Ambicioso. Esse adjetivo, e alguns outros, define Don L. Muitas vezes a sua autoconfiança gera incomodo, mas ele banca. Posso dizer que o entendo, porque comigo acontece a mesma coisa. Nem todos estão preparado para pessoas que acreditam em si mesmas. Quando “CARO Vapor II – qual a forma de pagamento?” ganhou o mundo, os incomodados entenderam que as afirmações de Gabriel Linhares da Rocha não eram apenas publicitárias. Não se falou de mais nada depois que a continuidade de um clássico do rap nacional chegou. O espaço de tempo que separa o I do II é de mais de 10 anos. De lá pra cá, esse vapor subiu na hierarquia. Agora pode colocar em prática o que imaginava, e até ostentar suas conquistas.
Focado nas raízes da música brasileira, Don L fez a maioria das produções a partir de ideias e batidas já montadas na sua cabeça. Iuri Rio Branco finalizou as produções, que teve a contribuição de Nave. Diferente do primeiro, este possui uma coloração menos densa. “É o disco mais solar. Mesmo que seja um fim de tarde, ele ainda tem essa malandragem tropical, muito latente”, observa. “Então é muito malandro mesmo, entendeu? Só que ele tem muitas camadas que as pessoas vão perceber com o passar do tempo e ouvindo mais vezes”. Todas as nuances, detalhes e dificuldades no desenvolvimento do álbum, o rapper cearence explica nesta conversa de pouco mais de 30 minutos que tivemos via Zoom.
“Eu não queria fazer nada gringo dessa vez. Eu sempre fiz uma música que bebeu muito da música brasileira, mas dessa vez eu evitei até usar algo que fosse um arranjo de soul, que fosse… ou uma bateria de boom bap que fosse, ou todas as baterias desse disco elas vêm de uma bateria brasileira, tá ligado?”
Por que lançar o CARO Vapor II e não lançar o RPA 1?
Ah, eu gosto de fazer o que ninguém está esperando, né?
A expectativa era outra, na real.
A expectativa era eu lançar o RPA 1… a galera esperava isso. Mas é que é do momento, eu tenho uma ideia de como fazer o RPA 1 e e não era o momento agora, saca?
Você já tinha uma ideia de qual direcionamento daria para esse disco ou foi surgindo os conceitos ao longo do processo?
Na verdade, desde que eu lancei o CARO Vapor I, já tinha uma ideia de lançar um segundo. Quando você escreve volume 1, supõe-se que você vai fazer outro volume, e aquele era um mixtape. A questão é que as coisas para o artista independente no Brasil demoram. Então, eu tive que reunir as condições necessárias pra fazer. Isso envolve dinheiro e tempo… a gente estava ainda trabalhando o RPA 2, depois quando eu tive um tempo que eu vi que precisava mesmo parar pra fazer e que tinha essa condição, parei pra fazer o CARO Vapor II, entendeu? Mas é também o momento que eu estava sentindo. Ele é um disco mais introspectivo, não que os outros não sejam. Mas ele tem uma peculiaridade, ele tem uma energia, ele tem uma atmosfera que é diferente, saca? Pra mim é muito claro isso. Eu senti que era o momento do CARO Vapor e não do RPA1. Ele é um disco mais Fortaleza, tá ligado? No sentido de… vai ser… eu já tenho a ideia toda do disco, mas ele é diferente. É a vida como ela é. Tem muitas vivências acumuladas. São várias histórias.
O segundo é bem diferente do primeiro. O segundo é mais colorido. Pelo menos na minha visão, traz uma cor. O outro é um pouco mais denso. Por que tomou essa decisão de seguir por esse caminho?
Acho que a gente precisa, né? É muito o espírito do tempo. Eu sempre digo que eu faço a música que eu queria ouvir, tá ligado? É o que eu preciso ouvir. Então eu tô precisando dessas cores aí, saca? E tinha a ver com o tipo de produção que eu queria, o que eu queria propor em sonoridades, o que tem a ver com o que eu quero propor no discurso. A arte é uma coisa só, você não separa forma e discurso. Então, se você vem com um tipo de ideia, a sonoridade tem que acompanhar, a atmosfera tem que acompanhar, o arranjo tem que acompanhar, entendeu?
Falando dessa estática… depois que o disco saiu, o Twitter (X) explodiu de comentários de pessoas tentando descobrir quais eram os samples. Uns diziam que era isso, outros falavam que era aquilo. Mas como foi a criação e o desenvolvimento dessa textura?
Ah mano, isso é uma parada que eu venho desenvolvendo desde lá do Costa a Costa, já estava sampleando música brasileira. Tinha essa ambição de fazer uma coisa inconfundivelmente original. Se pegar a mixtape do Costa a Costa tem vários samples brasileiros que nunca saíram no streaming exatamente porque não tinha condição nessa época de liberar eles. Então ficou pra sempre sendo mixtape, saca? Agora que eu tenho condição de usar samples, comecei a fazer esse uso, mas também tinha uma parada da própria estética do disco ter uma sonoridade que bebe muito de uma época da música brasileira que estava nos samples, mas estava também quando a gente não sampleou. Por isso, às vezes a música parece que tem um sample porque tem essa atmosfera, mas na real é tudo tocado ali. É tudo criado por nós no estúdio, com as ideias que a gente tinha, que as referências eram realmente de um tipo de sonoridade, de um tipo de arranjo de música brasileira de outra época, entendeu? Eu não queria fazer nada gringo dessa vez. Eu sempre fiz uma música que bebeu muito da música brasileira, mas dessa vez eu evitei até usar algo que fosse um arranjo de soul, que fosse… ou uma bateria de boom bap que fosse, ou todas as baterias desse disco vêm de uma bateria brasileira, tá ligado? Mesmo a que parece mais boom bap, que é a “Iminência Parda”, tem uma levada, um flow, que é de um tipo de swing brasileiro que a galera fazia ali nos anos 70, que obviamente tinha a influência do soul e tal, mas era um jeito nosso de fazer. E dialoga muito mais com a África e América Latina do que com Estados Unidos e Europa. Então tinha essa preocupação mesmo….não é uma preocupação, na verdade preocupação é uma palavra errada. Tinha essa parada, essa vontade…
Um cuidado?
É porque é uma diversão, na real. É uma vontade mesmo de querer fazer algo que ninguém fez em primeiro lugar. Não tinha referência nenhuma, não tinha nada parecido com que eu estava pensando em fazer. Se existe algo nesse sentido eu desconheço, não que eu seja o primeiro a fazer rap desse jeito, que tipo assim, tem alguns grandes… o (Marcelo) D2 é um dos caras que é pioneiro nessa parada. O primeiro disco dele é um marco na história do rap brasileiro. Mas é diferente. Eu queria outra parada, eu queria fazer… além de ser outro tipo de sample, eu queria muito um arranjo brasileiro que é super pós aquele samba mais de partido alto. É uma onda que já é a música cearense, que é contemporânea à Tropicália, por exemplo, que é o Belchior, o Fagner e o próprio Rod Rogério. O pessoal do Ceará, mas também essa coisa meio Rogério Duprá, meio Moacir Santos… as influências do bossa jazz, que é uma era da música brasileira muito rica em termos de arranjos. Eu queria essa riqueza ao invés de tipo ter muita influência do funk, do soul, que a galera faz hoje em dia e tipo a música brasileira toda, boa parte dela fica muito baseada nesses acordes, nesses arranjos. Eu queria partir de outro lugar, entendeu?
“A MALANDRAGEM É UMA PARADA QUE É UMA TECNOLOGIA DE VIVÊNCIA, DE VOCÊ CONSEGUIR TIRAR ALGO DE UMA VIDA QUE ESTÁ NO AUTOMÁTICO, NO QUE FOI IMPOSTO. ELA É EXTREMAMENTE DURA E SEM NADA DE ESPECIAL”.

E você também traz uns artistas meio lado B, digamos assim, da música brasileira, tipo Itamar Assumpção, que é um gênio, só que poucas pessoas conhecem, né? Me fala dessa pesquisa.
Cara, Itamar Assumpção, nessa música, a “BANdido”, que a música dele original é a “Fico Louco”, eu já queria samplear há muito tempo. Eu adoro, canto muito, sabe? Tipo assim, na vida mesmo. Tiro onda. Esse refrão que tem ali é um refrão que faz parte da minha vida, de cantarolar, de tirar onda porque acho muito bom. E eu já tinha tentado usar ela muitas vezes, só que nunca tinha tido um resultado bom, porque… primeiro que as músicas do Itamar são todas, a maior parte, de gravadora independente. Às vezes a mixagem é um pouco não ideal para sample, tá ligado? Tipo, para ouvir é perfeito, mas tem muita coisa… os planos, os níveis onde as coisas estão e não tinha um espaço para sample ali. E só foi possível agora porque a gente tem essa tecnologia de stems que não tinha. Essa música não poderia ter existido dois anos atrás, entendeu? E eu sempre quis fazer. Então, quando eu vi que eu podia, que tinha essa tecnologia, eu pensei que é uma parada que também eu não acho super foda de usar muito, essa parada de separar stems, de você poder pegar uma música e separar só a voz dela, ou só um elemento, um instrumento, ela… é boa pra quando você quer muito fazer uma coisa que é o caso dessa música aí. Mas em geral ela degrada muito a qualidade do áudio. Não sou super fã de usar isso sempre, entendeu? Mas nesse caso aí foi necessário porque senão não teria como samplear e a gente fez o que podia ali fazer pra que a música não fosse baseada no sample, entendeu? Ele só tá lá dentro da música, a voz, como se fosse o feat dele dentro da minha música. Eu não usei muito os instrumentos, essas coisas porque usar sample de stems tem essa parada, como se você estivesse usando um MP3 de baixa qualidade, tá ligado?
Em algumas músicas ou você insere o sample, o incorporando na sua música, ou traz outros artistas para fazer interpretação, como Giovani Cidreira, e a própria Anelis Assumpção. Como foi essa tomada de decisão?
Tipo, o Giovani, para mim, é um artista do porte desses caras clássicos da música brasileira. Ele é um tipo de artista difícil de achar. Quando estou na presença do Giovanni no estúdio, eu penso como deveria ser você estar na presença de um Milton Nascimento, de um Belchior. De verdade mesmo. É um cara que tem esse brilho, essa luz. Você bota ele no estúdio, ele pega o fone, coloca no ouvido e o que vai sair ali é inesperado. Você vai se surpreender, entendeu? Não importa, a letra é minha, eu escrevi a letra, eu escrevi a melodia que ele ia fazer, mas quando ele entra lá e canta, é outro bagulho, tá ligado? Ele tem essa mágica, porque eu imagino que os grandes artistas da história da música brasileira tinham. E pra mim foi super… a gente já tinha uma participação dele em “Primavera”, mas que era mais ele fazendo vocalizes, mas eu não tinha tido ainda a oportunidade de fazer um som desse jeito assim com ele, e ainda quero fazer muito mais. Em algumas situações a gente também não tinha um sample liberado do autor do fonograma. Então, eu recriei a música porque não consegui liberar o sample, liberei só a autoria. Às vezes o autor do fonograma não libera o sample, mas você pode recriar a música porque você conseguiu a liberação do autor da música, o cara que escreveu.
Samplear música brasileira é mais difícil?
Algumas vezes é bem difícil, e eu descobri isso agora, porque tem muita coisa que está na mão de herdeiros, né, cara? E são herdeiros que muitas vezes têm um pensamento meio retrógrado, assim, não entendem a função do sample. Às vezes tem uma visão conservadora da própria obra do pai e tal, entendeu? E o que é surpreendente, porque geralmente são artistas que foram nada conservadores nas suas vidas e carreiras. E aí a obra fica na mão de pessoas super conservadoras, um pensamento que até inculto se você for pensar mesmo. E a galera se achando super detentora de uma coisa meio imaculada, que está sendo muito bastião das portas da alta cultura brasileira, quando na verdade está só sendo conservador mesmo. E fora isso, tem também uma questão financeira. Às vezes a galera pede uns valores fora da realidade, umas percentagem de autoria fora da realidade, entendeu? É muito desrespeito, às vezes. Teve sample que eu tentei liberar que eu me senti desrespeitado mesmo, porque a pessoa acha que pelo fato de você estar usando o sample, a música é dela. É como se fosse um favor: “Ah, tô liberando esse sample aqui pra você”. Quando na verdade, muitas vezes, eu não preciso. Tô usando como uma forma de reverenciar um artista, uma era, uma atmosfera. Eu poderia fazer outra coisa ali. Tipo, o sample tem 20 palavras em um refrão ali e minha música tem, sei lá, duas mil palavras. Então, tipo assim, não é uma música de autoria do autor daquele recorte, tá ligado? É uma música no máximo em parceria. E muitos autores não entendem, principalmente herdeiros. Não tive problema com nenhum autor, na real, de verdade, vivo. Principalmente os herdeiros, gravadoras e burocratas. E os herdeiros também se tornam burocratas, porque muitas vezes nem são artistas.
E trazer esses artistas é uma forma de reverenciar e, às vezes, também redescobrir, apresentar eles para o mundo, para uma galera que não sabia da existência deles, que foram e são muito importantes para música brasileira. Então, ter esses impasses e bloqueios acaba também prejudicando o próprio artista que poderia chegar a outros públicos.
É, totalmente
Pensando em CARO Vapor II, e comparando o segundo com o primeiro, esse vapor [no tráfico é aquele que vende, estando em posição vulnerável] subiu na hierarquia? Saiu do cargo de vapor e agora está comandando?
Agora é cara, sei lá, é o dono do morro, né? Mas em que sentido você diz?
Porque ele está com outras visões, caro. Tem uma ostentação. Tem outros desejos e motivações. Também foge um pouco da linha que todos esperam do Don L, de ser uma coisa mais cabeça, mais pensante, o tal do rap de mensagem. Não que esse não seja, mas está um pouco mais leve, sabe?
Pode crer. É louco porque eu acho que CARO Vapor II é o disco mais cabeça, mais pensante, que eu já fiz na vida. Mas a questão é que ele tem uma primeira camada de sentido que é bastante acessível a todas as pessoas. E é isso que um artista tenta fazer sempre. Quando eu fiz RPA, volume 2, eu me esforcei para que, como o papo era muita ideia, falava de política, de muitas referências, para simplificar em outra área, que era um flow mais simples, um instrumental às vezes mais simples, tá ligado? Pra dar esse equilíbrio. Dessa vez, o disco é bastante complexo em vários sentidos, mas ele tem uma complexidade que é o que a gente quer fazer, todo artista quer isso, cara, quer pop-arte, né? É uma arte que seja acessível à população mesmo, não é um bagulho restrito a gente que saca de música demais, porque tem muita sacada. Tem muita sacada, mas aí é na segunda camada, na terceira camada de sentido, tem várias camadas que as pessoas vão absorvendo e às vezes essa absorção é até subjetiva, assim, a pessoa nem percebe. Então tem muito disso no disco. Tem coisas que vão ser absorvidas pelas pessoas como cultura mesmo. Mas que é uma ideia que eu tô passando ali, é um bagulho que eu tô colocando, uma visão de mundo minha. Eu acho que tem muito isso. No CARO Vapor I já tinha muito disso, né? Tanto que RPA 2, que é um disco mais político, fez muita gente entender muito melhor o volume 1. Depois que ouvi o RPA foi lá, voltou e falou: “caralho, tinha coisa aqui que eu não tava pegando e agora eu tô pegando”. Então, na minha obra tem muito disso, ela é circular, né? Os discos vão se completando e se ajudando na compreensão. Mas com certeza, o CARO Vapor II é um disco mais solar, mesmo que seja um fim de tarde. Ele ainda tem essa malandragem tropical, muito latente. Então é muito malandro mesmo, entendeu? Só que ele tem muitas camadas que as pessoas vão perceber com o passar do tempo e ouvindo mais vezes.

Antes o malandro era visto como o cara ruim, o cara errado da parada, da situação. Só que essa malandragem tem sido reconfigurada ao longo do tempo. Tem até um vídeo do Riachão e do Martinho da Cuíca, dois bambas do samba, que falam o que é a malandragem para eles. Eles falam: “o malandro é o artista. Se você não for malandro na sua profissão, você perde, você dança”. Qual a sua visão da malandragem e do bom malandro?
Acho que na favela, no gueto, nos bairros brasileiros, essa visão do malandro nunca foi a corrente. Malandragem e malandro sempre foram palavras dúbias no vocabulário brasileiro. Essa ideia de que o malandro é o bandido é um vocabulário colonial, um vocabulário que a polícia falava: “aquele ali é malandro ou alguém muito conservador da sociedade. Ah, isso aí é coisa de malandro”. Entendeu? Mas, na verdade, na periferia, na favela, o malandro é o cara com jogo de cintura para conseguir viver além de só sobreviver. A gente vive num país em que as condições são impostas para que 1% da população viva e o resto da população apenas sobreviva e sirva de mão de obra, que sustente aquele 1%, que o que acontece até hoje. Então, o malandro é o cara que não se comporta, ele não aceita essa imposição e ele tem que se desdobrar muitas vezes como o mestre, o bamba, falou ali naquele vídeo. Isso pode ser com a vida de trabalhador. Tem o trabalhador malandro, tem um sambista malandro. E tem o bandido malandro, que é o cara que é bandido por culpa da situação, porque ele não encontrou uma outra forma de vida. Não teve opção suficiente também. Tem o bandido, bandido, que é pilantra, que ninguém gosta. Mas tem o bandido malandro também. A malandragem é uma parada que é uma tecnologia de vivência, de você conseguir tirar algo de uma vida que está no automático, no que foi imposto. Ela é extremamente dura e sem nada de especial.
“A ARTE É UMA COISA SÓ, VOCÊ NÃO SEPARA FORMA E DISCURSO”
Nessa feitura do disco, qual foi a maior dificuldade que vocês encontraram ao longo do caminho dessa produção e composição?
Ah mano, tem muitas dificuldades em fazer um disco ambicioso, sempre, tá ligado? Esse foi o disco mais caro que eu já fiz. Na verdade, sempre é o disco mais caro. No próximo vai ser o mais caro, vai ser mais do que esse, porque eu trabalho sempre… para evoluir. Não trabalho para descer degrau, eu estou sempre subindo um degrau a mais em todos os sentidos. Então, a gente melhora as condições e produz uma parada de maior qualidade. Mas ainda assim é milagre o que a gente faz com o dinheiro, tá ligado? Tipo, o que a rapaziada fez ali no trabalho audiovisual, por exemplo, para não ficar só na referência aqui sobre mim. Mas que os caras da Pó de Vidro, que o André Maleronka, que as pessoas que fizeram, e a própria produção executiva da Marina (Deeh), da Caro Vapor… com o dinheiro que a gente tem é meio louco. Você pode pegar um gringo aí que gastou 30 vezes mais e não tem essa qualidade. Então acho que a dificuldade em primeiro lugar é sempre que a gente mora no Brasil e vive dentro de uma limitação de orçamento financeiro, principalmente quando faz arte nesse nível de ambição. Tem isso. A outra parada foram os samples. Deram muito trabalho, mas eu estava com uma pessoa super competente, que é a Mary (Barbosa), uma profissional nisso e trabalhou muitos anos em gravadora, mas tivemos algumas dificuldades, com alguns herdeiros, alguns detentores de direitos, gravadoras, que muitas vezes tem uma visão muito retrógrada e outras vezes são só pessoas que jogam um jogo da indústria da música que nem sempre é tão legal de se jogar, entendeu?
Esse disco é para sair da bolha do rap, do nicho do rap e atingir outros ambientes?
Claro, sim. Todos os meus discos são. Assim eu vou conseguindo mais na medida que vou evoluindo. Eu acho que consegui mais isso, tá ligado? Acho que vai chegar em mais gente dessa vez, sim. Os outros já chegaram também. Já trouxe muita gente pro rap, na real, com os meus discos. No RPA 2 tem uma galera que sacava pouco de rap e começou a colar nos shows… bem louco. Junta público, junta pessoas. Eu gosto de ser esse cara que consegue juntar pessoas para fazê-las aprenderem umas com as outras. É interessante não ficar todo mundo só na sua bolha, só no seu nicho toda hora. Porque às vezes tem bolhas diferentes e que são interessantes também. A vida é curta para você ficar só num lugar sempre.
Tem que ter uma movimentação.
Principalmente na música brasileira, que é uma música que está sempre mudando e cada lugar tem uma coisa diferente.

Uma outra coisa que gerou uma conversa nas redes foi o lance da crítica, que você disse em entrevista ao Lucas Brêda, da Folha, que a crítica do rap morreu, né?
Não, não do rap, da música. Se fosse a do rap estava bom.
Eu até fiz um texto falando sobre isso…
A do rap é que vive mais ainda. Se tem um estilo de música que ainda tem alguma crítica é o rap, mas agora relevância e alcance não sei se tem. Mas faz a sua pergunta, desculpa eu te interrompi.
Em qual sentido você estava falando sobre a morte da crítica escrita ou jornalística da música e da arte brasileira? Porque eu vejo que fora funciona muito bem…
Eu acho que lá fora também está em crise, tá ligado? Apesar de estar menos do que aqui. Mas também está em crise.
É que aqui vai muito no sentido da crítica ser sempre positiva e nunca ter uma visão mais profunda. E, às vezes, alguns artistas não entendem a análise e partem até para o desrespeito, desconsideração e até o cancelamento de quem escreveu. Falta cultura para que os artistas entendam isso?
Em primeiro lugar,o Brasil é um país de lobby, tá ligado? Todo mundo aqui que não é herdeiro tá na beira da miséria sempre. Então, assim, se você é um cara que é trabalhador e que você é um crítico musical, você está sempre pensando quem você vai atingir com a sua crítica, quais inimigos você vai ganhar e se isso não vai te atrapalhar a pagar o aluguel do próximo mês. Essa é uma questão, primeira. Na gringa é diferente porque sempre tem… lá é a capital do império. Então mesmo que você incomode muita gente, sempre tem outro lado porque é uma concorrência. O capitalismo funciona. É lá onde o capitalismo está no seu nível máximo. Então tem muita desgraça, como todo capitalismo, mas aqui ele ainda é um capitalismo independente. Aqui é uma pirâmide muito bem feita. Então as pessoas estão sempre muito mais vulneráveis. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é que dentro dessa pirâmide, as pessoas que eram críticas musicais sempre tiveram uma visão, eu estou falando da crítica que tem alcance… sempre tivemos um problema e uma treta entre os artistas e a crítica, porque a crítica era muito retrógrada, conservadora, racista. Tipo, quando o rap chegou no Brasil, os colunistas, o pessoal da crítica de música que amava o rock norte-americano e esse tipo de coisa, e o rock brasileiro mais conservadorzinho, caíram pra cima de uma forma muito racista, tá ligado? Porque os caras eram isso mesmo. Aí teve uma hora que começou a ficar feio, veio a internet, e a internet começou a questionar essas coisas. E aí começou a ser legal, achar tudo legal, entendeu? Então, ah, isso aqui é uma manifestação popular, então não posso falar mal porque a galera vai dizer que eu sou racista. Mas na verdade, se você tá com medo de alguém dizer que você é racista, provavelmente você é racista, tá ligado? É muito provável, acho que é bem nos 80%, tá ligado? (risadas). As pessoas que realmente poderiam falar alguma coisa não tem uma segurança porque estão ali numa posição que também não tem muita legitimidade, às vezes, saca? E é muito difícil mesmo, não tem espaço dentro da mídia corporativa… aí tem uma queda da indústria da música, é tanta coisa, velho, que eu acho que não tem um fator só, entendeu? Mas o fato é que esse bagulho prejudica. Eu não sou sociólogo para analisar por que a crítica de arte tem tão pouca relevância hoje em dia. Eu só posso dar meus palpites, tá ligado? Mas não quer dizer que eu esteja certo nisso. Agora, o que eu sei que eu estou certo e que é um fato, é que isso prejudica a arte. Isso tá aí para todo mundo ver, entendeu? Tipo assim, se a galera faz o mesmo disco cinco vezes, tipo seis vezes, e tem sucesso, seis vezes e ninguém fala: “caralho”. E a molecada tá indo pra show de rap que os caras cantam em playback, e a galera vai pro meu show pela primeira vez e vê alguém cantando que não é playback, cantando um rap, galera acha que eu tô fazendo algo diferente e não os caras que tipo assim, é como se fosse: “caralho, tu canta?” Porra, é o que eu faço da vida, tá ligado? (Risadas) O estranho seria eu chegar aqui e não cantar e dar um play. Isso seria ser DJ, tá ligado? É outra profissão. Mas tem gente que não conhece, porque foi educado já numa cena que nem tem isso. Então ele acha normal isso. Se você não conhece o que é um show, uma pessoa canta e você vai sempre num show que os caras estão fazendo playback, você acha que isso é o normal, entendeu? Porque ninguém falou pra você. Tem essa parada aí que prejudica muito a arte, porque a galera se acomoda e não tem mais desculpa. Tem gente que tá ganhando dinheiro pra caralho aí, com toda condição de produzir um trabalho de qualidade pro público, mas não faz diferença pro público, porque eles não conhecem nada melhor, entendeu?
E é um público também novo que tá chegando agora no rap.
Galera tá chegando, mano. É novinho, pô. Molecada não tem culpa, não. Molecada chegou agora no bagulho. Isso é o que eles conhecem. É o artista que tá dando a linha. Tá ligado?
Tem que ser esse mestre de educação também pra apresentar o hip hop.
Exato. conhecem o rap. Não conhecem o hip hop. E o rap ainda tem muita crítica, mas a galera leva pro pessoal demais. E é foda porque também fica uma galera que: “ah, vou ser o crítico então. Vou começar a fazer uma crítica negativa”. Aí começa a fazer críticas negativas também que são desrespeitosas, porque não sabe fazer.
Não tem embasamento.
Desrespeita o artista, não sabe falar as paradas direito, não tem embasamento. Às vezes quer ser o crítico, aí vai criticar logo a parada errada, a parada que é o melhor que está rolando, tá ligado? Porque não tem coragem de criticar um bagulho que está todo mundo: “uau”. Que é o pop, né? Eu sempre fico esperando mais de pessoas que tem condições pra fazer isso, porque eu sei que muita gente, como eu te falei: ‘tem que cuidar do seu emprego em primeiro lugar”.

