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Maui: “O Melodia&Barulho representa também esse meu processo de fazer terapia e de identificar padrões, tanto os positivos quanto os negativos”

É essencialmente sobre a ideia de fazer duas coisas opostas, mas que se fundem numa coisa só.
Foto: Isa Costa

A voz suave, aguda, doce e marcante do Maui tem sido requisitada. De Ogoin & Linguni, passando por Picaretas de Fachada, Ruas Mc, Luccas Carlos, 2ZDinizz, Deekapz e BK, o cantor da Baixada Fluminense não desperdiçou nenhuma das oportunidades. Em algumas delas se destacou mais do aquele que o convidou. Mas depois de mostrar a que veio, ele se juntou aos amigos da Leigo Records para tirar do papel o álbum “Melodia&Barulho”. Neste, ele funde diferentes sonoridades para criar uma estética distinta. Mostra que existe a possibilidade de juntar texturas rítmicas diferentes, sem que nenhuma delas perca o DNA, desenvolvendo assim uma característica própria.

Seguir por esse caminho faz parte de uma movimentação que está acontecendo em diferentes partes do mundo, principalmente nas periferias, em que a identidade tem se tornado o objetivo principal. “Eu acho que a gente chegou muito nesse momento em que geral, de qualquer bairro no planeta, quando vai fazer um gênero musical, quer seja onde ele tenha nascido, vai se esforçar muito pra adicionar uma particularidade ali”, diz ele, reforçando que para isso foi necessário se encontrar consigo mesmo. “Eu precisei passar por esse processo. O encontro da minha individualidade com aquilo que é comum pra todo mundo”.

Encontrei Maui pessoalmente duas vezes em 2025. A primeira foi na Casa Natura Musical, onde participou do show de lançamento do álbum “Deekapz FM“, do Deekapz, o qual participa de “Vem Comigo”. E depois na audição de “Emicida Racional: Mesmas Cores & Mesmos Valores“, do Emicida. A promessa de uma conversa ficou no ar. Passados alguns meses, conversamos por videochamada, nas primeiras semanas de 2026, sobre a arquitetura de “Melodia&Barulho”. Mas não apenas isso.

 

“Melodia&Barulho” é um disco que tem muitas surpresas. Existe uma diversidade de ritmos e vertentes. Algumas músicas você acha que vai para um caminho e ela pega outro. De que forma o processo de produção foi desenvolvido?

Ótima pergunta. Foi difícil porque eu tive que entender o meu processo criativo primeiro. Eu sou um cara que tem muito apego pela identidade dos gêneros musicais que trabalho, tá ligado? Isso é muito bom, mas para o disco era meio ruim, porque a ideia era misturar. Por isso, tive muita dificuldade no início. Por exemplo… eu gosto muito de dancehall, então se o cara me mandar um beat de dancehall, eu quero ser o MC de dancehall. Isso me levava a fazer só [muito bem, graças a Deus, obrigado Senhor] aquele gênero normal. Eu tive que achar um jeito de entender como é que eu ia fazer misturas, criar esses encontros, que tipo, acontecia muito espontaneamente nos DJ sets que eu participo. Acontecia muito espontaneamente nas sessões de remix que eu fazia com os DJs e os outros produtores, mas ali na criação de fazer uma música do zero era mais difícil. Eu literalmente dividi o processo do disco em duas partes. Criei as músicas, primeiro focando no texto, na mensagem, na simbologia até da musicalidade que eu queria trazer. E depois que as músicas estavam prontas, falei: beleza, agora vamos mexer nelas de novo. E aí eu comecei a tentar procurar os pontos de encontro que elas tinham com outros gêneros. “Comemorar”… escrevi como um funk tabacaria, tipo de São Paulo, nessa vibe de a vitória chegou. E depois que a música estava pronta, pensei: isso aqui lembra muito afrobeats, tem muito a ver com o a galera está fazendo na Nigéria, como é que eu posso deixar isso aqui mais afrobeats? E aí fui trazendo essa camada por cima das músicas… e acho que eu também me preocupei muito com isso, de não parecer uma camada, ou de repente não pegar e transformar a música em parte A e parte B. Eu tomei o cuidado de fazer essa mistura ficar homogênea, mas ela precisou ser feita em partes.

Como que isso aconteceu?

Eu cheguei a pensar em fazer o disco como se fosse remix mesmo. Pegar, gravar as músicas e mandar para os produtores, com a liberdade deles, fazerem o que quiserem. Mas ia ficar muito solto, e eu tinha medo de perder um pouco o controle. Essa forma foi a mais interessante. O curioso é que eu não comuniquei isso para os produtores, porque fiquei com medo de influenciar a tomada de decisão deles. Então, foi muito legal ver a cara deles quando acharam que a gente tinha terminado o disco, e eu disse: (risadas) agora que a gente vai começar a mexer. E acabou que deu certo. Eu gostei de trabalhar desse jeito. Acredito que vou fazer mais coisas assim. Óbvio, sempre procurando outros objetivos que não só a mistura de gêneros. Esse foi o processo que eu usei pra conseguir chegar nessas misturas de um jeito equilibrado, de um jeito legal. Também foi importante a vivência, de estar na pista de DJ toda semana, fazer parte de um coletivo que tem muitos DJs, que é a Leigo Records, que são pessoas que basicamente estão fazendo isso o tempo inteiro, misturando gêneros de uma forma legal, de uma forma homogênea pra não quebrar a pista. Entender a mentalidade do DJ me ajudou também a criar essas misturas de um jeito legal.

Estar com os DJs ajuda porque eles conhecem a pista e sabem a temperatura daquele ambiente e do que as pessoas estão esperando. Essa proximidade também te ajudou a definir a estética?

Demais, demais. Hoje em dia eu não trabalho com nenhum produtor que não tenha sido DJ ou que seja ativamente DJ. Pensando no disco, as músicas que têm produtores que não são DJs, eu juntei com produtores que são DJs. Isso se tornou algo essencial até para o meu modelo de negócio. Tipo, eu nunca busquei ser um artista viral, que tipo acorda um dia e tem milhões na parada. Mas eu também preciso me sustentar, preciso fazer show e que minha música seja funcional. Então, pra mim, é essencial estar perto do DJ, que é uma garantia de que minha música vai funcionar na pista, que vai funcionar pra diversos tipos de público e pra outros DJs tocarem também, que é uma forma de divulgar meu trabalho. Dinheiro nenhum do mundo paga isso. Você não consegue obrigar um monte de DJ a tocar sua música, ela precisa efetivamente ser funcional. Então se tornou essencial para o Maui e, graças a Deus, eu faço parte dessa comunidade. Sou muito abraçado e querido pelos DJs que conheço e que estão ao meu redor, principalmente do meu coletivo que é a Leigo, que eu modéstia parte tem os melhores DJs do Brasil. Tem a Jacquelone, cria do (bairro) Olavo Bilac, que ganhou um bagulho mundial, foi lá pra Berlim tocar na Roar Fest… esses são pontos de encontro com pessoas, que são grandiosas na música, mas que via de regra, na indústria, não são tão valorizadas assim, faz com que eu consiga estar em contato com uma DJ que tem uma pesquisa que passa pelo planeta terra inteiro, mas que é cria aqui do Olavo Bilac em Duque de Caxias, que entende as neuroses que eu passo aqui, tá ligado? E quando a gente fala de produtor, quando a gente fala de… até de MCs, é muito difícil ter alguém que tenha efetivamente essa amplitude na sua pesquisa e na sua criação que é o lugar que os DJs acabam caindo. Isso é ruim, obviamente, para a nossa vida financeira e para a vida financeira dos meus amigos, mas permite que a gente também possa acessar um lugar artístico que eu acho muito precioso, que é valioso.

Mas é o diferencial também de não seguir uma receita, de tentar fazer uma coisa diferente… não totalmente diferente, mas que saia do convencional e geral fica: essa parada aqui é boa, vamos tocar isso, vamos ouvir isso aqui porque é diferente. Ter essa visão também é importante dentro da indústria, para também não ficar sempre seguindo um método. E na minha visão, a Leigo é bem fora da curva nesse sentido, de criar as próprias regras e fazer acontecer.

Cara, eu concordo, mas eu tenho uma leitura disso que acho que é o oposto. O de seguir a receita de verdade. Eu acho que quando a galera, até outros artistas, a mídia, todo mundo, enfim, pensa em seguir a receita, pensam em reproduzir conteúdo. Sendo que a arte é mais sobre método do que sobre conteúdo. Na Leigo a gente repete bastante a receita, mas a gente não se apega ao recheio. Tipo assim: como fazer uma música dançante? Fazer uma música dançante tem uma receita, mas aí você não pode se apegar ao conteúdo. Ela não tem que ser funk estilo 2015, porque o funk estilo 2015 era de 2015, agora é outro. A gente vai mudando os ingredientes, mas tem uma receita que a gente segue, que gira em torno disso que eu falei, assim, de tentar ser essa intersecção entre o que é muito rua, o que tá muito fresh (fresco) acontecendo aqui em Duques Caxias com uma pesquisa que compreende o mundo. A gente escuta muita música, mané, chega até ser insuportável, porque a gente quer ouvir toda a música do mundo ao mesmo tempo. A gente acha que a nossa matemática, a nossa equação, só faz sentido dessa forma, sabe? É X, que é música da área, que é o som dos nossos amigos, mais Y, que é a música da juventude negra no mundo… o que a juventude negra no mundo tá fazendo em comum? O que tem em comum entre os moleques de Atlanta, a rapaziada da Nigéria, a rapaziada da Inglaterra e a rapaziada do Brasil? Essa é a equação que fazemos pra poder chegar na musicalidade que a gente tem. É uma receita, mas a gente tenta seguir com muito carinho, muito respeito e não só, tipo, fórmula. Realmente tentamos respeitar a receita do que é fazer uma música de pista, uma música divertida, uma música romântica, uma música triste. A gente gosta de ver dessa forma.

 

O DISCO RETRATA UM PERÍODO DA MINHA VIDA ONDE EU TINHA PAVOR DE FICAR QUIETO, PORQUE ISSO ERA A OBRIGAÇÃO DE ENFRENTAR TODAS AS MINHAS NEUROSES DE UM JEITO MUITO BRUSCO, MUITO DURO,  EM QUE EU TAVA SEMPRE PROCURANDO AGITAÇÃO, ELEMENTOS, TEXTURAS E COISAS, O LUGAR PRA IR, ESQUINA, AMIGOS E NAMOROS. 

 

Foto: Isa Costa

 

O lance da receita no caso é de seguir um modelo específico que pode levar ao sucesso? Ter aquilo fechado. Já vocês têm uma pimentinha ali, um tempero que dá aquele toque diferente, né? Tipo, a galera fala: pô, já comi essa comida, mas esse tempero aqui tá foda demais. Entende?

É maneiro esse comentário do tempero, porque, assim, a Leigo Records é um coletivo muito familiar. A gente tá sempre muito na casa um dos outros. E tipo, tanto a mãe do Antconstantino, que é o nosso diretor criativo, vamos colocar assim, quanto a mãe do Diogo, que é o nosso produtor executivo, ou seja, eles são nossos cabeças aqui, a mãe dos dois são cozinheiras e são baianas. A gente brinca muito com essa ideia do tempero no nosso dia a dia mesmo, na produção musical, porque elas estão lembrando a gente disso o tempo inteiro. Geral come a comida e fala: hum… esse tempero aqui tá bolado, eu quero um tempero assim na minha música (risadas). E se a Leigo tem um tempero é graças à tia Lilian Baiana e à tia Helena Baiana também, elas amassam.

Você falou de conectar o que a Juventude Negra está ouvindo e os sons que fazem essas ligações… a música brasileira periférica está bombando lá fora e muitas vezes a gente não valoriza aqui. Mas o que você acha que está fazendo essa conexão chegar e a gente se conectar com vários outros estilos do mundo?

Eu sinto que, enquanto movimento, a juventude do planeta terra todo está prezando pela identidade. Eu acho que a gente chegou muito nesse momento em que geral, de qualquer bairro no planeta, quando vai fazer um gênero musical, quer seja onde ele tenha nascido, vai se esforçar muito pra adicionar uma particularidade ali. No nosso rolê que abrange um pouco mais a música eletrônica, a gente percebe isso muito até no nome dos gêneros. Os gêneros se chamam como as cidades, como os bairros. Você tem o Jersey Club, você tem o Baltimore Club, você tem o Memphis Rap, você tem o Chicago Drill. E eu percebo isso aqui no Brasil também. Tipo, cada região… São Paulo tá valorizando cada vez mais o seu jeito de fazer a música, tipo… você pega a bruxaria… lógico, ela toca no Brasil todo. Mas ela é um sucesso estrondoso em São Paulo e a galera levanta muito essa bandeira. Eu sinto que com a internet, criou-se bolhas sociais e também uma geração artística que percebeu que o importante para você ser relevante artisticamente não é fazer uma música que abrange o mundo inteiro. Tem que fazer uma música que é muito identitária, muito característica de algum grupo, seja esse grupo demarcado por um estilo, que eu sinto muito na galera do Trap Underground de São Paulo. Hoje em dia principalmente, eles se encontram pelo jeito de produzir, pelo jeito de se vestir… é até um lance que o Matuê explorou agora um pouco no último disco dele (“Xtranho”), mas também pela sonoridade, que é uma parada que eu vejo mais aqui no Rio, que tipo o moleque que faz questão de ter uma musicalidade que se assemelha muito entre si, porque todo mundo quer ser visto como cara carimbo daquele movimento. Até meus amigos aqui nos enxergamos como um movimento no mundo. Eu acho isso muito legal, porque cria métricas um pouco mais palpáveis e realistas para artistas jovens. Tipo, eu lembro de quando comecei, a gente tinha essa ideia de que você só canonizava quando você virava um bagulho muito gigante. E hoje em dia eu tenho colegas mais novos que, tipo, são muito felizes, conseguem construir uma carreira bem legal, sendo um artista de (Duque de) Caxias, reconhecido pelas pessoas aqui, como artista daqui, que faz um som daqui. Eu gosto desse movimento, não sei até quando ele vai durar, porque tudo é cíclico, né? Daqui a pouco a gente volta pra era dos superstars, mas eu tô gostando muito de ver como que o próprio mainstream tá tendo que se dobrar um pouquinho aos movimentos undergrounds, porque só esses moleques, só essas mina, sabem fazer o som com esse jeito, essa pegada, com essa característica. É o equivalente a fazer o Passinho do Jamal. Tipo, o cara pode tentar aprender, mas se ele não tiver o molho, mano, ele nunca vai fazer igual os menor lá do Norte e do Nordeste.

E na Baixada tem uma sonoridade diferente do Rio de Janeiro, por exemplo…

Sim, com certeza.

Isso também reflete no título do disco?

A fonte primária dessa ideia, desse conceito, veio de quando eu, muito novo, descobri o termo cidade dormitório para se atribuir a nossa região da Baixada Fluminense. Eu era novinho e achei uma palavra engraçada: cidade dormitório? Tá chamando nós de preguiçosos, porque a gente só dorme? (risadas) E aí me explicaram: é que vocês só voltam pra casa pra dormir. Caralho, aquilo me cortou igual faca, mano, porque eu lembrei de todas as vezes que minha mãe trabalhava em casa de família no Rio e eu só via ela na hora de dormir. E aí eu comecei a me interessar por esse assunto. Uma ilustração que veio pra mim, conversando com pessoas mais inteligentes, é o movimento de pêndulo, né? Você vai e volta, vai e volta. E, tipo, isso não é duas vidas, sabe? Um pêndulo, ele não faz duas coisas, ele faz uma coisa só, só que é pra lados opostos, né? Está indo pra lados opostos constantemente. Porém, aquele movimento como um todo que ele tá fazendo, chamado de pêndulo, é essencialmente um movimento de ambos os lados. E nessa parada a minha mente foi a milhão. Lógico que, tipo assim, eu acho que pautei principalmente na parte musical, porque isso é muito importante pra mim, a pesquisa musical, a sonoridade, a textura, tipo… eu, antes de tudo, sou músico, tá ligado? O barulho, a sonoridade ali pra mim é a primeira coisa que vem. O Melodia&Barulho fala muito sobre o encontro do R&B, do soul, que é a minha casa, com as agressividades, as coisas mais pra frente que eu conheci através da minha vida adulta, desde lá do metalcore até agora com a música eletrônica. O próprio trap, na época que chegou, que eu era novinho, era uma música muito barulhenta… é primeiro isso, musicalmente, mas é sobre o movimento de pêndulo, de ser alguém que tá na Baixada e aí vai lá para o Rio e é obrigado a ver as pessoas vivendo em bairros mais arborizados, mais refrescantes, com praia, com serviços que funcionam. E aí eu nem falo dos serviços de playboy. É dos serviços públicos mesmo, porque depois você faz o movimento de pêndulo de voltar pra um lugar onde a escassez é a regra, é muito difícil você não tirar alguma conclusão consciente ou inconsciente disso. Infelizmente, muitos dos meus pares acabam achando conclusões inconscientes e buscam, tipo, em simbologias, essa liberdade do movimento de pêndulo. O cara acha que se ele tiver em Caxias, mas se ele tiver um carrão, se tiver uma parada foda, ou até mesmo se ele sair de Caxias para ir para esse lugar, se ele parar o movimento de pêndulo de alguma forma, ele vai sair desse sentimento. E o disco é um convite para pensar que se libertar dessa sensação não tá em coisas estruturais. Tipo, é uma resolução muito mais de você com você mesmo, e você com os seus espaços, gira muito mais em torno da ideia de terapia. Nesse primeiro momento, eu quis trazer o assunto pra esse lugar, mas tudo gira em torno dessa ideia, mano, de morar na Baixada, e ser uma cidade dormitório. De fomentar a cultura que é conhecida como cultura do Rio de Janeiro, mas que na verdade é a cultura da Baixada Fluminense. Os funk que são conhecidos como funk carioca, em maioria esmagadora são funks feitos em Nilópolis, em Duque de Caxias… e a gente nunca recebe esse crédito. A gente só vai lá, faz e volta. Então, o Melodia&Barulho é essencialmente sobre a ideia de fazer duas coisas opostas, mas que se fundem numa coisa só, que é a nossa vida.

 

Foto: Isa Costa

 

E nessa junção de melodia e barulho tem algum silêncio? Gosta do silêncio?

O Maui gosta do silêncio. Mas no geral, continuando na vibe do conceito da parada, o silêncio nesse movimento nem sempre significa coisas positivas. Raramente esse silêncio vem de um lugar de tipo calma e de espaço para alguma coisa. Ele vem da falta mesmo. Então, existe uma busca ativa para evitar o silêncio. Tanto que este é o costume aqui da área, não sei como que é nas quebradinhas de São Paulo… mano, tá dentro de casa sem fazer nada? Vai para a rua, vai para a esquina. Aí para um cria, tu troca uma ideia, você distrai a tua cabeça da neurose. E se você tá em casa sem fazer nada, provavelmente você está desempregado, ou você tá sem estudar, ou você tá com alguma coisa que tá atrapalhando a tua vida ali. Dentro do conceito do disco, os silêncios representam coisas meio angustiantes, meio negativas. A gente tomou esse cuidado de trazer isso bem sutil, mas também eu não quis… não é por performar a palavra, mas sabe… deixar muito poético e acabar dando muita atenção pra algo que realmente eu vejo com um olhar meio pejorativo. Hoje em dia, ficando mais velho, eu gosto mais de silêncio, estar no silêncio, de estar quietinho, mas o disco retrata um período da minha vida onde eu tinha pavor de ficar quieto, porque isso era a obrigação de enfrentar toda as minhas neuroses de um jeito muito brusco, muito duro, em que eu tava sempre procurando agitação, elementos, texturas e coisas, o lugar pra ir, esquina, amigos e namoros. Por isso, tentei representar isso um pouco no disco, por mais que ele também acabe falando do silêncio sem falar dele, Tipo, ele fica ali como uma dúvida, pairando. Acho que no meio do disco a gente traz pra uma coisa mais calma, mas ainda assim você vê que não é silêncio, até o nosso processo de autocura, autocuidado, isso nunca vai vir numa linearidade, na paz. O cara vai parar a vida, a mina vai parar a vida pra conseguir fazer uma terapia e se resolver. Isso sempre vem no meio de um swing, de um sacudir. E foi uma preocupação que eu tive. Falei: mano, eu quero que as músicas lentas do disco ainda dê vontade de dançar, porque vai representar essa vibe de: mano, eu tô aqui pensando, mas eu não posso parar, tá ligado? Tô sacudindo.

É aquela parada, o silêncio às vezes traz angústia e a gente fica com os nossos pensamentos que vêm em momentos complexos. Se a gente deixar, aquilo ali vai comendo a mente, então você tem que sair, tem que fazer as coisas pra mente trabalhar e o corpo se mexer né? É aquele conceito do Afrobeat: fazer a mente pensar e o corpo dançar. Não dá pra desassociar as duas coisas.

Exato, é melodia e barulho.

Eu queria entender também o seu processo de composição. É uma pergunta que eu sempre gosto de fazer porque cada compositor traz uma coisa diferente e cada um tem seu processo. Como surgem suas canções?

Hoje, graças a Deus, eu tenho várias formas de escrever. Eu escolhi escrever as músicas do disco seguindo uma pegada, mas eu consigo também fazer outras coisas e pretendo explorar elas mais pra frente. Pensando até na minha vida pessoal, o Melodia&Barulho representa também esse meu processo de fazer terapia e de identificar padrões, tanto os positivos quanto os negativos. E as criações, as inspirações, vieram de identificar padrões em mim, mas que também eram comuns à geração, ao grupo. Ao mesmo tempo que tô falando de mim, ali, tô falando de experiências pessoais. E não quis me ater a nada que fosse excepcionalmente pessoal, porque o meu ponto ali, de narrativa, era esse lugar onde todo mundo se encontra e ninguém fala sobre. Tipo, no processo de terapia, eu comecei a identificar padrões em mim, aí eu ficava: (enfatiza) meu Deus, eu sou um monstro! Aí o psicólogo: “não, mano! Isso aí todo mundo da tua idade, todo mundo da tua geração tá passando, é geracional”. E eu ficava pensando: por que a gente não conversa sobre esta porra? Eu fiz esse mix assim de tipo, trazer a carga emocional da minha experiência pessoal, então tipo tudo que eu tinha que escrever que era mais simbólico, que era pra trazer realmente uma emoção, eu busquei nas minhas experiências, nas coisas que eu passei, enfim. Mas eu tentava também as ambientações, eu gostei muito de conversar com as pessoas na hora de ambientar as paradas. Por exemplo, “Quero Mais“, que é uma música muito visual… sempre fui agitado, sempre foi um moleque que sai, mas eu não sou um cara tanto de tipo: ah, vou sair, vou beber, vou fumar, vou sarrar, essas paradas. Tipo, eu tenho o meu jeito de sair, mas como o meu interesse ali era demonstrar uma coisa que é a média da minha rapaziada, das pessoas, que eu convivo aqui na favela, e pá, eu troquei ideia com o moleque. Na parte de emoção eu me apeguei às paradas que eu vivi, que eu passei. Mas nas partes que eu queria construir imagens, fazer a pessoa ambientar na música, eu troquei a ideia com a rapaziada ao redor pra poder fazer uma coisa que atingisse verdadeiramente todo mundo, tentando fugir dessas experiências pessoais. Outra parte que eu considero que acabou sendo da composição também foi que como eu fiz o disco em duas partes, eu escrevi, às vezes, letras que no disco tão, sei lá, em funk, eu escrevi em outro gênero completamente diferente. Então eu sinto que também foi parte da composição esse movimento de encaixar a letra em novas levadas, em novos beats, fazer a mistura. A exemplo, “Lovebombing“… foi uma música que eu escrevi no início, na primeira parte do disco, pra ser um R&B e summer walking, voz e guitarra. E eu compus no violão, tipo, acordes bonitos, com sétimas, com nonas. E aí, beleza, quando a gente acabou ela, eu falei: já é, vamos sacudir essa música, vamos fazer ela virar melodia e barulho. E a gente acabou caindo no funk 130, numa determinada textura que é muito aqui da área também. E aí, esse processo de pegar uma música que foi feita no R&B, num voz e violão, numa carga emocional, num jeito, e traduzir ela para o funk, eu considero também que foi uma parte da composição que fez com que as letras do disco tivessem esse granulado. Elas são meio agridoces, entendeu? Então, tipo, pra eu chegar nesse resultado, eu precisei passar por esse processo de encontro, é sempre um processo de encontro. O encontro da minha individualidade com aquilo que é comum pra todo mundo, o encontro de um gênero musical, de uma letra escrita num gênero musical cantada num outro gênero. Eu gostei muito e quero fazer mais singles assim, nessa vibe, porque nessa brincadeira de fórmula é uma fórmula que funciona muito bem, e acho que vai continuar funcionando. Mas eu também quero explorar outros tipos de composição, mais calmos, né? Conforme eu tô ficando mais velho, eu tô ficando mais calmo. Então eu quero ter mais calma, eu quero poder falar coisas que eu quiser, independente daquilo ser uma verdade pra todo mundo ou não, sabe? Eu quero poder fazer uma composição um pouco mais calma sem essas ansiedades todas.

Você tem participado de diversos trabalhos, sendo um dos mais requisitados nesse último ano. No processo de escrita é mais difícil compor para você ou escrever para os artistas que você colabora?

Porra, compor pra mim é muito pior, porque tipo assim, quando o cara manda uma parada, independente de como seja, eu já tenho uma coisa ali a me ancorar. Mesmo que eu não consiga de repente entender a brisa da pessoa 100%, eu tenho a minha visão do que ele cantou pra poder ser uma base pro que eu vou construir. E aí tanto melodicamente, como eu falei, eu sou um cara que no natural, eu fico muito nessa de respeitar o gênero musical que eu tô cantando, ou respeitar o artista com quem eu tô participando. Isso me dá ferramentas, né? Me dá critérios. Se eu escrevo uma frase, eu consigo decidir se ela é boa ou se ela é ruim pensando no artista que eu tô colaborando, no type beat, enfim, no gênero… quem é o público daquele artista? Isso tudo me ajuda. Então acaba que fui bem melhor. Quando é pra mim, o critério é eu. Aí complica. O que que eu quero falar? (risadas) Por mais que eu saiba o que eu quero falar, como eu quero falar? Ah, eu vou usar essa palavra aqui, eu vou ser mais duro, não, vou ser mais maleável, usar palavras maiores, menores, enfim. Eu vou fazer um flow x… é muito mais difícil, porque como tá aberto, eu posso tomar qualquer caminho, né? Teoricamente eu posso fazer qualquer coisa, a música é minha. Isso é muito mais complicado. Eu admito que no Melodia eu lidei menos com esse conflito, porque é um disco feito com muitas mãos e com minha comunidade artística toda nele… muitas vezes o produtor chegava com um beat, já com uma intenção, já com uma ideia, já com uma vibe, já com alguma associação, que me dava um chão legal pra trabalhar. Então, eu agradeço muito ao CL, ao Taleko, que são as produções do disco como um todo e os beatmakers que vieram e tiveram esse cuidado. Uma galera que me escuta muito, graças a Deus e quando chega aquela proposta pra mim, é personalizada. Os caras não me mandam tipo 30 beats e eu escolho um. Eles já chegam assim: mano, eu fiz esse beat aqui pra você, porque eu acho que você vai mandar muito bem. Isso me ajuda. Mas teve músicas que eu tive que partir do completo zero, e elas são bem desafiadoras. São as músicas que eu levo mais tempo. Eu tento sempre me apegar nos critérios para poder tornar o processo mais fácil, mas fazer os feats acaba funcionando melhor. E aí até abrindo aqui, acho que é até por isso que os feats viralizam mais, os feats vão mais longe. Lógico que tem o quesito de colaborar com artistas que levam suas carreiras muito a sério, mas eu acho que fica mais fácil, mais palatável de entender o que eu tô fazendo porque existe uma âncora muito clara ali na qual eu tô me apoiando. E no meu trabalho, às vezes, pode ficar confuso, porque é só minha cabeça. Minha cabeça é um vídeo igual um cachorrinho correndo atrás do próprio rabo, assim… (imita o cachorrinho latindo e ri).

 

Foto: Isa Costa

 

Tem um perfeccionismo aí?

Existe um perfeccionismo, mas que foge da ideia de execução. É um perfeccionismo nesse lance de tipo, mano: de todas as opções que eu tinha pra escolher pra esse momento da música, eu realmente escolhi a melhor? E aí eu só sei disso se eu testar tudo. Não é um perfeccionismo no sentido de soar perfeito, mas de dar aquele tiro certeiro. Tipo, pô, de todas as frases que eu podia falar agora no minuto um e três, essa é a melhor frase, é o melhor jeito de falar isso? E aí eu fico nessa neurose, é esse tipo de perfeccionismo. Mas eu já entendi, conforme agora eu tô conhecendo e lidando com cada vez mais gente da indústria, que a gente nunca termina uma música, a gente desiste dela (risadas).

Precisa soltar o filho, O filho você tem que soltar pro mundo.

Pro mundo. E eu tô tentando criar a ideia também de resolver na próxima, assim, pro meu trabalho também, para as pessoas conseguirem perceber a evolução. Porque às vezes eu fico batendo cabeça aqui sozinho dentro do estúdio, eu tiro oportunidade das pessoas acompanharem a minha carreira verdadeiramente. Então eu tenho tido essa vibe. Se eu faço uma parada e eu acho que ela poderia ser melhor, aí eu faço outra música melhor com aquilo, entende? E aí as pessoas conseguem falar caraca, o Maui tá evoluindo. O bagulho tá andando”. Eu também tô tentando criar essa mentalidade, tanto que este ano pretendo lançar muita coisa. Quero fazer muitos lançamentos, igual o trap, igual o Future em 2013, 25 mixtapes. Eu quero soltar os filhos, ver o que as pessoas acham, mostrar pra elas minhas evoluções, sentir um termômetro,

No conceito visual tem o dancehall em primeiro plano, mas tem muita coisa envolvida. Como ele foi pensado?

Cara, então, eu decidi lá atrás, quando fui fazer esse disco, que eu não ia matar um lado meu pra valorizar um outro, tá ligado? Por isso que o disco tem tantos gêneros. Para além de uma estratégia, óbvio, é também uma redenção de tipo: mano, eu gosto de tudo isso, eu não quero ter que escolher um disso pra fazer. E na parte visual, eu tentei traduzir essa mesma vibe, de não negligenciar nenhum dos meus universos na representação visual desse disco. Mas ser justo, essa é a palavra, ser justo, trazer as coisas na proporção que elas realmente têm dentro da minha vida e dentro do meu trabalho. E aí surge o reggae como grande pano de fundo disso tudo que eu faço. Hoje eu entendo que toda a musicalidade que eu exploro e metade do mundo explora, veio da Jamaica, veio dessa cultura que desenvolveu também o dancehall e tal, mas que lá no início era só reggae. Até o próprio hip hop, se a gente for pegar a ideia de festa de rua, o Kool Herk é um cara jamaicano… então isso se aplica no hip hop, se aplica no funk, que é ideia de festa de rua também, o sound system. Aí você vai pra Europa, o grime, o garage, reggae também. Nigéria, afrobeats, tem um monte de reggae ali. Hoje, graças à influência do KBrum e do Jamaicaxias, que é um coletivo que eu sou fã e estou sempre frequentando, eu entendi que o reggae era a base de tudo. Por isso que eu trago como a cor principal, o fundo dessa valorização de onde tudo veio, mas na frente disso se organizam várias vertentes. E aí eu precisava de uma imagem que desse conta dessa ideia de ter um fundo claro, um fundo bem marcado, mas uma camada que permita coisas assim. E nessa ideia de soar contemporâneo, de olhar em volta, ver o que os meus pares estão fazendo, eu caí no Crialismo, né, que é o jeito que gente chama esse movimento de vários cria de favela pintando quadros, do seu jeito, com a sua linguagem. E a gente teve a exposição do funk aqui no Rio aqui nos últimos anos (que agora está em São Paulo), né, enquanto eu tava fazendo o disco. Me influenciou muito. Então direto eu tava indo lá ver os quadros de pessoas que eu conhecia, mano. Tipo, tem o Edu (Ribeiro), que é um cria aqui de Caxias, Nova Campina. Vejo o Edu em batalha de rima desde novo. E agora o moleque tá expondo pro mundo, um dos maiores museus do Rio de Janeiro, sabe? Isso foi muito melodia e barulho pra mim. E era um tipo de arte que me permitia trazer esses lances de camadas. Então a gente fez aquela capa bem legal, que tem o SoundSystem no fundo, que é a Jamaica, e tem ali as tribos: têm os roqueiros, têm os funkeiros, tem a galera da dança, tem a galera da bebida. Tá todo mundo ali na frente. E também escolhi fazer todos os visuais nesse mesmo ambiente pra gente poder explorar a parada. Eu acho que eu prefiro fazer uma coisa muito bem feita do que fazer dez, mais ou menos. E aí, assim a gente conseguiu trazer. Eu tive a ajuda de gênios, que eu acho, da nova geração, pessoas que cada vez mais vocês vão ver o nome aparecer em fichas técnicas gigantescas, mas que eu tenho o prazer de ser amigo desde muito novo. A Veneno Tropical assina direção de arte, a mina lá do Rio, que mora em BH, e tá sacudindo tudo em Belo Horizonte no que diz respeito à identidade visual. Tem o Bernardo Lobo, que é um cria aqui de Caxias também, que com 13, 14 anos, o moleque estava fazendo coisa para o início da Pineapple, do que foi a Golden Era da Pineapple. E hoje em dia, trampa comigo como diretor de marca, porque gosta muito de mim. E tudo isso sobre o guarda-chuva do Herbert Cardoso, que é meu irmão de vida, assim, meu amigo, que… o cara que, tipo, proporcionou que eu tivesse uma carreira, não porque era um mano que injetou dinheiro, nada do tipo, mas é porque é o meu amigo. É o cara que me suporta, me tolera, me ajuda. E é um grandíssimo diretor audiovisual, é… dirige tudo meu, tudo meu de imagem, ele que tá lá dando os sims e os nãos, e conhece minha cabeça tão profundamente que consegue me ajudar a chegar nesses resultados. Então, a coletividade com a forma que foi construída foi muito importante e essencial pra ser algo tão certeiro. Se fosse eu sozinho, com certeza, ia ficar uma merda. Mas como tem essa galera que ama muito o que faz, tanto quanto eu amo fazer música e falar com pessoas, a gente conseguiu chegar nessa identidade visual bolada, bomboclástica.

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