Aos poucos, o sol se despedia do sábado pintando o céu de um alaranjado vibrante. Antes das 17h, na Barra Funda, em São Paulo, uma grande fila já se formava em frente ao porta 12 do Memorial da América Latina. Uma data simétrica, que numerologicamente representa a abertura de portais e a sincronicidade, o 08/08 foi escolhido para que o funk tivesse um encontro com a música de concerto no Red Bull Symphonic. Fieis, assim como a torcida do Corinthians, os fãs do MC Hariel chegaram cedo para pegar o melhor lugar de um dos 2 lados da plateia do auditório Simón Bolívar. Ali, horas mais tarde, aconteceria a junção inédita das modernas batidas eletrônicas genuinamente brasileiras com a musicalidade sinfônica (erudita). Na teoria, ambos estão bem distantes. Na prática, o maestro Xuxa Levy fez todos entenderem que um pode frequentar o ambiente do outro sem que haja conflitos. A dúvida era de como essa fusão ia acontecer.
Esse segredo, guardado a sete chaves, começou a ser revelado às 8 da noite em ponto. Minutos antes a Orquestra do Fluxo entra sob aplausos. É diversa, assim como deveria ser todas no Brasil. Na sequência, Xuxa se posiciona ao lado do DJ Thi Marquez. Em cima de uma moto branca, Hariel faz giros altos sem fluxo [acelera com o veículo parado]. Cada acelerada tem a resposta da seção de cordas na mesma tonalidade, seguidas pelo toque dos atabaques. Essa “conversa” arrepia a pele e dá amostra do que aconteceria nos 6 atos dos próximos 90 minutos.

Apesar de termos como base os Symphonic’s feitos anteriormente, não tinha como ter uma noção de como seriam as adaptações. Porém, Xuxa criou uma orquestra com vivência no funk. Assim, tudo flui de forma natural. É também necessário levar em consideração os arranjos, principalmente das cordas e percussões. Tudo muito bem equilibrado. O eletrônico e o orgânico se complementam.
Isso faz com que os BPMs se mantenham, graças também à direção musical do Nave. Mesmo incentivada pelas batidas, a plateia teve de permanecer sentada a maior parte do tempo. Porém, cantava letra por letra. Também a todo momento de silêncio um “Vai Corinthians” é ecoado. Ao meu lado, uma adolescente estava com os pais. Ela cantava a plenos pulmões, a mãe não fechou o sorriso em nenhum momento. O pai, mais contido, parecia impressionado. Quando Tasha e Tracie entram seguidas da MC Ktrine cantando “As Mina que os Meninos Gostam”, a menina explica a importância delas para a autoestima e o empoderamento das mulheres que acompanham o rap, trap e funk. Aliás, Ktrine rouba a cena. Carismática, desfila fazendo o abre alas para as gêmeas desenrolarem “Tang”. Em seguida, Hariel volta todo de vermelho cantando “Quem é Essa Menina de Vermelho”, do MC Daleste. Este foi um dos pontos altos, de vários. Não era um concerto particular do Haridade. Mas sim, uma ode ao funk paulista, da Baixada Santista à Zona Norte de São Paulo. Para isso também convidou Neguinho do Caxeta, MC Davi, MC Marks, Menor da VG.

Quando chamou MC Don Juan para cantarem “Oh Novinha” e “Lei do Retorno” não teve jeito. O êxtase tomou conta. Uma parte se levantou para dançar. As vozes sobressaíram as dos MCs. Representando o interior, a 019 [Região de Campinas] especificamente, a Submundo 808 teve o seu momento. O corpo que já estava sendo incentivado, reagiu instantaneamente a bruxaria dos 4 DJs. “808 no dia 08/08”, disse Hariel, que antes de chamar os amigos da Sub, se emocionou ao homenagear o amigo MC Kevin com “Cavalo de Troia”. Ao final, desceu até a platéia e abraçou por alguns bons segundos a (Tia) Val, mãe do funkeiro falecido em 2021. “Esse dia e em toda a história, o funk vai estar sempre de pé”, afirmou o MC, que em algumas vezes repetiu: “MC Hariel ao vivo na voz sem filtro e sem Photoshop. Originalmente original”.
Depois de muito procurar o bloco de notas na bolsa, tive que me render as páginas em branco de um livro que carregava para não perder os detalhes. Anotar no celular tiraria a atenção da celebração do espetáculo finalizado com “Diretoria”, a qual todos os convidados e convidadas dividiram o microfone. Para finalizar, MC Marks puxou “Rap do Silva” e “Funk da Felicidade”.
Qualquer artista do alto escalão do rap e do funk BR poderiam fazer o Red Bull Simphonyc, porém dificilmente seria tão autêntico quanto Hariel foi. Tanto na forma como escreve, nos temas que aborda, quanto no jeito que canta, ele consegue dialogar com todas as vertentes do funk, do Consciente até o Ostentação, passando pelo Bruxaria e chegando ao Rap. É singular. Por isso, consegue se conectar facilmente com um tipo musical não tradicional para os ouvidos de quem vive nas periferias do país. A parceria com Nave e Xuxa Levy também abriu uma porta e possibilidades para que sua música ganhe ascensão internacional. Diferente das demais edições ao redor do mundo, essa representa muito aqueles que desde sempre foram perseguidos e desacreditados. Avisa que é o funk.
* O concerto poderá ser assistido no Youtube a partir de 02 de setembro

