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Dudu: “não tem como falar que eu não sou romântico”

Não é o último nem o primeiro.
Foto: Divulgação Som Livre

Ninguém deseja ser considerado o cara errado. O próprio Dudu diz na música que intitula seu terceiro álbum, “O CARA ERRADO” (comigo é melhor), que ele não é essa pessoa. Mas também abre brechas para que qualquer um seja. Não existe uma idealização romântica nesse quesito. Tudo envolve conflito, falhas, imaturidade, aprendizado, emoção, humanidade. É sobre essa complexidade que ele explica nesta conversa que tivemos. Mas não somente isso.

O MC, que neste disco mais canta do que rima, fala de sua experiência na Colômbia, arte, inspirações. Expõe sua visão crítica sobre o mercado da música. E, assim, é um dos mais críticos, apesar de não explicitar em suas letras. Também romântico. Mas não é o último nem o primeiro.

“A gente só consome e fala o que puder. A gente só produz os samples que puder”, observa. “A arte não é mais revolucionária nem provocativa. A arte é plagiada. A arte é um branding.. A gente faz porque tem que provocar algo. Ela não é feita com a intenção de criar conforto ou com a intenção de criar divisão. Não existe mais um ponto zero da arte. Hoje, se você não for inteligente para saber se posicionar, você simplesmente não trabalha”.

Fiquei curioso para saber quem é o cara errado.

O cara errado na real é uma junção de vários. Ele narra a perspectiva de caras errados. Seja o cara no momento errado, seja o cara com um comportamento errado, o cara errado na hora certa. É uma coletânea de histórias cotidianas que leva a gente a esse pensamento sobre o que de fato é ser o cara errado. É aquele que dá atenção demais? É o que dá menos atenção? Tipo assim, eu tentei englobar todos os tipos que eu conheço e o que eu já fui algum dia.

Mas nessa música que intitula o disco, qual é a visão que você quer passar?

É a parada de falar que esse cara que tem vários erros, e também acertos, é um ser humano. Então, na música “O Cara Errado”, eu tentei trazer uma coisa até meio contrária. Porque essa é a única música do disco em que eu tô defendendo a ideia de que eu não sou o cara errado. Ela trás esse ponto mais firme de uma pessoa mais intensa, que ama muito, que tá ali pela mina para o que der e vier. Ele tá o tempo todo tentando se provar que não é o cara errado, tá ligado? Cada música leva a gente para um universo, mas essa especificamente vai na contramão de tudo que o álbum fala. É um cara tentando provar não ser errado.

E vai muito para o lado do romantismo. Por que decidiu fazer assim?”

Desde o início eu queria fazer um disco com essa temática. Tipo assim, não no pensamento de ser comercial, mas sim pelo estilo mesmo. Eu queria trazer algumas referências que eu já estava utilizando no meu trampo, que eram coisas mais latinas e músicas (negras) mais clássicas, digamos assim. Aí acabou que depois que eu tive acesso a mais coisas, eu pensei em puxar um pouco para o lado da semântica. Eu queria fazer algo musical, mas ao mesmo tempo eu queria fazer algo falando sobre amor, mas indo mais para o lado do romantismo mesmo. Eu queria fazer uma arte que parecesse uma peça teatral. Criar um bagulho bem íntimo que as pessoas pudessem se sentir parte daquilo e criar a própria narrativa naquele ambiente. Gosto muito de fazer uma música completa, no sentido de que as pessoas escutem, assistam um clipe, observem o cenário e se vejam naquela situação. A construção do disco veio disso. São músicas mais românticas em estilos diferentes. Vem um pouco de querer trazer esse poder para o ouvinte, observando situações cotidianas, que também correspondam com situações únicas que as pessoas vivem.

Você se considera romântico?

Eu acho que no extremo da palavra, com certeza. Eu sou poeta, músico, artista, compositor… não tem como eu falar que não sou romântico. Eu vivo romantizando todo tipo de coisa à minha volta. O Cara Errado é justamente isso. Sou eu romantizando e trazendo alguns pontos de várias questões do dia-a-dia.

Essas músicas trazem fatos do que você viveu ou são apenas a visão do poeta?

É exatamente isso. O eu lírico é o poeta 100%, porque tem coisas que eu transformei, desde relações de amizade, a histórias que ouvi e coisas que eu vejo. Tipo assim, é uma coletânea de sentimentos, que eu tentei ao máximo resumir. Mas tem um pouco de tudo.

Observo que as rimas estão ali, o rap também, mas nesse álbum você canta bastante.

Eu consumo muitas coisas, eu produzo muitas coisas, mas acaba que é aquilo: o público tem acesso a um terço do que a gente faz. Porém, desta vez eu tentei trazer minha versão mais musical que a galera já teve acesso com algumas músicas como “Te Observando” e “Poesia Acústica”. Como a galera se apegou, se tornaram virais e abriram espaço para atingir um outro público. Tem sempre cobranças do tipo, mas é algo que também sinto necessidade como artista. Eu sou muito fã de R&B e sempre tive isso em mim. Não me sinto limitado apenas ao rap. Acho que é, como eu já apontei em outras situações: eu sou um rapper fazendo qualquer coisa que eu me proponho a fazer. Por isso eu busquei mostrar mais esse lado do cantor, do compositor, mas ainda assim, não que eu tenha rimado menos ou algo assim, é porque a entrega culminou nisso. Tipo, de tantos pontos que eu tentei chegar ali, tanto com as minhas referências do rap, quanto as referências musicais, acabou saindo esse disco mais cantado, que é mais tranquilo, mais calmo de escutar. Não tem muita barra porque pensei em fazer músicas nesse estilo para ser algo mais vívido.

 

“EU SOU UM RAPPER FAZENDO QUALQUER COISA QUE EU ME PROPONHO FAZER”.

 

Isso surgiu naturalmente ou já tinha ideia de fazer algo assim?

De certa forma, surgiu naturalmente. Eu gosto muito de muitas coisas, de muitos estilos. Sempre estou trabalhando em coisas variadas. Mas quando eu sento para fazer um disco, tento trazer todas essas relações, todas essas referências. Tento expor isso de uma maneira em que não soe repetitivo ou retroativo. Sei lá, não vou pegar um monte de sample das músicas que eu estava escutando. Eu tento ao máximo trazer a minha energia. É mais uma tradução do que vejo dessa ideia de sonoridade andar de mãos dadas com a composição. Ao mesmo tempo que surgiu de uma forma natural, porque eu tô sempre plantando isso, sempre buscando novos caminhos na música, é algo que eu tenho em mente assim como eu tenho em mente trabalhar com vários outros estilos, produzir discos maiores ou até com mais pompa talvez.

Quais foram suas influências para seguir nesse estilo? Quem você tem ouvido?

Tenho escutado muita coisa, eu tenho escutado bastante Lido Pimenta, Jorge Ben… eu tenho escutado coisas que me fazem questionar mais e pensar sobre a música, tipo, sei lá, estou ouvindo muito NandaTsunami. Eu escuto muito a Budah, inclusive participei da produção e da composição do álbum “Púrpura”. Tento puxar um pouco de tudo. Eu escuto tudo que soma, aquilo que me leva a questionar a minha arte de um jeito maior, seja na produção, seja no direcionamento. Às vezes acabo absorvendo muitas coisas de outros gêneros sem cortar aquela referência sonora. Mas o que eu tenho ouvido mesmo é isso e um bando de cantor mexicano da Deep Web.

 

Foto: Divulgação Som Livre

 

Agora a latinidade está na moda, né? Tipo, a galera tá se descobrindo e se reconhecendo como pertencente da América do Sul (América Latina). E falando nisso, você passou uma temporada na Colômbia. Como foi essa experiência?

É justamente esse pensamento. Quando eu fui para Colômbia estava já essa vibe, mas a leitura que eu tive lá foi totalmente diferente. Eu não fui atrás das texturas dos beats de reggaeton, das coisas que todo mundo sabe. Acabei aprendendo a olhar mais para a carga cultural que a gente tem, que fortalece o nosso estilo, que fortalece as coisas que a gente faz, do que para o que de fato a gente reproduz. Porque o reggaeton, assim como o funk, é o resultado de muitas coisas que culminaram naquele estilo musical. Mas se você parar para ver mesmo o que influenciou o reggaeton, vai ter uma lista enorme. E o que eu aprendi na Colômbia foi isso, né, mano!? Eu olhei para a música latina como um todo. Eu olhei para essa herança latina que a gente tem, não só para ideia do reggaeton, do funk, ou das coisas que estão em alta. Eu parei para pensar lá no início dos anos 70 e 80 quando começaram a pegar sinal das rádios caribenhas no Norte do Brasil. E como isso foi se transformando. A gente teve a época do Miami Bass, a gente teve a época do Sound System, a gente teve a época do Funk de Corredor… tudo isso foi se transformando nessa forma latina de produzir. Isso também aconteceu em outros países ao nosso entorno. Entender como as pessoas se relacionam com essa história, foi um aprendizado muito grande para mim. Culturalmente é diferente a forma que eles consomem música na Colômbia e a forma que a gente consome aqui no Brasil. Alguém pode me corrigir, caso eu esteja errado. A gente tem memória curta, entendeu!? A gente esquece rapidamente das coisas. Então, a partir do ponto em que as coisas vão se transformando, a gente passa a olhar para o fruto daquilo sem ter ligação nenhuma com a árvore que produziu. Tipo, a música brasileira é exatamente isso. Hoje a gente tá aí num momento de ser latindo é moda, ser brasileiro, então, é o top um do mundo. Agora com essa essa vitrinização… sei lá se existe palavra para essa porra… mas com esse momento que o Brasil vem passando, a música brasileira tem sofrido muito porque, acho que para mais de uns 30 anos para cá, a gente vem tendo um retrocesso. Mas eu digo no sentido da ideia que a gente só consome daqui. O Brasil só consome Brasil, o próximo lançamento vai ser baseado no lançamento da Anitta, da Ludmilla… aí alguém vai copiar essa pessoa que copiou e a gente vai fazer essa máquina dar certo. Tipo, o Brasil já não exporta mais cultura. O Brasil tem uma dificuldade enorme para se comunicar com outros países, não só pela barreira linguística, mas pela barreira cultural e pela forma com que a gente se relaciona. Eu acho que a internet é uma coisa totalmente diferente com a cultura, não só pela cultura do consumo que é vigente na área da música, mas eu digo por causa do brasileiro. A forma como a gente se relaciona com nossas memórias afetivas, principalmente da música, é muito complicado, mano. Se você parar e pensar dos últimos 30 anos para cá, a gente tem revisitado os clássicos dos anos 2000, que foi a última vez que a gente lançou clássicos de fato. Tipo assim, o que fez muito sucesso recentemente foram a comemoração em DVDs de 10 anos, 15 anos, dos grupos famosos. Acho que a nossa relação com a música ainda tá muito defasada nesse sentido.

A gente consome muita coisa dos Estados Unidos. A gente não consome quase nada nem dos países latinos, nem de Portugal, que fala português ou tipo de Angola ou Moçambique, ou os países de língua portuguesa. A gente consome muito o Brasil e vai também naquela coisa de valorizar o que é nosso depois que os gringos valorizam. Vai lá para fora e volta para cá depois valendo ouro. Foi o que aconteceu com o Arthur Verocai…

A gente que é fã de rap, quando ouviu MF Doom sampleando Verocai foi um choque. Muita gente conheceu ele pelo MF Doom. E tipo, às vezes eu falo isso em público, parece até que eu tô querendo ser o diferentão, mas porra, eu fui conferir essas porra, depois que eu já tinha um certo grau de conhecimento sobre a cultura hip-hop. Tipo assim, eu sou um moleque que veio da base do hip-hop. Eu estava sendo muito mais letrado sobre o que eu tinha no Brasil, do que de fato sobre a história do BIG e Tupac. Eu quero que se foda o Nas. Quero que se foda o que aconteceu com NWA. Não quero saber o que que o Ice Cube fez semana passada, tá ligado!? A gente demorou muitos anos para passar do nível de ter uma rede de contato com o próprio rap nacional. Hoje em dia a gente tem vários veículos, e o RAPresentando é um exemplo disso. Mas até, oito anos atrás, os veículos nacionais estavam todos noticiando só coisa gringa. E essa relação na Colômbia é muito diferente. Lá é um país colado nos Estados Unidos e os caras só falam deles. Você tem um artista nacional com 100 milhões, 200 milhões na mesma semana, e na sequência ele tá em Miami fazendo turnê. Já viram internacional. Já quebrou a barreira da língua espanhola, o segundo idioma mais falado do mundo. Mas o Brasil é um país continental, não tem posto de luxo porque é como você falou, a gente ainda espera a validação americana para dar um passo para a Europa que seja, que é menor que a gente.

Mas você também não acha que a gente tenta criar algo para internacionalizar, tipo, cantar em inglês ou em espanhol ou fazer um reggaeton, é uma parada que não faz parte da nossa cultura? Porque temos uma cultura musical rica e os gringos não querem ouvir uma réplica do que eles fazem. Querem ouvir algo original da nossa cultura.

Mas eu acho que é uma faca de dois gumes essa questão. Assim como os gringos querem escutar algo brasileiro, os brasileiros também não são mais a vitrine que costumava ser, até porque a gente se distanciou. O samba hoje em dia já é uma coisa de elite. E assim, é mais fácil conseguir um sample do Snoop Dogg do que eu liberar o Djavan. É a nata da música brasileira.

Entendi. Então, tipo, não é só sobre como os gringos nos veem, é como os próprios brasileiros veem essa questão.

Tá ligado!? É uma questão totalmente mercadológica que tem um déficit na cultura que vai se perpetuando até a próxima geração falar que chega. É uma parada que vai muito além do cultural do Brasil. O nosso comportamenta, o profissional, a nossa relação com a música nacional foi dizimada pelas grandes labels e hoje em dia tá totalmente posto no meio social. Tanto que a gente vê essa higienização da cultura do rap e do funk. É tipo assim: se um artista grande do funk comete um crime, automaticamente uma cultura toda é posta em cheque. Por quê? Porque ele é o maior responsável, ou seja: ele fala por todos. Então, assim, as culturas hoje foram totalmente reduzidas aos números de expressão.

A gente está mais consumindo do que apreciando a arte?

A gente só consome e fala o que puder. A gente só produz uns samples que puder. A arte não é mais revolucionária nem provocativa. A arte é plagiada. A arte é um branding.. A gente faz porque tem que provocar algo. Ela não é feita com a intenção de criar conforto ou com a intenção de criar divisão. Não existe mais um ponto zero da arte. Hoje, se você não for inteligente para saber se posicionar, você simplesmente não trabalha.

 

Foto: Divulgação Som Livre

 

E o que você pretende passar ou provocar com esse disco?

Na contrapartida de todo esse papo aí que a gente teve, é um álbum feito do Dudu para os fãs. É uma mescla de muita coisa que eu já produzi, mas ao mesmo tempo entregando isso com uma originalidade, com uma sinceridade que eu não tinha feito antes. É um álbum que entrega tanto na qualidade sonora, quanto na resposta geral. Escutar ele e, de alguma maneira falar que é ruim, é impossível. Você pode não gostar, mas dizer que é ruim, não é. E é uma música feita para as pessoas do cotidiano. É feita para as pessoas se sentirem parte disso. São músicas que elas vão sentir que poderiam ter escrito músicas que sintam que poderiam ter vivido em algum momento.

Pô, dificilmente alguém vai achar ruim, porque o álbum está muito bom. As músicas vão se conectando, mas cada uma tem a sua nuance e estética, e essas texturas vão se complementando. E assim, são vários produtores, mas como vocês fizeram para chegar nesse direcional?

Cara, nesse ponto aí eu vou ter que dar uma estrela pra mim, porque eu sou um cara muito chato. Tipo assim, graças a Deus o Matheus e a Larissa também (assessores que acompanham a entrevista) nunca tiveram a oportunidade de trabalhar comigo no estúdio, mas eu sou um cara muito detalhista, não perfeccionista, porque eu vou estar sendo extremo. Porém, eu sou um cara muito detalhista com a minha música, com a minha arte, porque eu me sinto muito responsável por essa entrega. Hoje em dia tem muitas entregas que são responsabilidade do artista. Tem a comunicação, tem tudo que é importante, mas eu ainda sou muito chucro, tá ligado!? Eu tenho que me desfazer disso. Quando eu tô no estúdio, o meu papel é fazer o meu máximo para entregar para a pessoa o sentimento que eu quero. Não reproduzir porque a cada play é um sentimento novo. Mas é entregar o máximo da ideia que eu tive para a partir daquele ponto a gente ter um diálogo. Então, eu tento entregar mais músicas que deem meu ponto (de vista) do que as que iniciam diálogo. Eu quero começar uma conversa já passando minha visão, então, tipo assim, “O Cara Errado” tem músicas que a gente pensou, se esforçou, que eu pensei nos detalhes, tentei pensar nas pausas, porque eu queria que as pessoas sentissem a ideia que eu tive.

Por que nos títulos das músicas tem um complemento. É questão de estética ou tem algum conceito?

Primeiro porque eu sou muito teimoso. Eu sou ruim para dar nome, mas eu quero que as coisas saiam com a ideia que eu tive. Tipo assim, eu não tenho ideia do que eu vou pôr de nome, mas se o nome ficar muito diferente da ideia, eu já acho uma merda e quero tirar a música do disco. O ponto que eu cheguei desse disco, foi: Eu quero ser o mais explícito possível para as pessoas de que eu estou falando sobre uma personalidade, mas ao mesmo tempo eu quero que as pessoas escutem a música como ela é, tá ligado? Na faixa um, por exemplo, que é “DEPENDENTE (fala pra mim)”, antes de ter nome, ela se chamava Tony Country Master V2 (risadas). Por isso, realmente tentei ser muito explícito com as faixas, e as frases são lembretes. Sabe quando tu vai anotando o rascunho? São coisas para as pessoas se lembrarem das frases das músicas e para pôr contexto também. Como você falou, cada música tem um universo, mas eu tentei conectar elas ali da forma que a gente teve. Sejam os nomes, sejam as referências, eu tentei fazer isso porque também senti que cada música foi para o universo muito próprio.

Por ser detalhista, chegou a tirar alguma música porque não se conectava?

Irmão, esse disco teve papo de umas 40 a 50 músicas. Eu sempre sou assim. Todo disco meu é filtro atrás de filtro. É de 100 para 50, de 50 para 25, de 25 para 10. Às vezes são cinco e eu faço mais cinco. Mas, tipo, eu sou um cara muito chato com música e o que mais teve nesse disco foi música. Teve um momento em que ele foi só de música latina, afrobeat, swing wave e um momento que ele foi só de R&B. Em algum momento, eu decidi que, tipo assim, todas essas coisas estavam certas. Tudo isso era música latina da minha maneira.

Você se considera do trap, do rap ou do R&B?

Do rap. Eu sou um rapper fazendo qualquer coisa, irmão. A gente escolhe a nossa posição independente do estilo que faça. Eu sou um cara nascido da cultura hip-hop, eu sou um MC de batalha, mestre de cerimônia, desde que eu me conheço por gente, e eu canto rap. Então, não tem como eu me colocar em alguma outra caixa que não seja rap, porque tudo que eu faço na minha vida será um rapper interpretando qualquer ideia que eu tiver. Se algum dia você me ver no piseiro, saiba que eu sou um rapper fazendo piseiro. Vai estar lá o MC. E mesmo sem o sufixo no nome, eu sempre vou ser um rapper.

Se fosse para escolher uma faixa para definir o disco e tipo sua preferida, qual seria?

A música 10, “FIM (Precisava levar tudo?)”.

Por quê?

Essa música foi um espelho para o caminho de produção das outras músicas. Eu fiz essa música e me sinto um cantor de jazz nova iorquino pós-rehab (reabilitação). Essa música é muito boa e eu escuto como se eu não tivesse escrito e fico vibrando falando: Caralho, queria ter escrito essa música. Eu gosto muito das pausas, do melodrama que tem. Eu gosto muito de firulas. Então, qualquer música cheia de firula, pode saber que vai ser sempre minha favorita.

É bem Miles Davis depois que voltou da reabilitação e falou: agora ninguém me segura mais.

Exatamente, irmão. A música “AUSENTE (Refém da Noite)”, número seis, também é uma das minhas favoritas, mesmo sendo a que mais destoa do disco. Eu acho que ela coloca um pé no chão. O disco é muito musical, então quando você vai escutando, ele vai te colocando em várias histórias. Eu gosto de “AUSENTE” porque ela bota o pé no chão de novo, lembra um pouquinho do rap. Vem um bagulho mais rimado ali, umas barras mais fortes. Toda semana eu mudo, mas essa é forte.

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