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Crítica // Agora existe um antes e um depois do BK’ no estádio

Um marco para o rap nacional.
Foto: Henrique Augusto / bmaisca

Talvez nem o próprio BK tivesse a dimensão de que 10 anos depois de escrever o refrão de “Castelos & Ruínas” estaria colocando em prática o que jogou para o universo [“Tô de rolé pelo meu bairro de olho no mundo / Quero saber o que que o mundo tem pra oferecer / O que que a vida tem pra oferecer”]. Quando o relógio marca 19h30, as luzes se apagam. “Sigo na Sombra” surge para fazer uma camada de suspense enquanto no telão é escrito um conto etíope que diz: “Para reconhecer o rei na multidão, observe aquele que não segue o fluxo, pois o verdadeiro líder caminha sobre seus próprios passos”.

Assertivamente escolhido, ele reflete a jornada de Abebe Bikila na última década. Ao olhar para o céu, a lua crescente está coberta pelas nuvens. Vai desaparecendo aos poucos. Sem combinação prévia, a imagem é quase uma réplica do visual que complementa o cenário. Com nuvens carregadas ao fundo, BK’ surge todo de branco no topo de uma escada. Vai descendo devagar enquanto canta “Titãs”. Um balé o acompanha. A banda não se faz presente em todos os momentos. O público toma cada espaço na pista, nos aneis inferiores e superiores. Este foi o começo apoteótico de um marco histórico para o rap nacional.

Para construir a narrativa, “C&R” serviu de fio condutor. É verdade que ela não foi tão retilínea quanto se imaginava, porém, se faz necessário entender o que se passa na cabeça do artista ao criar uma linha do tempo não cronológica. São 3 atos que se dividem entre (1) A Luz, (2) A Sombra e (3) Coração. Cada uma dessas etapas apresenta uma das características artísticas de BK’. Não que sejam literais. Mas é dessa forma que ele conta sua história em 3 horas, através de quase 50 músicas. O número, inconscientemente ou não, era o mesmo da quantidade de pessoas que estavam presentes na arena [de acordo com a organização]: 50 mil. O público é majoritariamente jovem. Existe uma diversidade. Há quem cante todas, e aqueles que só observam, dançam e levantam a voz apenas no refrão. No fervor, as rodas de bate cabeça surgiram, inclusive com sinalizadores. Cada um curtindo a sua maneira.

 

Foto: Henrique Augusto / bmaisca

 

O ato inicial é o mais solar. BK’ se diverte. Reúne os amigos. Celebra. Traz Luccas Carlos, L7NNON, Akira Presidente, Sain e Marcelo D2. Esses últimos chegam com “Eu Já Sabia” e ficam numa versão inusitada de “O que Sobra/Pia Brota”. Parte do Bloco 7 se reúne. Fazem a festa. Todas as vezes que Akira entra, parece um pouco desconectado. Apesar de dizer “Sobre política: Não vote”, em “Visão Ampla”, ele faz o L. Se posiciona, mesmo que discretamente. “Se eu não lembrar de Você” tem a presença luminosa e apimentada de Marina Senna. Ela carrega uma sensualidade que é até difícil de explicar.

O próprio rapper fica desconcertado. Nem com os óculos escuros consegue disfarçar o quão fica desconcertado. A pose de mal se desfaz. Assim também acontece com alguns homens negros. Quando canta “Continuação de um Sonho”, olho para o lado. Observo dois irmãos chorando copiosamente. Isso não acontece apenas nesta. A sequência de “Planos” e “Música de Amor Nunca Mais” deixa muitos com o coração na mão. Não querem que toque as que machucam. Mas BK’ pergunta se “acharam que eu ia trazer o Luccas Carlos aqui pra ficar olhando pra mim?” Sentados na escada, mexem com os sentimentos.

 

Foto: Henrique Augusto / bmaisca

 

Para honrar quem merece honra, Evinha é ovacionada ao fazer o dueto em “Só Quero Ver” e “Cacos de Vidro”. Homenagem necessária para uma das vozes da música brasileira que por muito tempo não recebeu o reconhecimento que merece. Outro ponto alto, e até surpreendente, foi o surgimento de Febem para “Esse é o Meu Estilo”. Faz geral sair do chão. O MC e Ashira foram os únicos do rap de São Paulo a participarem. “Amém, Amém” também impossibilita o corpo ficar parado. A hora escolhida para a música quebrou um pouco a dinâmica. Mas esquentou os instantes de mornidão.

O lado denso, da segunda parte, teve como protagonista o sax-tenor da Sintia Piccin, que fez um solo intenso na introdução de “Caminhos”. A versão, uma das surpresas prometidas pelo BK’, foi escrita pelo saxofonista estadunidense Kamasi Washington. Também marcaram presença 2Z Dinizz, Fye e Djonga. Depois de “Um Mundo é Nosso”, BK’ revelou que no velório da sua mãe, Ana, o rapper mineiro abandonou todos os compromissos que tinha, pegou um avião e prestou todo apoio a família dele. Djonga ressaltou que Kendrick Lamar não conseguiu o feito que o amigo teve de lotar aquele mesmo lugar.

De fato, essa dimensão ficou ainda mais evidente assim que JXNVS pede para ligarem as luzes dos celulares. BK’ conseguiu não só movimentar os paulistanos para presenciar o desenhar de uma realização pessoal que representa milhares de pessoas. Teve quem viajou do Rio de Janeiro e de outras partes do Brasil. Não se trata apenas de mais um show. Também não se pode ser comparado com qualquer outro que ele tenha feito. Evidencia que é possível. O sonho foi realizado coletivamente. Mostra que o rap nacional está em constante movimento. Por outro lado, a análise poderia ser feita de outro viés. Porém, apesar de alguns detalhes técnicos, coesão e coerência no setlist, os arranjos e a falta de um DJ, é necessário ter uma visão mais ampla, do todo. Poderia dizer pouquíssimos nomes do rap e do trap que conseguiriam o mesmo feito. O que por algum tempo soou como ego trip, agora reflete a realidade. BK’ é o maior da sua geração do rap. Em meio às ruínas, construiu seu castelo. Podemos dizer que agora no rap nacional existe um antes e um depois de BK’ no estádio. Quem viveu, viveu. No Maracanã será outra experiência.

 

Foto: Henrique Augusto / bmaisca
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