Festival Batuque, a “festa da firma” do RAP

Acompanhamos o segundo dia (e o protagonismo das mulheres) do principal festival de rap de São Paulo

Foto: Reprodução / Sesc Santo André

Foto: Reprodução / Sesc Santo André

Chuvisca em Santo André. No trajeto, iniciado em Campinas, a brisa fria tomou o lugar do calor escaldante. Os agasalhos são tirados das mochilas. No portão do estacionamento do SESC um cavalete anuncia que não há mais vagas. Pessoas se aglomeram nas calçadas. Cervejas são vendidas. Ingressos negociados. O cheiro da erva queimando é sentido de longe. Tudo tranquilo.

O consolidado Festival Batuque está prestes a começar sua oitava edição. O desfile de estilos é intenso. Gente de todos os tipos se junta. É a “festa da firma do RAP”. Por todos os lados é possível observar camisetas enaltecendo J Dilla (“JDilla change my life”). O W amarelo do Wu-Tang Clan também estampa panos de todas as cores. Raekwon é o headliner dos dois dias (2 e 3 de dezembro). A expectativa é para que a noite seja memorável.

Ao entrar no gigantesco galpão, a temperatura muda. As blusas são amarradas na cintura (clássico) e/ou na transversal (contemporâneo), passando por cima de um dos ombros. A pista ainda está vazia. As filas da lanchonete se alongam. O role está apenas começando. O Dj Black Snake 808 toca seu set. E o fluxo aumenta.

Kamau é o cerimonialista. Acompanhado pelo Dj Vitonez, o MC mantém o gás ligado. Enquanto nas caixas ecoam os clássicos do underground, o bate cabeça aumenta a adrenalina. O calor é intenso. Sentir o ar não é fácil. Na área externa, o fumo reina. Tabaco e ganja se encontram no ar. Ideias são trocadas e baseados compartilhados. Don Cesão e a CEIA estão por ali.

Às pressas os Rodies preparam o palco. Os equipamentos do Snake é substituído. Rimas e Melodias já estava no esquema. A DJ Mayra Maldjian faz os últimos ajustes. Poucos minutos depois, sem atrasos, Alt Niss, Drik Barbosa, Karol de Souza, Stefanie, Tássia Reis e Tatiana Bispo entram no palco, uma a uma conforme seus nomes são anunciados. Super-produzidas, as 7 MARAVILHAS DO RAP fizeram geral se juntar. Impossível não se impressionar. Não dá para ficar parado.

São quase 60 minutos intensos de performance. As garotas na plateia se identificam. Cantam ao pé da letra. Se emocionam. Por outro lado, os caras não chegam junto. Só Observam. Talvez, o posicionamento delas e a mensagem de empoderamento das mulheres e a contestação do machismo feriu o ego de alguns. JAB. Rimas e Melodias mostrou que a mulher tem poder para fazer o melhor show da noite (spoiler). Mais tarde, Flora Matos confirmaria o poderio feminino.

O bate-cabeça continua nos intervalos. Tudo na paz.

Às 20hs , Rincon Sapiência começa sua apresentação. No telão, belas imagens, que mesclam fotos dele com artes africanas, ilustram o ambiente. Suas roupas são extravagantes, no melhor estilo Manicongo. De saia colorida, com detalhes azuis, e camisa esverdeada, Sapiência está cheio de energia. Dança. Gesticula. Está animado. Acompanhado por uma banda, ele muda a sonoridade de grande parte das canções do álbum “Galanga Livre”. Poucos entendem. Por destoar quase por completo das musicas originais, o show não empolga. Mas o baile segue.

Nas últimas 3 musicas, os instrumentos orgânicos ficam em segundo plano. As batidas eletrônicas estrondam nos falantes e dão uma reacendida na fagulha. Mas nada que impressione. O relógio não para. Rincon Sapiência não tem mais tempo. A execução da saideira foi recusada.

Vitonez risca os discos. O Mestre de Cerimônias continua exercendo sua função com maestria. Relembra os velhos tempos. Desce do palco e vai participar da roda de bate-cabeça.

Antecedendo a atração principal, Flora Matos surge esplendorosa. Na companhia do Dj Naomi, a MC evidência sua beleza. De top (na real de sutiã) a amostra, ela está trajando um Hobe de cetim (ou seda) cor creme combinando com a calça. Seu sapato preto tem salto elevado. Ousada, Flora tira o Hobe nos momentos seguintes. Sensualiza. E os guardinhas do RAP entram em cena. Se queixam: “cadê a mensagem?”, “nunca vi cantar rap de top”. “Até chamaram ela de vadia”, diz, o jornalista Eduardo Ribas, do Per Raps. “Tem uma parte do público do rap que é cabeça fechada demais.” (Carol Patrocínio detalha o ocorrido no artigo: “Festival Batuque tem igualdade de gênero, mas público precisa ser educado“) Felizmente, os conservadores tiveram um choque de realidade: as mulheres estão, de fato, tomando os lugares que sempre pertenceram a elas. CHORA BOY. E como disse várias vezes o Kamau: MÁXIMO RESPEITO.

Aguardado com ansiedade, Raekwon entrou às 22hs. Todo de preto e air max 90 no pé. Mãos ao alto. Homens e mulheres fazem o tradicional símbolo do Wu-Tang. Ele anda de um lado para o outro. Parece mancar. Talvez seja o gingado gangsta. Ele abre com musicas do seu atual álbum, “The Wild”. Geral se aperta. Os picos só acontecem quando Raekwon revisita os clássicos do Wu-Tang Clan. Nada que tire a sensibilidade dos fãs.

Raekwon homenageia Old Dirty Bastard e Prodigy, do Mob Deep. E assim, como a grande maioria dos “gringos” que vem ao Brasil, ele enaltece a beleza da mulher brasileira. Aquele indevido clichê. No canto direito do palco, Raekwon avista uma garota de cabelo cacheado, com uma tonalidade “loira”, e literalmente joga uma cantada. A moça fica sem graça.

Cansativa, a apresentação provoca uma debandada. Bem antes do final, boa parte do público deixa o local. Ao caminhar é difícil não chutar varias latas – e atingir alguém. O tênis fica sujo. Os ouvidos doem. Mas volto satisfeito. Flora Matos e Rimas e Melodias salvaram a noite.

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