Na Rua Formosa, 65, no centro histórico de São Paulo, ao lado da estação Anhangabaú do metrô, tem um bar. De imediato você não conclui que ali vai acontecer um pocket show com a participação de DJs. O som do interiror, que se estende para o lado de fora, toca variações de piseiro e funk.Pergunto a atendente se é ali que teria a audição da mixtape “Último Ano Sendo Pobre” da CAE. Ela responde positivamente e me acompanha até os fundos do estabelecimento, onde uma escada leva para outro espaço.
O ambiente com poucas luzes acesas é ideal para o que se propõe. A cantora/rapper faz uma sessão de fotos. Os flahs das câmeras iluminam, enquanto as batidas carregadas do tecno servem de guia para cada uma das poses.
Ao terminar, sentamos numa das mesas de metal encostadas no canto do mezanino. É 16 de outubro de 2025. No dia seguinte, U.A.S.P ganharia o mundo. “Algumas pessoas que ouviram disseram que eu estou otimista”, revela. “Fiquei muito feliz porque eu realmente acho que sou. Acho que o título meio que reflete isso. Não é lei da atração, não é essas coisas, que eu também gosto um pouquinho, mas é uma maneira de você sobreviver porque é difícil (às vezes) você acreditar que isso é uma da sua realidade”. Lembrando as músicas que ouvia no período em que trabalhava CLT, CAE fez as próprias para dar uma perspectiva melhor a quem ouvir. Pergunto se as composições são projeções do futuro. Sua resposta é objetiva: “Acredito que já estava prevendo. Eu gosto muito de artistas que fazem isso e acho que a mixtape segue por esse caminho. Às vezes eu escrevo umas coisas e elas acontecem depois que eu escrevi”.
“ACHO QUE EU DESCOBRI QUEM EU SOU, A ARTISTA QUE SOU NO MEIO DO CAMINHO. DESCOBRI QUE GOSTO DE FAZER MÚSICAS QUE PÕE AS PESSOAS PRA CIMA”.
Foto: @feshoots
Sonhadora e otimista, ela diz que as composições a ajudaram a descobrir que gosta de escrever coisas que põe as pessoas para cima. Ela fala de amor, de sexualidade, de causas da comunidade LGBTQI+ mas focou em seguir uma temática positiva. Tudo isso tem base na sua vivência. E como (naquele momento) fazia um tempo que não ouvia todas elas, tinha um certo receio de chorar quando fosse ouvir novamente.
“Acho que ele é um projeto bem pessoal, por mais que eu tenha tentado misturar e colocar algumas coisas que nem são tão pessoais minhas”, observa. “Apesar de ter muitas nuances, acho que tem muito de mim ali, da minha vida, do que eu passo todo dia. Sou eu todinha”.
Esse é um álbum não oficial com todas as características de um. É uma forma dela experimentar diferentes ritmos e possibilidades. Por isso, não quis se prender em algum tipo de conceito porque poderia ousar e fazer algo mais solto. Perfeccionista, acredita também que não está pronta para chamar esse de seu disco de estreia. Grava, ouve, edita, muda. Chega um momento que precisa se desprender. “Não vou ouvir mais depois de fechado porque sei que vou achar defeito em coisas pequenas”, ressalta. “Assim eu sei que não vou mais poder mexer nessas coisinhas”. Ao longo da produção alguns sons caíram. A ideia também era ter feats em metade do projeto, porém, no final, ficou 70 % solo. As escolhidas foram Nivy, NandaTsunami, LUAA, FLORAH e AFRONTA.
“O feat é uma dificuldade, porque tem que bater a agenda com as pessoas. Tem que planejar tudo certinho com outros artistas”, explica. “Alguns produtores também deram um salve querendo participar, mas não foi pra frente. Só está quem quis participar mesmo, pessoas que me abraçaram. Acho que essa foi a lição que eu aprendi no final das contas. Acho que o feat é uma coisa que está super em alta, porque ajuda você a conquistar outros públicos. Mas no final das contas eu acho que foi bom eu ter feito uma coisa mais solo pra conseguir me mostrar mais”.
Foto: @feshoots
Dessa forma, CAE pretende transmitir uma mensagem de transformação. Inicialmente essa mudança se limitava ao financeiro. Mas ao longo do processo foi descobrindo que nem tudo se resume ao dinheiro. E mesmo não sendo rica, conseguiu ter uma voz, influência, status e fazer seu nome no rap. “As pessoas acabam te vendo de uma forma diferente”, reflete. “Você muda, literalmente. Essa é uma mudança que vem de dentro, sabe!? Acho que tem coisas muito pessoais que definem isso”. O espaço que tem conquistado na música a levou ao The Town, um dos mega festivais do Brasil que não conseguia acessar antes como público. O seu “próximo passo” é ficar rica. “Quero lançar minha próxima mixtape já sendo rica… quem sabe vem. Vamos ver o que o destino prepara para mim. Mas eu estou fazendo muita música, muitas participações”.
Mesmo esperançosa, e mantendo os pés no chão, o sentimento não é que “Último Ano Sendo Pobre” vai mudar sua minha vida definitivamente. Ainda tem muitos planos e coisas para colocar na rua. “Minha vida continua. E isso me deu uma perspectiva muito tranquila de futuro. Acho que só tenho a crescer”. Para que consiga realizar seus propósitos, CAE observa que “nem todo mundo precisa ouvir o que faz”. Mas se as pessoas certas ouvirem, a meta será cumprida.
“Eu sinto que, mano, eu tenho tanta gente que sou muito fã que me escuta hoje, que eu sei que tudo é uma porta meio aberta, que de degrau em degrau eu sei que eu vou chegar onde eu quero chegar”, afirma. “Tenho apenas um ano e meio de carreira… é pouquíssimo tempo. Até hoje eu tinha 10 músicas lançadas. É pouco. Então agora tem mais 7 músicas novas pra alimentar meu catálogo e meu público. E é isso, acho que são degraus. Isso aqui vai me levar pra um lugar muito bom”.