Queria ter a oportunidade de viver apenas um dia no universo criativo de Flora Matos. As ideias parecem fluir com facilidade. Porém, o “problema” está em organizá-las. Existem incoerências que incomodam terceiros. Também a colocam em contradição com ela mesma. Critica a Inteligência Artificial ao mesmo tempo que usa indiscriminadamente. Pelo histórico, já era para termos nos acostumado. Mas como sempre, caímos na estratégia publicitária dela. Mesmo que de uma maneira não usual, Flora joga a isca. Inevitavelmente, todo mundo abocanha. É necessário reconhecer que ela sabe como fazer. Não precisa de assessoria de imprensa, marketing, investimento em mídia. Na verdade, não precisa de quase ninguém. É um exercício de uma mulher só. Não deveria. Mas é.
Quem acha que isso é de hoje, se engana. Depois de “Eletrocardiograma”, ela assumiu todos os seus meios de produção. É MC, compositora, produtora, faz a mixagem, masterização, as artes das capas, os visuais e até a distribuição. Nesse processo, alguma coisa pode sair do controle. Como na metáfora do pato [que anda, nada e voa, mas não domina nenhum desses movimentos], alguma habilidade não vai ter o nível de excelência desejado quando se abraça todas.
No caso de Flora, isso não deveria ser mais um espanto. Ela tomou a decisão de ser uma loba solitária. E essa afirmação nem é tão correta assim. No já “polêmico” FLOWRA FM – DISCO VOADOR 4, que em menos de 24 horas no ar gerou amores e desilusões, a multi-artista não está tão sozinha assim. Algumas produções são assinadas por Olimpio, Kaian, L. Abner, Producer, Faew, Bruno Cons e datboytwnty. E a engenharia de masterização, agora está sob a responsabilidade de Ramon Calixto. Outro quesito importante que não foi considerado nesse disco é a participação da Nneka, cantora nigeriana que começou a ascender musicalmente nos início dos anos 2000. Conhecida no underground [indie, alternativo], ela tocou com Lenny Kravitz e esteve presente na turnê “Distant Relatives” do Nas com Damian Marley. Depois de ganhar o mundo, saiu dos holofotes. Vê-la sendo protagonista em NO GO WAKA foi uma grata surpresa. Flora a deixa à vontade, só aparecendo no final. Talvez um dos feats inesperados, até pela maioria não conhecê-la [considerando que Nneka não é tão conhecida fora do circuito em que atua].
A promessa de que FLOWRA FM seria melhor que o clássico “Eletrocardiograma” gerou expectativa alta entre fãs, haters e curiosos. A verdade é que dificilmente ele será superado. Cada um reflete o seu tempo, e o momento artístico que Flora Matos está vivendo. Nem existe a possibilidade de comparação. A divisão em 4 partes o diferencia. Não se sabe se todos terão um mesmo fio condutor. Difícil prever. O fato é que aguardavam a Flora Matos de sempre, cantando sobre amor, romances, desilusões. O que chegou foi uma avalanche de desabafos. Quase uma sessão de terapia em que os alvos eram seus próprios analistas, tendo que obrigatoriamente ouvirem o que ela tem para dizer.
Acredito que esse direcionamento tenha feito muita gente desgostar do que ouviu logo de início. Esperava-se outra coisa. Porém, o que seria da arte se ela sempre fosse objetiva? Sua função é fazer refletir, instigar, gerar provocações, mexer com a emoção. Na música, isso foi mudando ao longo do tempo porque a consideramos só mais um produto na prateleira. Se não estiver bem embalado e bonito para consumirmos rápido, vamos reclamar porque sabemos nosso direito sobre aquilo.
Foi o que aconteceu quando a FM de Flora e seu alter-ego [com imagem de IA e tudo] FLOWRA começou a transmissão diretamente de um disco voador. As interferências apareceram rapidamente. Os quesitos técnicos [mixagem e masterização] foram os pontos mais criticados pelos usuários do X porque algumas músicas tinham a voz coberta pela base. Não dava para entender a letra. Tinha sujeira demais. A textura estava áspera.
Pouco se falou que a caneta ainda possui muita tinta. As letras contém polêmicas, egotrip e ataques? Sim, claro. Ela se perde em alguns momentos? Também. É um disco em que descarrega todo o seu arsenal bélico. Coloca para fora a tensão e o que estava guardando por um bom tempo. Se gratuito ou não, faz parte do rap. E é interessante que isso acontece o tempo todo, e pouco se fala. O quesito estético, defendido pela mesma, também. No trap então. De 10 palavras, entende-se duas. Tudo certo. Faz parte. É que dela esperava-se mais.
A versão original [que começa com FLOW ACADÊMICO], que fez muita gente ficar acordada até 1h da manhã, tinha uma sequência bem confusa que dava a impressão que Flora só tinha jogado um monte de músicas aleatórias. Sem coerência nenhuma. Parecia uma mixtape sem compromisso com o “conceito” de álbum. Mas eis que, depois de ser criticada, surge uma segunda versão [fazendo como fez o saudoso Kanye West certa vez por motivos parecidos]. A segunda, com as faixas em sequências diferentes da anterior [começando com DONA DO MEU FLOW], e provavelmente com a mixagem e masterização ajustadas ao gosto do freguês, faz mais sentido. Até as introduções de alguém mudando as frequências de rádio foram colocadas de uma forma que não pareça estar ali só para tapar um buraco. Conseguiu, mesmo que tardiamente, organizar de uma maneira assertiva. MARIA BONITA SEM LAMPIÃO, DONA DO MEU FLOW, VAI APRENDER A RESPEITAR E FLOW ACADÊMICO são boas. Mostram que ela mantém a cadência. A composição acima de qualquer coisa, é o que a melhor define, permanece intacta. Musicalmente falando, o básico dita as regras. Nada demais. Alguns batem bem, como o de VAI APRENDER A RESPEITAR. Não existem malabarismos. É simples. Mas comunica. Nada FLORA DE CONTROLE.
Nem de longe podemos considerar que este trabalho esteja acima da média dela. Mas é apenas um cheiro do que está por vir. Talvez os próximos decepcionarão novamente. Ou pode ser que superem. O que vale é dar mais uma chance. Apreciar com calma. A pressa faz a gente não perceber diversas nuances que só podem ser observadas com uma escuta, não apenas ouvir passivamente. E não apenas no caso de FLOWRA FM- DISCO VOADOR 4. Muitos discos “odiados” inicialmente amadureceram com o tempo e se tornaram clássicos. Se é o caso ou não, só o tempo vai dizer.

