no Brasil morreu. Acompanhei de perto. Foi lenta, triste, dolorosa. Pouco a pouco, jornalistas, blogueiros, pesquisadores, estudiosos e aqueles que se dedicavam por completo ao quinto elemento da cultura hip hop decidiram parar. O esforço não estava compensando o estresse. Não tinham mais forças, ânimo nem investimento para se manter. Também porque MC’s, rappers, assessorias, RPs, managers e público nunca deram o devido valor para algo bem apurado. Quem fazia (e ainda faz, tipo eu) corria riscos: ser alvo de diss ruins, processo, xingamentos e até ameaças de agressão. Os que não pararam, decidiram amenizar o tom para evitar problemas.
Essa crítica começou a ficar debilitada, depois de tanto apanhar, na metade dos anos 2010 quando o rap se tornou a música mais consumida no mundo. Entrou no hype. Assim, os grandes veículos de comunicação e os que se dedicavam à música pop e indie, sem dar tanta atenção para o rap – a não ser quando era algo polêmico -, viram nele um potencial financeiro. Começaram a se envolver e pautar tudo que estava relacionado ao rap, mesmo sem vivenciar.
Porém, isso já era feito muito antes por pessoas apaixonadas pela cultura, seja no físico (revistas Pode Crê, Rap Brasil, Rap Nacional) ou digital (Bocada Forte, Per Raps, Rap Nacional, RND, Zona Suburbana e Noticiário Periférico). Quando a imprensa de massa e mídias gringas descoladas, como a Vice, começaram a dar visibilidade ao rap – por mero interesse comercial -, boa parte dos artistas, principalmente os que tinham mais entrada no mainstream, e seus RPs ignoraram quem já estava correndo com eles antes.
Isso aconteceu em vários níveis, de recusa a pedidos de entrevistas a boicotes em eventos, passando pela recusa de fazer um simples compartilhamento no Twitter. Um caso emblemático foi quando a Rap Shit fez uma crítica super aprofundada de um álbum do BK, e o mesmo apenas elogiou na DM. Porém, deu RT num texto raso do G1, que o agraciou com 5 (ou 10) estrelas. Estou bem longe de concordar com a forma de abordagem que a Rap Shit tinha, mas não ficavam no meio termo. Isso resultou em desgastes, até que o site morreu e quase todos os colaboradores deixaram de se envolver com o rap. Esse foi apenas 1 dos muitos casos. (Teve quem pediu para tirar entrevista do ar; que não entendeu o contexto do texto, mesmo este sendo positivo; e os que simplesmente ignoraram).
Hoje, obviamente, o número de quem escreve de forma séria e crítica diminui consideravelmente. Sou um desses que se mantém na resistência a serviço do hip hop. Aqueles que pularam na bala do rap só por causa da sua ascensão comercial, meteram o pé na mesma velocidade que chegaram. A crítica foi morta de morte matada pela fragilidade do ego dos “protagonistas” do rap nacional – sem generalização. Por isso, o que se lê e vê, principalmente, são reacts (pagos), vídeos e textos, em especial no X (ex-Twitter), sem embasamento e com muita “babação”.
O Don L tem razão quando diz (em entrevista à Folha) que álbuns ruins se sobrepõem aos bons no crivo dos influencers do rap e até de jornalistas sem vivência na cultura, na rua e na música, que divide tudo entre boom bap e trap. Essa falta de conhecimento só atrapalha e leva alguém a dizer num conhecido site pop que a Stéfanie é uma rapper novata. Porém, quem liga. Todos querem que o trabalho seja bem avaliado. Se não ganhar holofotes, o jeito é reclamar que “as páginas de rap” não deram atenção. Mas quando isso ocorre, fingem que não veem. Sempre tem um motivo para exigir algo, como se fossem os patrões e todos tivessem a obrigação de colocá-los no pedestal.
No resumo, o jornalismo musical no rap brasileiro dificilmente ressuscitará. Nem Jesus vai fazer esse milagre. Quem está na ativa, fazendo algo relevante, continua pois ama essa cultura. Não é por causa de dinheiro – porque não tem – nem X ou Y, mas para manter a história do rap/hip hop viva. É por isso que ninguém tem interesse de fazer críticas desrespeitosas ou de cunho pessoal, como existiam tempos atrás (ou a da imagem abaixo, que é sobre a música do saxofonista Kenny G, no documentário do próprio). Até quando, não se sabe. Por enquanto, vou levando do jeito que dá. Quando não fizer mais sentido, paro.


